Quinta da Pellada - O homem e o lugar

Fotografia: Ricardo Garrido
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Alexandre Lalas

Alexandre Lalas

Entender os vinhos de Álvaro de Castro é do mais fácil que existe. Basta levá-los à boca e tudo fica cristalino. Eles vibram, pulsam. São cheios, múltiplos e ao mesmo tempo leves e frescos. São grandes vinhos. Mas para explicá-los, é preciso levar em consideração dois fatores primordiais: o homem e o lugar.


Do bebé que ganhou concursos de beleza ao mau aluno que se formou em engenharia civil mas que nunca chegou a exercer a profissão, Álvaro de Castro foi moldando o carácter, viajando, colecionando experiências e mundo. Quando a hora chegou, a decisão teve de ser tomada. Ou a propriedade seria vendida, ou Álvaro tomaria conta dela. Felizmente, não houve venda. E as terras que pertenciam à família desde tempos imemoriais continuaram sob a batuta de Álvaro de Castro.

 

Naquela altura, ainda moço, as melhores referências que Álvaro guardava em relação a vinho eram exatamente os dali, no Dão, da garrafeira do pai, feitos no Centro de Estudos de Nelas. Curiosamente, hoje são esses os preferidos do produtor. “Depois de todos esses anos, as minhas referências ainda são as mesmas. O melhor vinho do mundo, para mim, continua a ser o mesmo. E percebi isso quando tive contacto com todos os outros vinhos”. E aí entra o outro lado da história: o lugar. Emoldurada por três maciços montanhosos, cercadas por florestas, refastelada num mar de granito, a região do Dão é especial. Daquelas que parecem ter sido inventadas propositadamente para que lá se fizessem vinhos de qualidade ímpar. E entender o lugar onde está é o exercício quase diário que Álvaro fez desde que assumiu a Pellada em 1980. “A paixão pela propriedade é algo que tem vindo a constituir-se. Tive sorte, recebi tudo aquilo, não fiz nada por isso. E tenho percebido, ao longo do tempo, que a quinta tem uma expressão própria, uma identidade, um carácter que deve ser preservado. O meu trabalho é blindar essas características, que vêm da vinha, das influências externas. E fazer um vinho que não dance ao sabor da moda”, resume. 

Não há anos maus

Com o tempo de observação e trabalho nas vinhas, Álvaro de Castro dividiu os 26 hectares da propriedade de acordo com as características de cada parcela. No que o produtor julga ser o bloco principal, em vinhas contíguas a norte, estão parcelas como Primus, Casa e Alto, de onde saem algumas das maiores jóias da Pellada. “O que transforma o vinho e resulta nas diferenças principais nem é o clima ou a diferença de altitude entre as vinhas; é o terreno e provavelmente as castas que lá estão”, explica. “É uma vinha de field blend, e isso também é mais um desafio. O cultivo, e sobretudo a apanha, é mais difícil. Mas, por outro lado, dá muito mais gozo. E ver como elas interagem umas com as outras. Há pessoas até que defendem que, pelo facto de estarem plantadas umas com as outras, interagem de maneira diferente. Eu tenho algumas dúvidas. Mas também não tenho a certeza de que não seja assim”, reflete.

E após tantas vindimas (Álvaro começou a produção própria de vinhos em 1989) refletir parece ser o tema em questão. Pensar mais e intervir menos, por assim dizer. Seja no campo, seja na adega. Na vinha, aceitar talvez seja o verbo mais conjugado. “A vinha é uma monocultura. E como tal, não é exatamente muito ecológica. A biodiversidade é tudo. Para o homem e para as plantas. Mas nós podemos combater esse defeito. E essa é a parte importante que nós podemos fazer na vinha. É não querer ter produções excessivas nem controlar demais a produção. No fundo, é aceitar as características próprias da propriedade e respeitar as diferenças. Seja de ano para ano, seja de sítios dentro da quinta”, defende. “Na verdade, não há anos maus. Há, sim, anos em que fazemos menos vinho”, completa.   Na adega, a palavra-chave talvez seja esperar. “Uma coisa que me arrependo é não ter guardado mais garrafas dos meus primeiros vinhos. Talvez tenham sido alguns dos melhores que já fiz. Por isso hoje, penso em guardar mais. Engarrafar os meus vinhos com mais tempo. Lançar mais tarde. Por outras palavras, fazer menos e melhores vinhos”, ri. Assim seja. 

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Notas de Prova

19
Quinta da Pellada Muleta 2013

Dão / Tinto / Quinta da Pellada
Vinhas muito velhas, fora da Quinta da Pellada, que foram alugadas por Álvaro de Castro. É daí que saem as uvas para este tinto não menos que espectacular. Concentração? Tem-na. Elegância? Aqui não falta. Frescura? Para dar e vender. E mais: tem fruta, vigor, profundidade. E que fineza de taninos! O que não falta neste vinho são qualidades. O defeito? A produção é mínima!  
67,90 € / 16ºC 

18,5
Quinta da Pellada Casa 2014

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
Dizem os franceses que não há maus anos. Há anos com menos vinhos. 2014 foi assim. O clima chuvoso não ajudou. Mas quem sabe trabalhar, entregou matéria-prima de qualidade. Este vinho é completamente diferente do feito no ano anterior. Menos expressivo e intenso, mais austero e discreto. E talvez seja precisamente este estilo mais subtil que faz do 2014 ligeiramente superior ao antecessor.  
48,00 €/ 16ºC 

18,5
Quinta da Pellada Primus 2015

Dão/ Branco / Quinta da Pellada
Mineralidade é sempre uma palavra complicada para descrever um vinho. Não há consenso sobre o que significa ou sequer se de facto existe. Mas a verdade é que este branco, feito com vinhas velhas de Encruzado e várias outras castas plantadas numa parcela da Quinta da Pellada, traz o lugar no bojo. Cheira a solo, lembra de forma indissociável o granito que serve de chão a estas raízes. É enorme, autêntico, firme. Ainda na primeira infância, com a idade, este verdadeiro prodígio vai crescer. Um vinho para guardar. 
31,80 € / 11ºC  

18
Álvaro de Castro Dão Encruzado 2010

Dão/ Branco / Quinta da Pellada
A perfeita combinação entre volume, fineza e frescura é a valia que mais chama a atenção neste grande branco. Outro ponto importante a ser destacado: o tempo. Talvez apenas recentemente este vinho tenha finalmente atingido a melhor forma. Transpira vida, alegria e vigor. O que apenas confirma que muitas vezes provamos grandes vinhos antes que sejam grandes de facto.  
31,80 € / 11ºC 

18
Quinta da Pellada 2012

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
Muita fruta, combinada com uma boa sensação mineral, frescura e intensidade na medida certa, montam a base deste tinto que exala elegância por todos os poros. Feito com quase 50 castas, incluindo uma boa base de vinhas muito velhas plantadas em field blend, é um bom retrato geral do que é a Quinta da Pellada e de como Álvaro de Castro trabalha o potencial do lugar.  
31,80 € / 16ºC  

18
Quinta da Pellada Alto 2013

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
Ao mapear a propriedade que tem, Álvaro de Castro separou a Quinta da Pellada em parcelas. Alto fica na parte leste, tem dois hectares, solos um pouco mais arenosos que nas outras parcelas, vinhas velhas e muitas castas misturadas, numa área onde a Touriga Nacional não é dominante. No copo, o que se revela é um tinto onde a fineza e a leveza dão as cartas. Já entrega prazer hoje. Mas vai ficar ainda melhor com o passar dos anos.  
48,00 € / 16ºC  

18
Quinta da Pellada Alvarelhão 2011

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
Este é um daqueles vinhos tão bons, leves e frescos que se bebe com goludice. Fruta saborosa, acidez feliz, descomprometido. Mas não se engane: é um vinho com potencial de guarda e que é muito mais do que apenas leve e fácil. É um grande tinto, muito bem conseguido, que encanta pela elegância subtil e pelo prazer que proporciona.  
54,90 € / 16ºC  

18
Quinta da Pellada Casa 2013

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
A parcela que Álvaro de Castro batizou como Casa fica na parte oeste da propriedade, com solos bem compactados de argila e algum quartzo. No copo, o que se vê é um vinho expressivo, suculento, guloso, cheio de assunto. E duas coisas poderão fazer este tinto ainda melhor: comida e tempo.  
48,00 € / 16ºC 

17,5
Quinta da Pellada 2014

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
O ano teoricamente não foi dos melhores. Mas se não há aqui a fruta que costuma marcar esta linha, outros predicados se revelam. Os taninos muito finos já avisam: o nome do jogo é a delicadeza. E a sensação mineral é ainda mais forte neste do que nos Pelladas antecessores. O tempo é um aliado poderoso. E especialmente este vinho aqui vai mostrar ainda muito mais com o passar dos anos. Para guardar.  
48,00 € / 16ºC 

17,5
Quinta da Pellada Carrocel 2011

Dão/ Tinto / Quinta da Pellada
Feito apenas com Touriga Nacional, nos anos em que a casta atinge a melhor expressão na quinta. Fermenta em lagar, estagia por um bom período em madeira. Talvez seja o mais musculoso entre os vinhos da Pellada. Tem concentração, sente-se a potência. Mas mesmo assim, a elegância daquela terra abençoada diz presente, garantindo uma boa frescura e impedindo que o tinto pese ou canse. Mesmo assim, convém abrir com comida. E, se puder esperar, melhor ainda. Vai melhorar ainda mais com a idade.  
59,50 € / 16ºC 

17,5
Quinta da Pellada Dente de Ouro 2015

Dão / Tinto / Quinta da Pellada
Feito com uvas provenientes de vinhas muito antigas, alugadas a uma vizinha por Álvaro de Castro. Este é daqueles tintos que dizem ao que veio sem muita cerimónia: cheio de leveza e frescura, com uma acidez elétrica. É daqueles vinhos que soam despretensiosos, em que um gole convida a outro.  
67,90 € / 16ºC  

17,5
Quinta de Saes Estágio Prolongado Encruzado 2015

Dão/ Branco /Quinta da Pellada
Embora este vinho já esteja de facto muito bom, há que se dizer que com a idade ficará ainda melhor. O tempo vai abrir o aspecto olfativo, trazendo uma gama de aromas maior e mais complexa do que já apresenta. E na boca, a impulsividade da juventude certamente dará lugar a um equilíbrio mais tranquilo da maturidade. Mas se a vontade de beber for maior do que a paciência, então abra a garrafa com alguma antecedência e aproveite. Trata-se de um grande branco.  
21,50 € / 11ºC 

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