O charme dos vinhos do Dão

Fotografia: Fotos D.R.
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Luís Costa

Luís Costa

Chama-se Carlos Lucas, desde há décadas que faz vinhos em diversas regiões do país, mas é no Dão e na sua Quinta do Ribeiro Santo, em Oliveira do Conde, Carregal do Sal, que encontra as suas raízes, a sua essência enológica e a sua verdadeira razão de ser. É um dos grandes enólogos do Dão. E os seus vinhos são disso o melhor comprovativo.

 

É um dos grandes enólogos do Dão, também produtor em nome próprio desde o início da década e alguém que ajudou a região nos primórdios deste século, então na Dão Sul, a despertar da letargia em que tinha mergulhado na década de 80. Chama-se Carlos Lucas, desde há décadas que faz vinhos em diversas regiões do país (incluindo Vinho do Porto) e no estrangeiro (esteve nos primórdios do projeto da Dão Sul no Brasil), mas é no Dão e na sua Quinta do Ribeiro Santo, em Oliveira do Conde, concelho de Carregal do Sal, que encontra as suas raízes, a sua essência enológica e a sua verdadeira razão de ser.


Foi nos domínios de Ribeiro Santo, onde Carlos Lucas erigiu uma adega moderna e funcional onde vinifica todos os seus vinhos, que a equipa da Revista de Vinhos foi recebida – e onde faríamos, algumas horas mais tarde, a prova dos vinhos cujos notas e classificações publicamos nestas páginas. Para já, a visita começará ali perto, a cerca de três quilómetros de distância, em Cabanas de Viriato, onde Carlos Lucas nos vai mostrar a mais recente “menina dos seus olhos”, a Quinta de Santa Maria, que adquiriu em maio deste ano mas que, na verdade, já conhecia há cerca de 20 anos, como o próprio nos explica: “Estas vinhas foram plantadas nos meus tempos na Dão Sul, e ainda estão em muito bom estado. Era uma quinta de velhos amigos, de uma família do Porto – mas em que um dos ramos era de Cabanas – e que tinha duas farmácias em Nelas. Como fica muito perto de Ribeiro Santo, esta quinta vai ter uma função muito própria na minha empresa e vai ser o nosso local de enoturismo. Vamos fazer obras para recuperar a casa da quinta como deve ser. A ideia é termos diversos quartos e uma sala de refeições para 60 pessoas com cozinha em “open space”. Na Quinta de Santa Maria vai ser possível alugar quartos sem ter ninguém da empresa aqui presente. Queremos garantir total privacidade, para que as pessoas sintam a casa – e a quinta – como se fossem suas. Claro que vão ter uma garrafeira disponível com vinhos Ribeiro Santo. Essa é a única condição: aqui, os vinhos têm de ser Ribeiro Santo. Acho que vai ser um enoturismo diferente”.


Oliveira do Conde é uma aldeia muito acolhedora, uma espécie de Santar mais preservada, com menos agressões urbanísticas, e que tem uma “patine” aristocrática muito especial. Além do mais, alberga paredes meias, quase lado a lado, três projetos vitícolas e enológicos muito peculiares, embora muito diferentes entre si: para além de Ribeiro Santo, a Quinta Mendes Pereira e a Quinta das Marias, de Peter Eckert. E é sob a marca Ribeiro Santo que Carlos Lucas quer albergar todas as vinhas e parcelas de onde provêm os seus vinhos, como sejam esta vinha de Santa Maria (um total de 10 hectares de uvas tintas, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen), ou as parcelas Vinha da Neve e Boavista, por exemplo.


Embora Ribeiro Santo seja o coração do seu projeto (uma quinta com 30 hectares de vinha – um terço de Encruzado e o resto de castas tintas), o universo atual de Carlos Lucas não se fica por Oliveira do Conde. No Dão, mais concretamente em Nelas, entre a Quinta da Fata e os vinhedos de Santar, assegura a exploração agrícola e comercial da Quinta da Alameda – um projeto histórico da região que o industrial e gestor Luís Abrantes, da Movecho, decidiu reabilitar há meia dúzia de anos, precisamente em parceria com Carlos Lucas – e a consultadoria da Quinta do Sobral. No Douro faz os vinhos Baton e Tom de Baton; nos Vinhos Verdes faz o Namorada e um Alvarinho; no Alentejo faz o Maria Mora e é consultor da família Nunes Barata; e, além disso, faz vinho na Roménia e tem um próximo projeto para a América Latina, “mas ainda é segredo”, pelo que não revelou mais pormenores.

Mais do que um enólogo

Sempre irrequieto e com vontade de fazer mais, Carlos Lucas é mais do que enólogo ou um produtor convencional. Com espírito empreendedor e disponibilidade permanente para arriscar, o passar dos anos não lhe retira energia nem espírito de iniciativa, fazendo lembrar a história dos seus primórdios quando Casimiro Gomes – hoje o homem forte da Lusovini - convidou um jovem enólogo da adega cooperativa de Nelas para ir trabalhar consigo na então recém-criada e emergente Dão Sul.


Mas esse jovem enólogo, de seu nome Carlos Lucas, que estudou em Coimbra (de onde é natural), estagiou na estação vitivinícola da Bairrada e adquiriu formação complementar em Montpellier (França) durante dois anos, resolveu recusar a proposta de emprego… e contrapôs ser sócio da Dão Sul, o que veio a acontecer.
Antigo companheiro desses tempos, quem está com Carlos Lucas na Quinta de Ribeiro Santo é Carlos Rodrigues, seu braço direito na enologia. “Em projetos como este, a base de tudo são as pessoas, e o segredo é termos uma equipa consistente. Não por acaso, a assinatura do projeto é “wine and people”. Para além do Carlos Rodrigues, temos a Rosa Teixeira na parte comercial e o Vítor Marques na parte administrativa, e todos somos fundamentais para o sucesso de Ribeiro Santo”, sublinha Carlos Lucas para logo a seguir evocar as raízes familiares deste local tão especial para si: “Foi o meu pai que comprou Ribeiro Santo em 1994. As minhas raízes pessoais são em Coimbra e as raízes vitivinícolas são em Nelas, mas o meu avô e a minha mãe sempre viveram em Canas de Senhorim, pois a minha mãe nasceu aqui. Por isso, o meu pai andava à procura de uma quinta entre Canas de Senhorim e Carregal do Sal, num eixo que não tem mais de 10 quilómetros.” E assim nasceu Ribeiro Santo, num local onde a lenda diz ter existido um barqueiro que cruzava o Mondego, permitindo completar a ligação entre as “civitas” de Viseu e da Bobadela, cujo troço passaria pelo atual território do concelho de Carregal do Sal. E lá estão as pedras para garantir que este é chão antigo por onde corre um Ribeiro Santo, que já foi quinta de fidalguia e que depois seria adquirida por um padre – uma quinta onde a água corria por todo o calendário, mesmo em anos muito secos, o que levou o padre-dono-da-quinta a chamar-lhe... Ribeiro Santo.


A vinha – em regime de Produção Integrada – segue o encepamento tradicional com as castas Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinto Cão e Encruzado, que foram plantadas num terreno granítico pobre com grandes afloramentos rochosos de onde se avista a Serra da Estrela.


O primeiro vinho aqui produzido é do ano 2000, “um Encruzado de que já só tenho 16 garrafas”, diz-nos Carlos Lucas. Na impossibilidade de manter este projeto pessoal e familiar com os outros projetos que foi abraçando ao longo dos anos (designadamente na Dão Sul-Global Wines e, mais recentemente, na Ideal Drinks), Carlos Lucas concentrou-se em Ribeiro Santo, cujo primeiro grande impulso acontece em 2011. Depois, em 2014, surgiu a nova adega e, daí para cá, um portfólio com vocação claramente exportadora e marcas do Dão, Alentejo, Vinhos Verdes e Douro. “Mas o Dão será sempre o meu mote, onde vou gastar 80 por cento das minhas energias. Porque Ribeiro Santo é muito importante para mim”, confessa-nos Carlos Lucas. E os vinhos que aqui produz, como já sabíamos e pudemos confirmar uma vez mais na prova efetuada durante esta visita, dão-lhe toda a razão de ser para pensar assim.




18
RIBEIRO SANTO EXCELLENCE GRANDE ESCOLHA 2013
Dão / Tinto / Carlos Lucas – Magnum Vinhos

De cor rubi acastanhado, tem um aroma expressivo e complexo a fruta azulada, especiarias (alcaçuz, pimenta preta, pimentão), pinha, casca de pinheiro e notas empireumáticas (fumados e vapor de café). Lançado para o mercado cinco anos após a colheita, na boca é um vinho muito preciso, elegante, com fruta ótima, notas balsâmicas e especiadas, acidez fantástica e boa adstringência.
Consumo: 2018 - 2027
25,00 € / 16ºC

17,5
RIBEIRO SANTO ENVELOPE 2016
Dão / Branco / Carlos Lucas – Magnum Vinhos

De tonalidade amarela com tons esverdeados, associa elegância e complexidade de forma inequívoca. Perfil aromático com fruta de polpa branca, limão, granito molhado, tosta ligeira, ervas frescas. Intenso e mineral, afinado e incisivo, de perfil seco e muito elegante, na boca tem uma bela textura, nota cítrica de grande qualidade, acidez firme mas contida. Um vinho harmonioso e sofisticado.
Consumo: 2018 - 2023
PVP 50,00 €/ 11ºC

17,5
RIBEIRO SANTO EXCELLENCE BRUT NATURE 2014  
Dão / Espumante / Carlos Lucas – Magnum Vinhos

De tonalidade casca de cebola, muito bonito, é um espumante monocasta de Touriga Nacional. O aroma é frutado – de fruta silvestre – com notas de mirtilo e framboesa, cítrico refrescante e referências florais. Na boca mostra grande nível, muita complexidade, taninos finíssimos, cremosidade, bolha fina e delicada. Belíssimo espumante rosé.
Consumo: 2018 - 2024
PVP 30,00 € / 8ºC

17
RIBEIRO SANTO ENCRUZADO 2017
Dão / Branco / Carlos Lucas – Magnum Vinhos

Amarelo esverdeado. Com fermentação repartida por cubas inox e barricas de 500 litros, a que se seguiu estágio por mais cinco meses em madeira de carvalho francês, tem aromas cítricos muito limpos a lima e limão, mas também frutados de maçã verde e referências herbáceas a relva acabada de cortar. Na boca é incisivo, elegante, amplo e persistente, com sensações de pedra molhada e bela acidez. Um bom exemplo do que deve ser um Encruzado.
Consumo: 2018 - 2022
9,00 € / 11ºC

16,5
RIBEIRO SANTO BRUTO RESERVA ESPECIAL
Dão / Espumante / Carlos Lucas – Magnum Vinhos

Amarelo esverdeado. Lote de Encruzado, Malvasia Fina e Bical é um espumante de bolha fina e persistente. O nariz é dominado pela fruta, sobretudo citrinos, apesar do estágio de dois anos em garrafa que faz despontar alguns aromas de padaria. Muito vivo e cheio de vigor, na boca mostra bela mousse, cremosa, é fresco e elegante.
Consumo: 2018 - 2022
14,90 € / 8ºC

 

 

Carlos Lucas – Magnum Wines:
Quinta do Ribeiro Santo 
Oliveira do Conde
3430-038 Carregal do Sal 
T. 232 961 652
E. info@winemagnum.com 

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