Vinhos estrangeiros em Portugal

Fotografia: Ricardo Garrido
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Guilherme Corrêa

Guilherme Corrêa

Portugal é um país produtor de grande vinhos e os portugueses são os melhores consumidores e embaixadores dos vinhos nacionais. Nesta prova, todavia, o desafio passou por provar os vinhos estrangeiros disponíveis à venda no nosso país, de mente arejada e sem preconceitos. Mais de sete dezenas de rótulos de 12 países, com um patamar médio qualitativo muito apreciável.



Este foi um painel de provas muito interessante para o momento que Portugal vive, de imenso incremento turístico e receção de novos residentes de diversas nacionalidades. O país está definitivamente na moda e oferece muitos atrativos de qualidade de vida. A gastronomia e o vinho são dois deles.

A abertura do país a enófilos do mundo inteiro certamente trará enormes benesses ao vinho nacional, uma vez que terão a oportunidade de conhecê-los, percebê-los e passar a consumi-los com maior interesse e regularidade. Por outro lado, é possível que também se faça sentir o incremento da presença de vinhos estrangeiros nas nossas prateleiras e nas cartas de vinho dos restaurantes.
Felizmente, os portugueses são abertos às experimentações, mais do que outros povos europeus, que consomem não apenas os vinhos do país com somente os da própria região. O que torna a bebida de Baco incomparável é a infinita diversidade, de forma que passar uma vida a provar sempre os mesmos rótulos, por melhores que sejam, é negligenciar a maior beleza do mundo do vinho.

Embora os vinhos importados representem percentagens muito pequenas ainda no total do consumo interno, algo em torno de meio milhão de garrafas de vinho tranquilo, 3,3 milhões de garrafas de espumantes – a representar 20% do consumo total no país –, e apenas 12.000 garrafas de fortificados, segundo os dados de 2016 do IWSR, que monitoriza o consumo de bebidas alcoólicas no mundo, em conversa com alguns importadores pode-se perceber claramente que está a ocorrer uma substituição dos vinhos de baixa qualidade para vinhos de produtores direcionados à qualidade. O mercado “high-end” de vinhos franceses, espanhóis e italianos está a movimentar-se em Portugal.

Mas, tudo isto não deve ser um motivo de preocupação para os produtores portugueses. Além das quantidades serem mínimas, a qualidade dos nossos vinhos garante-se em qualquer mercado ultracompetitivo, como atesta o forte crescimento luso registado nos EUA, nos últimos anos. Adicionalmente, um mercado mais aberto não significa necessariamente dificuldades aos vinhos locais. Os próprios Estados Unidos são o melhor exemplo, pois vendem vinhos do mundo inteiro com taxas baixíssimas de importação e os vinhos domésticos comercializados com preços relativamente altos representam mais de três quartos do pujante mercado interno, com ligeiro crescimentos destes. 

Vamos então provar sem preconceitos, perceber como o vinho português se encaixa no mercado globalizado em termos de estilo, qualidade e preço, e celebrar a desconcertante diversidade que apenas o mundo do vinho pode oferecer.

A prova

No total, 72 rótulos de 12 países foram provados rigorosamente às cegas, entre espumantes, brancos, rosés, tintos e fortificados/sobremesa. A maior parte da amostragem foi de vinhos de gama média, com alguns, poucos, de entrada de gama e quase 10% com PVP acima de 50,00€.

O nível de qualidade média das amostras deixou o painel da Revista de Vinhos bastante satisfeito, corroborando a ideia de que cada vez mais os vinhos importados disponíveis em Portugal apresentam qualidade e devem ser experimentados pelos enófilos portugueses.

Mais especificamente, mostraram-se muito bem os vinhos da Alemanha, da Argentina e da Áustria. A Alemanha a brilhar com vinhos brancos precisos, cheios de verve e mineralidade. Da Áustria foram poucas as amostras, mas a casta branca emblemática– a Grüner Veltliner – e a tinta – a Blaufränkisch – estão na base de vinhos cada vez mais surpreendentes, ostentando elegância, verticalidade e carácter vincado. A Argentina confirmou o imenso potencial e não é à toa que se destaca no âmbito global como uma das maiores forças do Novo Mundo, principalmente nos tintos à base de Malbec, Cabernet Sauvignon e “blends”, mas também com deliciosos brancos autóctones de Torrontés. Há que se mencionar que o grande rival andino Chile não participou com amostras do mesmo patamar qualitativo. 

Curiosamente, o grande campeão da prova foi um alucinante vinho espanhol de Montilla-Moriles. Como vimos, em Portugal quase não se importam vinhos da tipologia dos fortificados, algo em torno de mil caixas por ano no total. Indiscutivelmente, Portugal reina soberano em termos qualitativos, com os Porto, Madeira, Moscatel de Setúbal, etc., mas não é uma experiência enriquecedora termos aqui disponível para provar um vinho como este Don PX Gran Reserva da Toro Albalá? A beleza para quem não se priva da diversidade.

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