Quinta da Gaivosa - 25 anos de prestígio

Fotografia: Arquivo
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O Quinta da Gaivosa foi dos primeiros grandes vinhos de mesa durienses, ao lado de outros pioneiros, abrindo a senda para a explosão de qualidade da região na década de 90, o “Douro além do Porto”.


 

O Quinta da Gaivosa sempre foi um vinho muito especial para mim. Entre os mais de 1.200 rótulos de 20 países diferentes que cheguei a importar para o Brasil, este rótulo icónico do Douro foi invariavelmente dos meus preferidos, tendo a cada colheita um lugar garantido na minha cave particular e nas minhas celebrações familiares. 


Um dos primeiros grandes vinhos de mesa durienses, ao lado de outros pioneiros, abriu a senda para a explosão de qualidade da região na década de 90, o “Douro além do Porto”. Manteve, contudo, incólume o seu estilo de grande elegância e representação fiel de um “terroir” muito vincado no Cima Corgo, não obstante as transformações significativas que assistimos neste um quarto de século: na vitivinicultura, na moda de vinhos poderosos, no aquecimento global, etc. E mesmo com a participação das novas gerações da família Alves de Sousa nas decisões enológicas e com o lançamento de outras duas monstruosas expressões dentro da mesma quinta – Vinha do Lordelo e Abandonado –, o Quinta da Gaivosa manteve-se garbosamente como um clássico, um senhor que envelhece com distinta elegância e notável predisposição gastronómica.


A Revista de Vinhos recupera agora a prova comemorativa dos 25 anos do Quinta da Gaivosa tinto, que decorreu no Ritz Four Seasons Hotel, em Lisboa, conduzida com emoção pelo criador Domingos Alves de Sousa e pela quinta e preparadíssima geração da família, o enólogo Tiago Alves de Sousa.

 

Sobre a Quinta da Gaivosa

 

  • Localizada no concelho de Santa Marta de Penaguião, no Cima Corgo, a Quinta da Gaivosa possui 25 hectares;
  • É a mais mais emblemática propriedade da família Alves de Sousa, por entre as seis quintas atuais. A única herdada por Domingos Alves de Sousa, que ali já vindima desde os 8 anos;
  • A proximidade à Serra do Marão (8 km em linha reta) e ao oceano (80 km), além da altitude das vinhas, entre os 350 e os 500 metros, garantem um Douro mais ameno. A precipitação é moderada, entre os 700 e 800mm/ano;
  • “Não temos solo”, diz-nos Tiago Alves de Sousa. A rocha-mãe de xisto grauváquico extremamente sólido e geologicamente muito antigo do pré-cambriano aflora em toda a superfície da Gaivosa, fomentando baixos rendimentos e mineralidade nos vinhos;
  • Os Alves de Sousa investem na biodiversidade da quinta, preservando florestas, oliveiras, eucaliptos e árvores de fruto. “A influência da paisagem no vinho”, segundo Tiago, a propiciar um carácter mais fresco, florestal e balsâmico nos aromas;
  • Mais de 20 castas típicas estão identificadas nas vinhas velhas, acima de 80 anos.  O replantio de 10ha, incluindo em cotas mais altas, respeitou esta riqueza ampelográfica e novas técnicas de cultivo, com as castas diversas plantadas em linhas dentro das vinhas ou em micro-parcelas;
  • Equipa enológica: Anselmo Mendes oficialmente até 2013 (mas já não participou do loteamento do Gaivosa 2011) ao lado de Domingos Alves de Sousa; e Tiago Alves de Sousa, desde 2000, tendo assumido a chefia após a saída de Anselmo;
  • A nova adega da Quinta da Gaivosa, inaugurada recentemente, foi concebida para a elaboração de grandes vinhos de mesa e para o emprego das mais recentes técnicas de vinificação. Lançou os alicerces para o futuro e potencializará o enoturismo na quinta;
  • Colheitas lançadas com a imagem do rótulo e garrafa praticamente inalterados nestes 25 anos: 1992, 1994, 1995, 1997, 1999, 2000, 2003, 2005, 2008, 2009, 2011, 2013.

 

Prova Vertical

 

18
Quinta da Gaivosa 1992 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Estagiou quatro meses em barricas novas de carvalho português. A primeira colheita, a que apresentou o Gaivosa ao país. Ano relativamente seco, com chegada tardia das chuvas, ocasionando uma maturação lenta e bons níveis de acidez. Nasceu já dentro da filosofia de “harmonia, frescura e elegância”, segundo Tiago Alves de Sousa. 
Granada de média intensidade. Bouquet complexo, com compota de cereja e outras frutas vermelhas, ruibarbo confitado, notas tostadas de graveto de vinha e eflúvios minerais. Médio corpo (apenas 12,5º de álcool), ágil, encantadora frescura e longa persistência. No auge. GC


17,5
Quinta da Gaivosa 1994 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Estagiou seis meses em barricas novas de carvalho português. Ano clássico de Porto Vintage, com muita chuva no inverno e primavera, atrapalhando a floração e reduzindo a produção, e a seguir um verão quase que perfeito. 
Granada intenso. Emanou aromas um tanto quanto estranhos e terrosos no primeiro momento, mas limpou após a oxigenação, revelando um carácter mais cálido, balsâmico, de frutos negros secos e compotados, sublinhados por notas de eucalipto. Chegou na boca mais assertivo, com taninos muito finos e frescura a governar o equilíbrio. No auge. GC


18,5
Quinta da Gaivosa 1995 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Estagiou seis meses em barricas novas de carvalho francês. Um ano mítico, que apresentou o Gaivosa ao mundo. O andamento da colheita foi todo precoce. As videiras adaptaram-se ao tempo seco e entregaram uvas de imenso potencial, tanto na maturação como na acidez. 
Granada de média intensidade. Absolutamente deslumbrante no nariz, revelando aromas florais, de frutas silvestres maduras, especiarias balsâmicas e minerais, sem nenhum traço de sobrematuração. Pura elegância e harmonia na boca, o zênite do estilo Gaivosa! No auge, mas com muita vida ainda pela frente. GC


18
Quinta da Gaivosa 1997 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Estagiou seis meses em barricas novas de carvalho francês. Ano precoce na floração, ainda que a colheita não se tenha adiantado, efetuando-se em condições muito positivas, secas e com temperaturas relativamente altas.
Granada. Tão complexo e elegante, muito típico da Gaivosa, com nobres aromas de frutas silvestres em compota, ornado com acentos balsâmicos e florestais. Pura seda na boca, com fina trama de taninos a permear a fruta suculenta e madura. No auge, mas com muita vida ainda pela frente. GC


17,5
Quinta da Gaivosa 1999
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Estagiou oito meses em barricas novas de carvalho francês. Maio, junho e julho foram muito secos e as condições de floração e vingamento prenunciavam uma colheita abundante. Os meses seguintes foram mais chuvosos e frescos do que o normal. Ainda assim, o sommelier então campeão do mundo, Olivier Poussier, rasgou elogios ao Gaivosa 1999 na “Revue du Vin” francesa: “O Cheval Blanc do Douro”.
Rubi profundo. Perfil olfativo singular neste ano, pendendo mais para o cassis, frutos negros em compota, grãos de café torrados e tabaco. No palato confirmou a índole mais viril, com grande alicerce de taninos, frescura e sapidez mineral. Talvez ganhe harmonia e serenidade com mais alguns anos de guarda. GC


18,5
Quinta da Gaivosa 2000 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Seis meses em barricas novas de carvalho francês. A natureza conjeturou as condições ideais para celebrar um novo milénio, com um abrolhamento precoce no inverno seco e uma primavera húmida a dificultar a floração e o vingamento, ocasionando uma colheita pequena. A seguir vieram condições perfeitas de maturação das uvas, em agosto e setembro, prenúncio de vinhos com grande concentração e capacidade de guarda. Este ano também marcou a chegada do enólogo Tiago Alves de Sousa na equipa e a vinificação separada das vinhas velhas da Gaivosa.
Rubi intenso. Insigne elegância na expressão da fruta e das nobres especiarias, um vinho ainda reticente a revelar toda a grandiosidade. Totalmente “terroir-driven” este Gaivosa, sente-se a paisagem do Douro a cada gole, com a rudeza transmutada em taninos de soberba textura. Em evolução, merece mais uma década, no mínimo, de guarda. GC


17,5
Quinta da Gaivosa 2003 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Oito meses em barricas novas de carvalho francês. Ano de canícula em toda a Europa. O “terroir” mais fresco da Gaivosa mostrou-se um verdadeiro regalo para dirimir o impacto das condições térmicas absurdamente elevadas nos vinhos. Primeira colheita já sob a batuta do enólogo Tiago Alves de Sousa e também o ano em que a Vinha do Lordelo e o Abandonado foram desmembrados do Quinta da Gaivosa.
Rubi muito intenso. A chancela do ano quente manifesta-se nos aromas de frutas negras em compota. Todavia, a frescura do “terroir” da Gaivosa impõe-se com uma exuberante prestação floral e apimentada. Pegada mais “doce” de boca, mas com uma frescura bem conseguida. Tem os predicados para seguir evoluindo por muitos anos. GC


19
Quinta da Gaivosa 2005 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Quinze meses em barricas novas (50%) e barricas de segundo ano (50%) de carvalho francês. Um dos anos preferidos de Tiago Alves de Sousa, a evidenciar a diferença entre um ano seco –trazendo concentração de aromas, açúcares e acidez – e de um ano quente, como foi 2003. 
Rubi profundo. Um vinho polifónico, sofisticado na fruta, na riqueza das especiarias, nos acentos florais e minerais. Poderoso e ultra refinado no passo na boca, tão Gaivosa... Incrível frescura, concentração e persistência. Para longa guarda, embora já cause um furor neste estádio. GC


18
Quinta da Gaivosa 2008 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Quinze meses em barricas novas (50%) e barricas de segundo ano (50%) de carvalho francês. Este ano marcou o início de uma tendência de verões mais amenos na região, com reflexos positivos para o refinamento dos vinhos, expressivos desde a juventude.
Rubi intenso. Um Gaivosa mais feminino, entregando a fruta voluptuosa “à la Bourguignonne”. Aliciante na boca, notoriamente harmónico e persistente no retrogosto. Pode começar a ser apreciado, mas promete muito ainda. GC


18
Quinta da Gaivosa 2009 
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sous
a
Quinze meses em barricas novas (50%) e barricas de segundo ano (50%) de carvalho francês. Ano muito especial, as condições mais amenas de 2007 e 2008 repetiram-se, com uma vaga de calor apenas no final da maturação das uvas.
Rubi intenso. Impressionante como a madeira também se mostra “transparente” neste grande vinho, outro no perfil de imensa sedução e elegância. A estrutura não é avassaladora no peso, mas sim no volume, e está muito fechada no momento. Um belíssimo vinho jovem, para começar a ser apreciado a partir do seu 10º ano. GC


19
Quinta da Gaivosa 2011
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Quinze meses em barricas novas (50%) e barricas de segundo ano (50%) de carvalho francês. Ano mítico, extraordinário. A inusitada pressão de míldio na primavera muito húmida impôs alguma restrição quantitativa na colheita, mas os meses de verão, até à colheita em setembro, foram praticamente perfeitos, convenientemente amenos, garantindo uma maturação longa e um planeamento de vindima excecional.
Rubi muito intenso. Consolida no olfato todos os atributos do especial “terroir” da Gaivosa: fruta bem delineada, deveras sedutora, flores, notas balsâmicas e florestais, xisto. Integração perfeita da madeira. Uma aula de taninos finos e doces a permear as camadas de fruta em licor no palato. Profundo e longo. Deslumbrante desde agora, mas poderá ser guardado para os netos. GC


18
Quinta da Gaivosa 2013
Douro / Tinto / Domingos Alves de Sousa

Quinze meses em barricas novas (50%) e barricas de segundo ano (50%) de carvalho francês. Houve quatro anos em um, em 2013. Frio e calor, com algumas das temperaturas mais extremas já registadas, para ambos os lados. Seca a ponto de bloquear totalmente a Touriga Franca por stress hídrico e, então, muita chuva. Um ano de desafios, superado com técnicas corretas na vinha e na adega.
Rubi profundo. Neste tenro estágio de evolução deslinda-se no olfato as especiarias aportadas pela madeira, a fruta contida e os laivos balsâmicos. Gaivosa firme e másculo, com arquitetura para longa guarda. GC


NOTA DO EDITOR: A Revista de Vinhos publica nesta edição o texto completo da prova vertical Quinta da Gaivosa, depois de na edição nr. 335 ter publicado uma versão incompleta. Ao produtor Domingos Alves de Sousa e aos leitores da RV as nossas desculpas pelo lapso.
 

Artigo publicado na edição nº 338, de Janeiro de 2018, da Revista de Vinhos.

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