Porto Vintage 2016

Fotografia: Ricardo Garrido
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Luís Costa

Luís Costa

Notas de prova: Manuel Moreira e Nuno Guedes Vaz Pires

 

Foi uma benesse para quem esperou – paciente mas arriscadamente – pela chuva que caiu no dia 13 de setembro de 2016. Nos dias antecedentes desse setembro de há dois anos, a maturação das uvas começara a abrandar devido a um período de estio quente e seco. Mas a partir daí voltaram as condições ideais que, nas últimas semanas, estão a levar a generalidade das grandes casas de Vinho do Porto à declaração do Porto Vintage 2016, como é o caso dos “pesos pesados” da Symington, Fladgate Partnership, Quinta do Noval, Sogevinus ou Sogrape.

 

Algumas dessas casas, inclusive, já apresentaram em Portugal os seus vinhos em primeiríssima mão, mesmo antes de rumarem aos mercados externos mais importantes de que são exemplo os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra ou determinados países asiáticos.

Foi esse o caso da família Symington e dos Porto Vintage Cockburn’s, Dow's, Graham's, Warre's e Quinta do Vesúvio de que se apresentam notas de prova nestas páginas. A solenidade do momento pedia uma coisa assim, também ela solene e marcante. Por isso, os privilegiados que tiveram oportunidade de participar na apresentação da Symington foram convocados para aparecer na estação ferroviária de S. Bento, em plena Baixa do Porto, onde embarcaram no luxuoso comboio presidencial da CP – com uma equipa do chefe Pedro Lemos a bordo, pronta a servir os viajantes com todas as mordomias – rumo ao Pinhão, à Quinta do Bonfim, onde decorreria a prova e também última declaração Vintage do CEO da empresa, Paul Symington, que vai deixar o cargo por ter atingido 65 anos de idade, o limite de idade convencionado entre os membros da família para o exercício das mais altas funções dentro da empresa.

Por essa razão particular, associada à excelência dos vinhos, foi uma apresentação carregada de emoção. Para se compreender a importância e singularidade de uma declaração deste tipo, os Symington só a fizeram dez vezes nos últimos 40 anos. “Nós só fazemos Vintage quando temos vinho bom. Sem tirar nem pôr. E por isso á que não declaramos Vintage desde 2011”, observou com desassombro Paul Symington, para depois sublinhar a relevância planetária de uma declaração de ano Vintage: “ É que não estamos a convencer os nossos vizinhos de que o vinho é suficientemente bom para ser Vintage. Estamos a convencer consumidores em Tóquio, em Nova Iorque, em Londres, em Pequim ou em Paris”.

Acresce que a família Symington, proprietária de quase três dezenas de quintas no Douro, faz hoje “menos de metade do Porto Vintage que fazia há duas ou três décadas”, como lembrou Paul Symington, o que mostra bem a exigência de qualidade colocada pela família – no que é acompanhada pelas outras grandes casas de Vinho do Porto – na produção de Porto Vintage.
A prova propriamente dita foi conduzida, como é hábito, pelo diretor de enologia da casa, Charles Symington, segundo o qual “2016 foi um ano em que interpretar corretamente os sinais na vinha se revelou crucial” para obter Vinhos do Porto com "sabores persistentes de frutos vermelhos e cores púrpuras intensas, com estrutura e equilíbrio, com Baumé, acidez e taninos que se conjugam num raro alinhamento perfeito”.

O que é Nacional… é bom

Uma semana volvida sobre a apresentação dos Porto Vintage 2016 da família Symington, uma comitiva de jornalistas da especialidade rumou novamente ao Douro, desta feita para a apresentação – e respetiva prova – organizada por Christian Seely, coproprietário da Quinta das Romaneira e diretor-geral da Quinta do Noval e do setor vitivinícola da Axa Millésimes. Objetivo: a apresentação dos seus Porto Vintage 2016, incluindo a boa notícia – que em si mesma é uma absoluta confirmação da excelência do ano – de que também haverá Noval Vintage Nacional, esse extraordinário vinho do Porto oriundo de uma pequena parcela de videiras de pé franco situadas no miolo da Quinta do Noval que não foram afetadas pela filoxera. Daí a designação “Nacional”, porque as videiras são portuguesas e cresceram em solo português, sem porta-enxerto americano, diretamente no solo da Nação.

Como sublinhou o próprio Christian Seely, “as condições climatéricas incomuns e extremas do ano acabaram por conduzir a um resultado final de excelente qualidade, pois os vinhos são equilibrados e frescos, com excelente estrutura, fruta intensa, expressiva e muito pura”. “Fazer os blends do Porto Vintage da Quinta do Noval foi uma experiência emocionante”, confessou Christian Seely que, para o efeito, teve a prestimosa colaboração do seu Diretor Técnico, Carlos Agrellos. “Os vinhos individuais que entraram no lote eram maravilhosos, e temos a certeza de que o “blend” final para o nosso 2016 tornar-se-á num dos grandes Portos Vintage históricos da Quinta do Noval”, acredita Christian Seely, que guardou uma palavra especial para o seu vinho… mais especial: “O Nacional é, claro está, feito com uvas de uma pequena parcela, vinificado num pequeno lagar, e mostrou-se claramente excecional desde o início da vindima. Estamos confiantes de que também ocupará o seu lugar entre os grandes vintages históricos do Nacional”.

Semanas antes das duas apresentações atrás referidas, logo nos finais de março, já a portuguesa Sogrape – com as suas marcas Ferreira, Offley e Sandeman – tinha dado o “pontapé de saída” ao ser a primeira casa a declarar 2016 como ano Vintage. Luís Sottomayor, enólogo da Sogrape, realça a “robustez e estrutura” dos vinhos e garante um perfil de Vintage com “níveis de complexidade, cor e estrutura absolutamente excecionais, com taninos presentes, perfeitos para evoluírem na garrafa durante muitos anos”.

A equipa de enologia da Sogrape no Douro estava já expectante em relação a 2016, um ano que foi climatericamente atípico, como já sublinhámos. O inverno foi seco e ameno, mas as chuvas contínuas que começaram no final do inverno prolongaram-se para a primavera, acompanhadas de períodos de baixas temperaturas. Estes fatores afetaram a floração e contribuíram para o risco de ocorrência de doenças da vinha, especialmente o míldio. Mas o verão foi ameno, com picos de forte calor e noites frias, o que contribuiu para um final de maturação longo e equilibrado, resultando em vinhos de elevada qualidade. Para alegria de Luís Sottomayor, o resultado não podia ser melhor: “Três Porto Vintage de caráter excecional e clássico, que expressam perfis bem distintos, caracterizados pela harmonia e elegância do Porto Ferreira, a robustez e profundidade do Sandeman e a irreverência e juventude do Offley”.

“Pureza de fruta e taninos de grande qualidade”

Quase a par das declarações da Symington e da Quinta do Noval, também a importante Fladgate Partnership (das marcas Croft, Fonseca e Taylor’s, que estarão disponíveis nos mercados no início do outono) emitiu um comunicado a declarar ano Vintage. Adrian Bridge, Diretor-Geral da casa, enaltece “a pureza e o refinamento” dos Vintage 2016: “Os Porto Vintage das três casas são estilisticamente distintos, mas todos exibem elegância e equilíbrio, uma maravilhosa pureza de fruta e taninos de grande qualidade.” E acrescenta: “Os rendimentos da vindima estão abaixo da média. A quantidade do Vintage 2016 disponível será relativamente restrita e a distribuição pelos mercados terá que ser ajustada. Os 2016 têm grande probabilidade de vir a ser raridades no futuro, particularmente devido à tendência do consumo do vinho do Porto Vintage ainda jovem”.

Por seu lado, o Director de Enologia da Fladgate Partnership, David Guimaraens, refere existirem dois fatores que se destacam em 2016: “A intensa precipitação durante a primavera, que significou que as videiras tiveram reservas de água suficientes durante todo o Verão; e o facto de a época de amadurecimento ter começado relativamente tarde, prolongando-se bem dentro do mês de Setembro. Isto conduziu a uma muito gradual e uniforme maturação da colheita, com todos os elementos em perfeito equilíbrio no momento da vindima. Por isso, a vindima começou mais tarde do que o usual em todas as nossas quintas, particularmente nas quintas do vale do Pinhão”.

Kopke, Burmester, Cálem e Barros

Também as casas de Vinho do Porto que constituem o grupo Sogevinus Fine Wines anunciaram o lançamento de Porto Vintage clássico de 2016 logo na primeira semana de abril. Deste modo, teremos Vintage 2016 também das marcas Kopke, Burmester, Cálem e Barros.
Segundo Carlos Alves, enólogo para Vinhos do Porto da Sogevinus, “2016 foi um ano particularmente desafiante. Tivemos que ter um conhecimento profundo do estado das uvas na videira, pois cada casta e cada parcela de vinha evoluíram a ritmos distintos. Saber esperar claramente compensou, como podemos verificar através dos resultados excecionais que conseguimos com os diferentes vinhos”. Em sua opinião, “os Porto Vintage 2016 mostram-se carregados de cor e cheios de estrutura, mais concentrados, robustos e intensos por comparação com os Vintage 2015. Ou seja, um perfil clássico de Vintage”. Detalhando os vinhos da casa, “o Kopke mostra-se firme, intenso, crocante, untuoso e fresco, com várias camadas de sabor, tanino vincado e excelente equilíbrio entre a doçura e a acidez; o Burmester demarca-se pela elegância, num registo mais leve e perfumado, com toque balsâmico e final muito longo; o Cálem apresenta-se com bastante fruta madura, é concentrado e tem agradáveis notas picantes; e o Barros revela-se fresco, delicado e mineral com apontamentos mentolados e “nuances” balsâmicas”.

Em jeito de conclusão: se muitos ainda questionam por que razão não houve uma declaração clássica de Porto Vintage em 2015, apesar de ter sido um ano de vinhos superlativos, aqui está uma resposta possível para o “enigma”: porque 2016 iria ser ainda melhor. E, pelos vistos, foi mesmo. 
 

Trabalho originalmente publicado na edição nº 343 da Revista de Vinhos (junho de 2018).

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