Revolução climática no mundo do vinho em 2020

Fotografia: Fotos D.R.
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Luís Costa

Luís Costa

Seria fantástico poder programar a vindima a meio ano de distância, usufruindo de previsões meteorológicas bastante rigorosas com cinco ou seis meses de antecedência. Ou tomar a decisão de plantar certas castas num determinado local em função do que será o clima dessa zona passados 20 ou 30 anos. Desejos irrealizáveis? Mera ficção científica? Futurologia sem sentido? Não, de modo algum. Em finais de 2020, o setor do vinho já irá usufruir dos resultados práticos de um projeto inédito da União Europeia para pesquisa e inovação em climatologia que visa, precisamente, melhorar o planeamento da gestão agrícola.

 


As alterações climatéricas e a enorme imprevisibilidade meteorológica que lhe está associada é um dos problemas centrais da atividade vitícola e um desafio premente para o negócio do vinho. Por isso, mais do que saber se vai chover ou fazer sol os próximos cinco dias – o máximo a que pode almejar-se com alguma fiabilidade nos tempos que correm –, seria importante poder saber-se o que vai acontecer daqui a seis meses numa área restrita e concreta de um determinado município. Ou mesmo antever-se, com base em intricados modelos matemáticos e medições rigorosas, o que será uma região vitícola daqui a 20 ou 30 anos em termos climatéricos.

Sabemos que a decisão de vindimar num determinado dia ou no dia seguinte pode ser fundamental para o sucesso de uma colheita. Basta uma chuva imprevisível ou uma queda de granizo para deitar tudo a perder. E imaginamos como seria fantástico poder programar a vindima, com algum rigor e precisão semanal, a meio ano de distância, com cinco ou seis meses de antecedência. Ou, indo mais longe ainda, poder tomar a decisão de plantar certas castas num determinado local em função do que será o clima da zona passadas algumas décadas.

Desejos irrealizáveis? Mera ficção científica? Futurologia sem sentido? Não, de modo algum. Podemos dizer, inclusive, que esse futuro é já hoje. Ou, pelo menos, daqui a dois ou três anos. Como efeito, esse é o prazo definido – finais de 2020, previsivelmente – para que o setor do vinho possa começar a usufruir dos resultados práticos do MED-GOLD, um projeto inédito da União Europeia para pesquisa e inovação em climatologia que visa a melhoria de prognósticos e de planeamento da gestão agrícola. Com o MED-GOLD pretende conseguir-se ainda economia de recursos em combustíveis ou água – bem como redução do uso de pesticidas – o que contribuirá para a adaptação do setor agroalimentar, que não apenas o vinho, às alterações climáticas e aos objetivos do desenvolvimento sustentável.

Este projeto europeu de pesquisa e inovação climática que proporcionará ferramentas de previsão do clima específicas para o apoio à gestão agrícola da vinha, do olival e do trigo – as principais culturas do Mediterrâneo – envolve a portuguesa Sogrape como representante do setor vitivinícola. Por isso fomos conversar com António Graça, responsável pelo departamento de Investigação e Desenvolvimento da empresa, para compreendermos melhor o projeto que junta climatologistas, programadores, consultores e empresas (neste caso de vinho, azeite e massas de trigo) na recolha, avaliação e caracterização de séries históricas sobre observações do clima e do cultivo que depois vão proporcionar modelos matemáticos essenciais às já referidas previsões.
O projeto liderado pela Agência Nacional Italiana para as Novas Tecnologias, Energia e Desenvolvimento Económico Sustentável (ENEA) deverá ter os primeiros resultados no final de 2020 e envolve 16 parceiros, entre empresas e centros de investigação europeus – para além de uma universidade sul-americana. O contexto que explica o envolvimento da Sogrape no MED-GOLD decorre do facto, como explica António Graça, de as alterações climáticas estarem identificadas como “uma das principais ameaças para o negócio [do vinho] a médio e a longo prazo, no sentido em que regiões tradicionalmente vocacionadas para a produção de qualidade podem, no futuro, ver-se impossibilitadas de manter esse perfil qualitativo, com uma região típica de vinhos tranquilos, por exemplo, obrigada a transformar-se numa região típica de vinhos licorosos”.

Projeto pode alargar-se à cultura do café

Aliás, já há alguns anos que a Sogrape identificou esta temática como uma área crítica do negócio, o que abriu caminho, de algum modo, ao envolvimento no projeto MED-GOLD. Com efeito, foi em 2009 que a Sogrape estabeleceu uma rede de estações meteorológicas automáticas em todas as vinhas – a que costumam chamar internamente serviço de “vitimeteorologia” – o que veio permitir a caracterização climática de cada colheita em cada quinta. Só para se ter uma ideia, até então era a estação meteorológica de Bragança do IPMA que servia a monitorização da Quinta da Leda em termos meteorológicos, cujo clima (e também distância geográfica) está mais próximo de Almendra ou de Figueira de Castelo Rodrigo. É fácil de perceber por este exemplo como seria irrelevante, e muitas vezes contraproducente, dispor de uma ferramenta meteorológica tão desajustada.

Graças a esse investimento na década passada – que praticamente duplicou a capacidade de previsão meteorológica do próprio país – a Sogrape tem hoje índices muito rigorosos que permitem, nomeadamente, identificar o número de horas com temperaturas superiores a 35 graus, “o que é absolutamente essencial” para a viticultura, como explica António Graça: “É que a partir dos 35ºC de temperatura, a videira deixa de fazer a fotossíntese e pura e simplesmente para. Fecha os sistemas para não transpirar e guarda a pouca água que tem. E como não está a produzir açúcar para os bagos, a maturação também para. Ao mesmo tempo, a planta necessita de energia para os seus processos. Ora, não tendo açúcar para essa energia vai buscá-la aos ácidos, o que faz diminuir a acidez dos bagos. E assim temos uma uva desequilibrada. Contudo, graças à “vitimeterologia” adquirimos uma capacidade de intervenção na vinha de que antes não dispúnhamos”.

Dentro das alterações climáticas, “a região do Mediterrâneo tem características específicas dada a sua localização numa zona temperada – a migrar para subtropical – e a proximidade a uma região desértica que é o Norte de África”, como sublinha o responsável de Investigação e Desenvolvimento da Sogrape. E isto afeta o setor vitivinícola, que tem o Mediterrâneo como seu coração histórico. Mas não só. Como é evidente, afeta também outros setores agroalimentares que se desenvolvem nesta área, com destaque para a olivicultura e a produção de azeite. Assim como os cereais, de que o trigo é um caso emblemático. “Por isso, este projeto visa juntar as competências que têm vindo a ser desenvolvidas na União Europeia, do ponto de vista científico, para enfrentar os desafios comuns das alterações climáticas na bacia do Mediterrâneo que se colocam a estes três setores – vinho, azeite e massas de trigo”.

E o projeto pode ir ainda mais longe, mesmo em termos de abrangência geográfica, como observa António Graça: “Aquilo que for desenvolvido para esta região tem depois externalidades que podem ser aplicadas em qualquer parte do mundo. Aliás, o projeto tem uma componente que visa aplicar o valor acrescentado que for desenvolvido para os três setores agroalimentares do MED-GOLD noutras áreas de atividade económica, na medida em que integra um parceiro da Colômbia envolvido na cultura do café em zona tropical”.

“Mais eficiência na cultura da vinha e na produção do vinho”

“Importa também dizer – como sublinha António Graça – que apesar de haver uma perspetiva negativa sempre que se fala de alterações climáticas, este projeto cria oportunidades para desenvolver novos tipos de vinhos, para obter mais qualidade nos vinhos, mas, sobretudo, para alcançar mais eficiência na cultura da vinha e na produção do vinho”.

E como se consegue tal desiderato? António Graça responde: “Através da capacidade de prever com maior antecipação a evolução do tempo e do clima, o que nos permite agir preventivamente e estar preparados para fazer face a situações que atualmente só sabemos que vão ocorrer cinco dias antes. Aquilo que esperamos obter como grande resultado da nossa participação neste projeto europeu – útil para a Sogrape mas, através de nós, para todo o setor vitivinícola – é uma maior resiliência do nosso negócio”.

Ao longo dos próximos quatro anos do MED-GOLD (projeto de investigação e inovação financiado pelo programa Horizonte 2020, o Programa-Quadro da União Europeia para a Investigação e Inovação), a Sogrape Vinhos contribuirá para orientar o conhecimento dos parceiros científicos da área da climatologia para a criação de serviços climáticos, permitindo o acesso dos mesmos a dados históricos, não só climáticos (recolhidos pela sua rede de estações meteorológicas), mas também de cultura (registos de datas de vindima, estados fenológicos e de pressão de doenças da videira). Além disso, fará uma avaliação com os utilizadores finais (técnicos de viticultura e enologia), dos serviços criados para determinar o valor que acrescentam quando comparados à situação atual.

Em jeito de conclusão, e como António Graça gosta de dizer, “o que se fazia tradicionalmente hoje já não é válido, e por isso temos de criar novo conhecimento. Não podemos continuar a fazer como os nossos avós faziam, porque o futuro que aí vem é totalmente diferente do nosso passado”.  Além do mais, “uma agricultura climaticamente inteligente contribuirá para reduzir e, mesmo regredir, o aquecimento global”. O que não é coisa pouca.

Trabalho originalmente publicado na edição 340 (Março de 2018) da Revista de Vinhos.

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