VIDIGUEIRA

O Alentejo de Paulo Laureano, Ribafreixo e Sobroso

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Devido a características muito próprias de orografia, composição de solos e clima, a Vidigueira traduz um Alentejo particular. Nesta reportagem, a Revista de Vinhos conhece as vinhas, as adegas e os territórios de Paulo Laureano, Ribafreixo e Herdade do Sobroso, através dos quais comprova a diversidade que a Vidigueira consegue propiciar. 

 

Existe uma associação direta entre o Alentejo e o vinho, que se traduz na presença milenar de vinha por aquelas paragens, proporcionando uma história tão rica quanto diversa, da qual a atual geração é herdeira. A consciência da heterogeneidade da região tem vindo a aumentar e a afirmação “o Alentejo não é todo igual” começa a circular e a ser usada como argumento para provocar a curiosidade de quem ainda pensa com o preconceito de os vinhos alentejanos pautarem-se todos pelo mesmo perfil.

O Alentejo vitivinícola divide-se em oito sub-regiões (o que, por si só, é bem demonstrativo das diferenças assinaladas que se procuram respeitar, proteger e potenciar), agrupadas geograficamente em três manchas: a norte, encontramos Portalegre; na zona central, temos Borba, Redondo, Reguengos e Évora; e, mais a sul, há ainda espaço para a Vidigueira, Granja-Amareleja e Moura. E é precisamente ao Baixo Alentejo que nos dirigimos, fazendo “zoom” à região da Vidigueira.

Os pergaminhos destes vinhos não estão apenas entre as memórias populares, como é comum na história mais recuada de grande parte do vinho português. Não serão muitas as regiões que se podem orgulhar de ter obtido um prémio internacional em pleno século XIX. Pois, o Quinta das Relíquias, vinho branco da Vidigueira, levado à Exposição de Berlim de 1888 pelo Conde da Ribeira Brava, ganhou a Grande Medalha de Honra, distinção máxima atribuída no concurso. Terá sido um período de glória, a que se seguiram, infelizmente, vários outros de menos “glamour”, bastante declínio e crise profunda que duraram grande parte do século XX. Mas, a vinha e a produção de vinho nunca desaparecem e o Alentejo conhece, já perto do final do século, uma evolução marcante com a adesão do país à atual União Europeia (anos 80). Como consequência dircta, são criadas cinco zonas VQPRD (Vinho de Qualidade Produzido em Região Demarcada), integrando a Vidigueira este grupo inicial, ao qual se juntam, mais tarde, três outras. As oito VQPRD vêm a tornar-se nas sub-regiões oficiais quando, em 1998, o Alentejo é reconhecido finalmente como uma única Denominação de Origem (DOC).

E por que é a Vidigueira diferente das restantes zonas da vasta planície alentejana? O que distingue os vinhos? Porque se destaca a qualidade dos vinhos brancos numa região tão a sul? Estas são as perguntas que motivam quem quer conhecer os vinhos da Vidigueira e perceber o percurso histórico e a geografia. 

Em termos de território, a vila da Vidigueira situa-se no Baixo Alentejo, no distrito de Beja, e dá nome, como já vimos, à sub-região que hoje visitamos. O acidente orográfico constituído pela serra do Mendro (com cerca de 400 metros de altitude) influencia toda a zona, fazendo a separação entre o Alto e o Baixo Alentejo. É precisamente a falha da Vidigueira, com a orientação este-oeste que, formando um corredor natural para que a influência marítima ainda possa fazer-se sentir, condiciona o clima, contribuindo para temperaturas um pouco mais baixas, sendo de salientar as enormes diferenças térmicas diárias que muitas vezes se verificam (um dos grande trunfos de toda a zona são as noites frescas). Os solos apresentam grande diversidade e são pouco produtivos, sendo sobretudo as zonas de xisto que desempenham um papel fundamental sobre o perfil dos vinhos ali nascidos.

Quanto a castas, a Antão Vaz é a grande estrela, sendo uma variedade autóctone de reconhecida qualidade. Vamos encontrar o conjunto mais óbvio de encepamentos, com Roupeiro e Arinto, além da referida Antão Vaz, nas brancas, e Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet, nas tintas. Depois, temos as castas que migram pelo país, como a Touriga Nacional ou o Alvarinho, enquanto as internacionais, como por exemplo a Syrah, encontram também lugar. Quanto a variedades autóctones que praticamente estiveram esquecidas começam a suscitar novamente interesse o Perrum (branca) e a Tinta Grossa (que esteve praticamente extinta).

 

RIBAFREIXO
A construção de um sonho


Vamos encontrar a Herdade do Moinho Branco na saída sul da vila da Vidigueira, bem visível do IP2 (que liga Évora a Beja). É aqui que se concretiza o projeto de Mário Pinheiro e Nuno Bicó, a Ribafreixo Wines.

O início remonta a 2007. Mário Pinheiro, com um percurso profissional de sucesso na África do Sul, enquanto gestor e CEO no campo das novas tecnologias, e Nuno Bicó, engenheiro agrónomo, alentejano de Serpa, cujo sonho era viver da terra e do vinho, com um percurso profissional que lhe tinha já dado experiência na área dos investimentos e financiamentos agrícolas. O projeto conta ainda a enologia de Paulo Laureano.

A partir de uma primeira vinha de 4 hectares, juntaram-se dezenas de outras parcelas de terra abandonadas, algumas com vinha, que foram sendo reconvertidas, recuperadas e plantadas. A propriedade tem 114 hectares, dos quais cerca de 75ha são de vinha em produção integrada.

A fixação na Vidigueira foi intencional, a tradição vitivinícola um modelo e o carácter dos vinhos o objetivo. A escolha recaiu sobre castas portuguesas. Nos brancos, Antão Vaz, Arinto, Verdelho, Roupeiro, Alvarinho e ainda Chenin Blanc. Para os tintos, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Tinta Miúda e Aragonez. Bem, Alicante Bouschet não é uma variedade portuguesa, mas a fixação no Alentejo aconteceu há tanto tempo e com resultados tão respeitados, que é a mais portuguesa (e alentejana) das castas francesas. Já o Chenin Blanc não tem qualquer tradição e, se o critério passava por escolher apenas encepamentos portugueses, porquê esta presença? É a exceção e tem a ver com a vontade do produtor, Mário Pinheiro. Mário passou grande parte da vida na África do Sul e quis ter um vinho que testemunhasse essa história. A Chenin Blanc é originária do Loire, onde está na base de vinhos de grande personalidade, tendo viajado até à África do Sul, onde se adaptou muito bem e se tornou emblemática. E na Vidigueira comprova, mais uma vez, a versatilidade. A vinha, com 1ha, foi iniciada em 2009. Já este ano foram plantados mais 3ha, escolhendo solos de xisto e zonas mais baixas (próximo da linha de água que passa na herdade, a ribeira do Freixo).

A adega tem cinco anos e é um objeto de arquitetura integrado na paisagem. O interior é claro e luminoso, com muita luz zenital e uma sensação de espaço que não é comum. O primeiro vinho, Antão Vaz, foi feito em 2009 e nesses primeiros anos era usada a adega de Paulo Laureano.

Ribafreixo tem um restaurante com oferta genuinamente alentejana (Paula Caetano, do antigo restaurante Vila Velha, está à frente da cozinha), cuja carta inclui também os doces conventuais das “Maltesinhas”, de Beja. O enoturismo estende-se a provas, visitas à adega e às vinhas. 

Em 2016, a produção atingiu os 350.000 litros e, no portefólio da Ribafreixo, a preferência por vinhos brancos traduz-se nuns expressivos 70%. Os principais mercados são Angola e Austrália.

Os vinhos que conhecemos na nossa visita, e que são agora lançados, revelaram uma qualidade e frescura muito consistentes, com alguns a assumir quase uma provocação, como o Pato Frio Grande Escolha Antão Vaz, cujo 2014 revelou uma capacidade de evolução extraordinária e confirmou que estamos perante vinhos que precisam de algum tempo. A diferença para a colheita agora lançada, 2015, é bastante notória, com aromas que tendem já para algum petróleo, a boca muito cremosa numa coluna vertebral de acidez e mineralidade. Neste vinho são usadas vinhas velhas (das mais antigas vinhas de Antão Vaz da Vidigueira, primeiros exemplos de castas separadas). Fermentou 50% em madeira e 50% em inox, com bâttonage de cerca seis meses. Já o Connections Chenin Blanc 2016, do qual foram produzidas 7.500 garrafas, é um vinho com alguma discrição e uma componente de ervas aromáticas suave, com um perfil sério e elegante (que o afasta dos modelos pré-concebidos de vinhos do Novo Mundo). Ficámos também a conhecer o estilo dos vinhos tintos, resultado de lotes clássicos alentejanos, a que se juntou a Touriga Nacional. O Gáudio Clássico 2014, com estágio parcial de sete meses em carvalho francês, enquanto o Gáudio Reserva 2013, apenas com Alicante Bouschet e Touriga Nacional, tem 100% de madeira nova, num estágio de 13 meses. São vinhos de carácter marcado, o primeiro com a frescura da Tinta Miúda (10%), o segundo mais denso e texturado. Ambos, grandes exemplos que a Vidigueira não é apenas terra de brancos.

 

17
Pato Frio Grande Escolha Antão Vaz 2015
Alentejo / Branco / Ribafreixo Wines

Amarelo ouro com reflexos limão. O nariz é algo fechado, de início. É complexo, tem algumas notas florais, limão e ligeira especiaria. Na boca é untuoso, amplo, de acidez vibrante e cremoso. Tem um final longo, com gordura, mineralidade e tensão. Um grande exemplo de Antão Vaz, com potencial de evolução. CL

Consumo: 2017-2020
9,67 € / 11ºC


16,5
Connections Chenin Blanc 2016
Alentejo / Branco / Ribafreixo Wines

Amarelo limão. O nariz tem notas de ervas aromáticas, é discreto e elegante. A boca denuncia fruta de grande qualidade, tem acidez fina, terminando com mineralidade e elegância. Em toda a prova, predomina uma certa austeridade muito apelativa. CL

Consumo: 2017-2020
11,50 € / 11ºC

 

16,5
Gáudio Reserva 2013

Alentejo / Tinto / Ribafreixo Wines

Concentrado na cor, tem aromas de menta e algumas sugestões florais, num nariz muito elegante. É um vinho denso, com taninos que se sentem sem agressividade. Tem boa estrutura, frescura e concentração de fruta. Termina equilibrado, altivo e cheio de garra para continuar a evoluir em garrafa. CL

Consumo: 2017-2022
21,41 € / 16ºC


16
Gáudio Clássico 2014
Alentejo / Tinto / Ribafreixo Wines

Rubi com tons granada. O aroma revela notas de ginja e algum chocolate. A boca tem taninos expressivos, acidez e corpo forte. É um vinho equilibrado e versátil, com fruta e frescura. CL

Consumo: 2017-2022
10,49 € / 16ºC

 

PAULO LAUREANO
O embaixador de bigodes da Vidigueira


Fomos recebidos com o sorriso franco e habitual de Paulo Laureano. A nova adega, junto ao IP2 (pouco depois da Ribafreixo), está ainda numa fase de pequenos acabamentos e mudança da zona administrativa. Toda a adega propriamente dita está em funcionamento, faltando apenas a sala de estágio das barricas ser devidamente ocupada por esses elementos, que lhe vão dar alma. Após a conclusão total dos trabalhos, vão ser iniciadas atividades de enoturismo, estando a ser equipada uma cozinha junto à sala das barricas, na qual Paulo Laureano promete demonstrar todo o virtuosismo (!). 

O papel deste enólogo/produtor no vinho português é sobejamente conhecido. Impossível não pensarmos nos icónicos vinhos do Mouchão… Mas a associação mais imediata é Vidigueira. Porquê o  interesse e quais as motivações para continuar investigação, investimento e experimentação? O que têm estes vinhos de diferente? 

Paulo Laureano começou a empresa familiar em 1999. Hoje, o nome é a marca. Com 120 hectares de vinhas, 110ha na Vidigueira e 10ha em Évora, em produção biológica, produz cerca de 1,5 milhões de garrafas por ano. 

Desde há muito que defende as castas portuguesas e essa atitude de proteção é estendida aos vinhos. Este é precisamente um dos pontos-chave para o interesse desta zona, as castas indígenas. A Vidigueira tem um conjunto de castas únicas e, ao aproveitar esse património, Paulo acredita ter o trabalho facilitado – as castas têm tanto potencial, que “basta não inventar e deixar que se exprimam”. O Antão Vaz, por exemplo, aqui é muito mais equilibrado, tem acidez e um perfil aromático muito bom, diz-nos, sobretudo em solos de xisto.

Procura também saber como é que historicamente as coisas aconteceram e começa a perceber que algumas castas que têm vindo a ser erradicadas dos encepamentos tinham um papel muito importante na qualidade que era reconhecida aos vinhos. Por exemplo, Perrum (branca) e Tinta Grossa (tinta), pela qual começou a interessar-se ainda na universidade, quando esta se encontrava já literalmente em vias de extinção. Mais tarde, descobriu que tinha meio hectare numa vinha que comprou. Agora tem 3ha e pretende continuar a expandir. A casta começou a ser abandonada porque é muito vigorosa e precisa ser muito controlada. Quando entrava nos lotes (na própria vinha), imprimia uma frescura muito especial aos vinhos e era tão considerada que gerou um sentimento de posse (as pessoas referiam-se-lhe como “tinta da nossa”).

Além das uvas, Paulo Laureano refere o clima como outro dos fatores diferenciadores da região. Amplitudes térmicas muito fortes, de mais de 20ºC no mesmo dia, e a influência marítima que, como já vimos, ainda se faz sentir nesta zona do interior. Também os solos com grande heterogeneidade e, sobretudo, a importância do xisto (especialmente nas vinhas velhas), vão contribuir para a frescura e mineralidade. Por último, a orografia (zona de pequenas encostas) e a flora (pequenas propriedades com hortas), são marcantes na Vidigueira. Paulo Laureano diz-nos, com o ar sereno: “Quero trazer tudo isto para dentro de um copo, sem grandes complicações”.

Começamos por provar um vinho estreme de Verdelho. Paulo tem consultorias nos Açores e na Madeira, o que despertou o interesse pela casta, pela qualidade e diferença, revelando, nas ilhas, um perfil muito mais mineral e menos tropical. Considera-a uma casta de grande plasticidade, tendo trazido da Madeira diversas varas à medida das viagens. O Genus Generationes Maria Teresa 2015 tem maresia no aroma e Alentejo na boca. O que se pode pedir mais?

De seguida, entramos no universo do Antão Vaz, primeiro com o Vinhas Velhas Private Selection 2016, depois com o charmoso Dolium Escolha 2014. O primeiro fermentou e teve seis meses de estágio em barrica. De acordo com o produtor, traduz o que são as vinhas da Vidigueira. Quanto ao Dolium, resulta de vinhas com mais de 70 anos, de uma encosta norte, e tem oito meses de estágio em barrica. É um vinho preenchido, com tanta profundidade que é quase discreto. Um senhor.

Nos tintos, o carácter dos lotes tradicionais é enaltecido com elegância, suavidade na boca e uma fruta muito bonita. Conhecemos, também, o Selection Tinta Grossa 2013, com todo o exotismo e particular “finesse”, que não associamos naturalmente ao Alentejo. E, para terminar, tivemos ainda um exemplo de Alfrocheiro (há muito usado na Vidigueira), que resulta mais maduro que no Dão. O Genus Generationes Miguel Maria 2015 tem um nariz misterioso, é um vinho muito diferente de tudo a que estamos habituados. Depois, a boca é uma explosão, tem uma enorme potência… e Paulo Laureano diz-nos, com os olhos a brilhar: “Essa potência é muito identificadora, percebe-se porque é que a Vidigueira é diferente”.

 

17,5
Dolium Escolha Branco 2014
Alentejo / Branco / Paulo Laureano Vinus

Amarelo brilhante. Complexo e sedutor, com a elegância de flores brancas e fruta polida, sem qualquer exagero. Todo o vinho aponta num perfil mineral, com notas de sílex evidentes. Na boca tem cremosidade e volume, a madeira envolve sem sobrepor, tem acidez e profundidade, bom potencial de evolução em garrafa. CL

Consumo: 2017-2021

34,59 € / 11ºC

 

17
Paulo Laureano Genus Generationes Maria Teresa Laureano 2015
Alentejo / Branco / Paulo Laureano Vinus

Cor de limão. Perfil mineral muito intenso, com notas de maresia muito finas e elegantes. A boca tem acidez viva, com estrutura e fruta bem presente, apontando para o carácter de branco alentejano. Ótima a dualidade entre o nariz mais etéreo e a boca a lembrar a planície. Um vinho muito bonito e profundo. CL

Consumo: 2017-2020

12,22 € / 11ºC

 

17
Paulo Laureano Selectio Tinta Grossa 2013
Alentejo / Tinto / Paulo Laureano Vinus

Rubi com tons granada. O nariz tem menta, um “hint” de especiaria, madeiras exóticas, todo a tender para um perfil de frescura. Na boca sentem-se taninos areados, é estruturado, com corpo, notas de ameixa e algum vegetal, demonstrando vigor para envelhecer. Termina fresco, longo e seguro. É um tinto com algum exotismo e grande carácter. CL

Consumo: 2017-2023

 28,83 € / 16ºC

 

16,5
Paulo Laureano Genus Generationes Miguel Maria Laureano Alfrocheiro 2014
Alentejo / Tinto / Paulo Laureano Vinus

Cor violácea. O nariz é misterioso, a desvendar notas de amora e pinhal. A boca é quase explosiva, com intensidade, fruta mais aberta e acidez muito viva. Os taninos revelam-se com suavidade, equilibrando esse lado mais “desalinhado”. É um vinho muito focado numa certa potência, a que não é possível ficar indiferente. CL

Consumo: 2017-2024

17,25 € / 16ºC

 

16
Paulo Laureano Vinhas Velhas Private Selection 2016
Alentejo / Branco / Paulo Laureano Vinus

De tons palha claro, o nariz é aromático e frutado, com manga bem madura e casca de tangerina. A mesclar toda esta fruta é possível encontrar alguma mineralidade e ligeira tosta discreta. É um vinho estruturado, com volume e final marcado por notas mais citrinas e frescas. CL

Consumo: 2017-2020

12,40 € / 11ºC

 

HERDADE DO SOBROSO
Turismo, paisagem, vinho, gastronomia


“O que sente alguém que tem uma parte do território?”. Fiz esta pergunta a Sofia Ginestal Machado, exatamente quando pisávamos a linha imaginária que divide o Alto do Baixo Alentejo, num dos pontos mais altos da Serra do Mendro. A resposta foi quase pragmática, “uma consciência enorme da responsabilidade.”

A Herdade do Sobroso situa-se a 9 km da barragem do Alqueva. A norte é delimitada pelo Mendro (começando na Aldeia do Alqueva), a nascente, pelo Guadiana, e a sul, até onde a vista alcança, o cenário oferece as mais bonitas planícies. São 1.600 hectares de natureza, dos quais uma ínfima parte tem construção e apenas 60ha têm vinha. Ou seja, é uma paisagem limpa, completamente livre de presença humana. A propriedade foi comprada em 2000, com o monte em ruínas e as terras em estado de total abandono. Tratando-se de um investimento familiar, o pai de Sofia, arquiteto, recuperou todas as ruínas, transformando-as em hotel (11 quartos e restaurante) e numa adega.

Sofia, engenheira zootécnica de formação, encontrou uma forma de viver que a preenche de corpo e alma e Filipe Teixeira Pinto, o marido, enólogo que conheceu nos tempos da universidade, assina os vinhos produzidos na herdade. 

O Sobroso desenvolve turismo rural, cinegético e enoturismo. A vasta propriedade, com zonas montanhosas, planície, um braço do Guadiana, penínsulas, lagos e vinhas, tem um conjunto precioso de animais selvagens, veados, gamos, muflões, javalis, inúmeras espécies de pato-real e várias outras aves. As atividades vão desde o “birdwatching”, aos passeios de balão e de bicicleta, aos caiaques, aos safaris fotográficos, às provas de vinhos, às vindimas e passeios pelas vinhas, aos piqueniques. Quanto ao restaurante, o trunfo secreto do Sobroso chama-se D. Josefina e é imperioso não perder as refeições que saem daquelas mãos.

Ao projeto vitivinícola da Herdade do Sobroso juntou-se, ainda, o enólogo Luís Duarte. Em 2001 são plantadas as vinhas e as castas tintas escolhidas são Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Cabernet Sauvignon e Syrah, sendo uma aposta mais recente a Touriga Nacional, a Touriga Franca e o Petit Verdot. Nas brancas, vamos encontrar Antão Vaz, Alvarinho, Arinto, Verdelho e Perrum. A herdade está integrada no “Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo” e qualquer atividade desenvolvida no Sobroso tem por base o respeito pelo lugar.

Das vantagens ou diferenças da Vidigueira, Filipe destaca a orografia muito particular, condicionada pela serra. Os solos de argila pobre e xisto férreo são outro elemento diferenciador e, quanto às variedades de uva, as brancas indígenas são, também aqui, enaltecidas. Ao Antão Vaz é reconhecida a capacidade de defesa do calor, na vinha, e o enorme potencial para vinhos de qualidade, com capacidade de evolução, sendo usado estreme ou como base nos vinhos de lote. Também a Perrum tem lugar, estando a ser recuperado o interesse por esta casta esquecida.

Começamos por conhecer o Antão Vaz Barrique Select 2016. Este vinho fermenta 50% em inox e 50% em pipos de 500 litros de carvalho francês (usados), com bâttonage. É um vinho muito focado na fruta e na acidez, com a boca ligeiramente vegetal, que lhe dá um contraponto muito interessante. Depois, mais um branco, Cellar Selection 2016, um lote de Antão Vaz e Alvarinho. Todo o processo de fermentação é idêntico ao vinho anterior (inox e carvalho usado), tendo sido o Alvarinho fermentado a uma temperatura mais baixa para conseguir um perfil de maior frescura para o vinho. Tem também um carácter focado na fruta, mas sentem-se mais os fumados e a tosta (tem três meses de madeira), com um final muito forte de sílex.

Por fim, foi-nos apresentada uma das medalhas “Grande Ouro” do “Concurso dos Vinhos de Portugal” deste ano, o tinto Cellar Selection 2014. O lote tem Syrah e Alicante Bouschet, tendo estagiado um ano em carvalho francês, uma parte novo, a maioria de segundo ano. Para este vinho, as uvas são escolhidas criteriosamente e a produção ronda as 9.000 garrafas. É um vinho com um perfil aromático muito particular, com notas abertas (o Francisco chama-lhe “guloso”) e fruta madura. É todo ele muito equilibrado, não se sente calor em demasia, mas tem um peso próprio bem marcante. Sem dúvida, a lembrar-nos que o vinho e a mesa formam um conjunto irresistível e que a presença da D. Josefa na Herdade do Sobroso é uma expressão de absoluto bom gosto.


17
Herdade do Sobroso Cellar Selection 2016
Alentejo / Branco / Herdade do Sobroso

Cor palha clara. O nariz tem fruta e frescura, alguma tosta e muita elegância. Na boca, apresenta-se denso e cremoso, com notas fumadas, fruta fresca e ligeira pimenta branca. Tem acidez elevada, terminando longo e incisivo, com notas de sílex. É um branco de grande intensidade e “finesse”. CL

Consumo: 2017-2020
18,00 € / 11ºC


17
Herdade do Sobroso Cellar Selection 2014
Alentejo / Tinto / Herdade do Sobroso

Rubi. Tem um carácter muito particular, com nariz de fruta madura bastante franco. É um vinho empático, com taninos suaves mas texturados. Todo o vinho está muito harmonioso, com estrutura, acidez, intensidade e algumas notas mais verdes no final que lhe dão frescura. Um grande vinho para a mesa. CL

Consumo: 2017-2022
20,00 € / 12ºC


16
Herdade do Sobroso Barrique Select 2016
Alentejo / Branco / Herdade do Sobroso

De cor citrina, tem um nariz muito limpo, focado na fruta tropical, com notas de ananás bem presentes. A boca é inteiramente dominada pela frescura, com uma acidez precisa e vibrante. Muito pouco marcado pela madeira, tem volume, algumas notas de limão e um certo lado vegetal. É um vinho alegre. CL

Consumo: 2017-2020
10,00 € / 11ºC

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