À caça da perdiz vermelha

Fotografia: Fabrice Demoulin
Partilhar
Fátima Iken

Fátima Iken

É uma ave de porte nobre e grande beleza. Bico curto e patas vermelho-sangue, abdómen cor de tijolo e flancos estriados na zona das asas e pescoço, entre cores de cinza e creme, a perdiz vermelha é um belíssimo espécimen cinegético, sem sombra de dúvida. Custa até matá-la, a esta ruiva de perdição, mas o sabor é tão delicado que não a comer seria ainda maior pecado. No prato, a plumífera é boa a deixar respirar os aromas do mato e da floresta, sem grandes adereços que lhe retirem essa faceta selvagem, que faz a Natureza falar de forma quase poética.

 

 

Agora que as cores ocres se adensam na floresta, as folhas tombam crocantes nas matas e os primeiros assomos de frio se entrelaçam em horas soalheiras, pontuando de dourado os dias invernais, uma fremência se impõe que impele o caçador a saltar para o terreno, a par das narinas nervosas dos perdigueiros.


A orografia e a paisagem venatória portuguesa convidam à caça. Quem gosta da adrenalina de acertar num animal não o faz por ser selvagem, bem pelo contrário. Consegue atingir um ponto em que a emoção e a atitude anímica se cruzam. Está em plena Natureza de forma quase fusional, à escuta, alerta e com os sentidos apurados para o golpe fatal. E, no meio desta aparente carnificina, há uma grande magnitude, um respeito e um silêncio quase litúrgico. Para quem entende do que estou a falar, claro. Desse estado que se faz de silêncios, prazer e solidão no coração da floresta.


Para os que apreciam a perdiz vermelha só no prato, também os compreendemos. Até porque se trata de um animal de tanta elegância e porte majestático, que matá-la não será para todos. Daí que Grimod de la Reynière dissesse que se tratava de um prato de reis, apelidando-a “cardeal das aves”.


Nestas coisas da vida há sempre os que comem e os que são comidos. Não vale a pena estar com grandes delongas em torno do assunto. É assim e pronto. Mas o verdadeiro caçador mata porque caça.

Não caça para matar. Há uma espécie de “ethos” cinegético que faz parte da alma do verdadeiro caçador. 


Vamos mas é ao que interessa. À caça. Porque foi nessa experiência que aprendemos estas conclusões. A localização eleita foi a sul, no Baixo Alentejo, onde abunda a nossa perdiz vermelha.
Depois de uma noite breve num aconchegante hotel de Moura, que em tempos foi o Convento da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, acordamos ainda com o breu silencioso da noite porque a aventura da caça começa com a alvorada. 
E foi numa madrugada amena de novembro que nos metemos a caminho, em direção a Póvoa de S. Miguel, aldeia junto ao Guadiana, situada entre a Amareleja e Moura, aos pés da ribeira do Zebro, braço de água da barragem do Alqueva.


Apesar de um leve manto de geada sobre os campos, o céu matizava-se de tonalidades violáceas, prometendo uma memorável caçada na planície alentejana.
Os nossos anfitriões, do Clube de Caça do Zebro, já estão a postos para nos levarem até à Herdade das Areias, onde um grupo de caçadores começava a antecipar a adrenalina em amena cavaqueira. 

Quem ama esta aventura levanta-se de madrugada e começa logo com um lauto pequeno-almoço. Não, nada de torradinhas e uma meia de leite. Costelinha de porco preto grelhada, entremeada, vinho tinto, fatias paridas (uma espécie de rabanada), ovos mexidos e salsichas começam logo por aquecer os estômagos e dar alento aos nossos caçadores para a jornada que se avizinha. Aproveita-se para colocar a conversa em dia, entre um bruaá de partilha do grupo, quase familiar, porque mais uns tempos e o silêncio deve imperar para não perturbar a caçada. Uma mancha de verde tropa e camuflado povoada de coletes e cinturões com cartuchos dourados decide que está na hora da primeira volta. Lá fora sente-se o pulsar da excitação dos cães. Bracos alemães, epagneul breton, setter e perdigueiros não escondem o frémito do que se avizinha com alguns rosnados e latidos excitados.

A Herdade das Areias, com cerca de mil hectares, concessiona a zona de caça. Estende-se a perder de vista entre ondulações polvilhadas de sobreiros, oliveiras, montado de azinho e gado. Há um perfume de esteva no ar que convida a palmilhar o terreno, debruado pelas águas azuis do Alqueva.

O ceú continua riscado de cores alaranjadas, prometendo uma manhã soalheira, e as espingardas já estão em riste para enfiar nos jipes e nos metermos ao caminho. As extensões de terra vermelha confluem com manchas verdes de azinheiras e piorneiras disseminadas por declives ondulados. Perdizes, nem vê-las. Têm manhas e sabem esconder-se. Mas quando se encontram amassadas (coladas ao chão) para fintarem, os que são mesmo caçadores não atiram. Só mesmo os bárbaros.

O mato rasteiro, o olival e a vinha são esconderijos das perdizes selvagens e, para lhes fazer cerco, há que montar uma tática que se desenha naquilo a que chamam “asa de caldeirão”.
O arco da linha de caça, em forma de meia-lua, é montado depois de um sorteio que divide o grupo em 14 “portas” e a batida. Se uns se posicionam em “spots” estratégicos, à tocaia, esperando, outros fazem o percurso a pé, a que dão o nome de “salto”.
O que motiva estes homens ao desporto de caçar será sobretudo a partilha e convívio, a par do contacto com a Natureza, o frente-a-frente com a vida animal, como nos conta o caçador Francisco Amante. Momentos que oscilam entre a solidão e a partilha fraterna.
As caçadas são feitas com intervalos de 15 dias para respeitar a gestão cinegética e direcionadas apenas para um tipo de caça. Por isso, lebres hoje não se apanham, apesar de passarem algumas por nós, saltitantes e assustadas.

“Usufruir da Natureza, conviver e relaxar são as principais razões que levam a participar na caça. Conseguimos descomprimir e ao mesmo tempo partilhar uma experiência. Aqui entra-se noutra dimensão. Mas para fruir estes momentos é preciso respeito. Acaba por ser uma terapia”, confessa-nos Francisco Morgado, vice-presidente do Clube de Caça do Zebro. Muito mais do que o ato de matar é todo um mundo de sensações que se vivenciam no grupo, numa cumplicidade única. Por essa razão, respeito é uma palavra de ordem.
É hora de dividir o grupo e cada ocupa a respetiva posição. Os que andam a pé a bater terreno, ou seja, “a salto”, vão empurrando a caça em direção aos que se encontram parados.
As perdizes tentam mimetizar-se na paisagem e, na maior parte dos casos, são os cães que as farejam. Depois, um bater de asas em voo picado tenta a fuga com destreza, mas um estampido ecoa no vale e o cão apanha a primeira peça de caça. Cada cartucho tem mais de 200 chumbos, por isso um tiro provoca uma chuva deles. Por todos estes motivos há que saber o que se está a fazer para evitar acidentes. 
A relação do cão com o homem é outra belíssima união que dá gosto observar no terreno. A cumplicidade e respeito entre os dois é digna de ser apreciada.

Experimentamos pegar numa caçadeira e, com a arma encostada ao ombro, fazemos mira para o infinito. O peso da arma é maior do que imaginámos mas, em breves segundos, nó, que nem somos caçadores, sentimos um instinto algo predador. Não um instinto de matar mas de respeito, de imersão num ritual que a Natureza atiça. De repente sentimo-nos no “Deer Hunter”. Mas mais um estrépito de um tiro quase nos ensurdece e caímos na realidade, entregando a caçadeira ao dono.
Gregária e monogâmica, a perdiz circula normalmente em bandos ou grupos de cinco ou seis, o casal de progenitores e a prole de perdigotos, uma vez que se trata de um animal gregário. Os recém-nascidos após umas escassas horas do nascimento iniciam uma vida ativa e permanecem em ninhada junto à mãe, em grupos ou bandos até à fase do acasalamento.

No início do ciclo reprodutivo os bandos desfazem-se, cabendo aos machos a seleção do território e a defesa, sendo normalmente a postura feita na primavera, por entre vegetação rasteira. Mas só no outono se caça. Existindo um pouco por todas as regiões do país, sobretudo zonas com parcelas de culturas agrícolas e mato denso, a par de ribeiros. Na parte norte da região alentejana pode ser vista com facilidade nas zonas de Alpalhão, na barragem da Póvoa e na serra de São Mamede e, por veze,s em Marvão. No Baixo Alentejo é particularmente comum nas zonas de Moura, Castro Verde e Mértola.
Nas estradas acontece, até, que se atravesse um bando delas à frente do carro. Por alguma razão, Mértola é conhecida como “capital nacional da caça”.
Para além da presença na Península Ibérica, surge ainda na França, no Norte de Itália e nalguns lugares de Inglaterra.

 

Silêncio que se vai caçar a perdiz

 

De nome científico “Electoris rufa hispânica”, a perdiz vermelha (já que a cinzenta, a “Perdix perdix”, praticamente se extinguiu do nosso território) reproduz um típico som, muito característico, que é música para os ouvidos dos caçadores.
Como prefere as zonas rurais e as de mato denso, com cursos de água nas imediações, sebes, muros, e caminhos, opta sobretudo por correr e esconder-se, provocando uma verdadeira corrida de gato e rato para quem caça. Exige também silêncio e cuidado no calcorrear do piso, pois qualquer barulho a assusta, podendo também voar para fugir, mas é um voo rápido e curto, usado em último recurso para fugir.

Opta, por isso, pelo mimetismo para se confundir com o meio ambiente, já que as cores bege e castanho, carmim e ocre se matizam muitas vezes na própria paisagem do outono e do inverno.
Mas como diz o provérbio, “quem caça cala”. Optamos pelo lugar de uma das portas e aqui usufrui-se do belo som do silêncio e imutabilidade, apenas quebrada pelo voo de um peneireiro. A solidão é compensada pelos odores do mato puro e a beleza da paisagem, numa amplitude infinita que só os sobreiros esculpidos no horizonte quebram.
O vento está a favor e falamos baixinho. De repente, sente-se uma chuva de chumbos depois do estrépito. A nossa linha de visão acompanha uma perdiz num voo rápido de fuga. Mas de pouco lhe valeu. Em segundos, o imponente cão braco alemão vai “cobrar” a caça e a perdiz aparece pendurada à cintura de um dos caçadores, ao lado de mais umas quantas. É estranho dizer isto, mas a morte pode ser bela.

Astúcia, silêncio e perspicácia são palavras de ordem quando se procura a perdiz. Surge nas áreas cerealíferas e matos, bem como na vinha. Isto porque prefere zonas pouco arborizadas se tiver que optar pelo voo de fuga, em direção a mato denso. Mas voam perto do solo depois de uma pequena corrida para ganhar fôlego. Podem ainda escolher esconder-se entre a vegetação ou trepar para pequenas árvores e arbustos de forma a defender-se dos predadores, como habitualmente da raposa.
Hoje em dia, com a diminuição das atividades agrícolas, têm menos o que comer e onde se esconder. Há, assim, menos animais. Por isso, há vários comedouros com cereais para se irem alimentando ao longo da herdade. Alimentam-se sobretudo de sementes e rebentos de plantas bravias e agrícolas, raízes, cereais ou insetos, algo que configura o sabor característico da carne. 

O sol já vai a pique e é hora de concluir a primeira volta, com mais uns apetitosos petiscos. Em boa hora porque percorrer a Natureza pura dá fome. E sede. As costelinhas de porco preto preparadas pelo sr. Joaquim e a mulher estão deliciosas e o vinho de talha também. São 11h e já vamos no segundo pequeno-almoço que mais parece, de novo, uma almoçarada.
Dezenas de perdizes vão já sendo penduradas na parede e, mais uma vez, a Natureza morta pode revestir-se de um quadro pictórico de grande magnanimidade. A plumagem, as patas hirtas, o bico vermelho não perdem a imensa aura de nobreza.

No intervalo para a segunda ronda, cada um conta os momentos de adrenalina mas poucos exibem os troféus de caça ou se vangloriam. O verdadeiro caçador não saca das glórias. O momento é, de novo, para relaxar e trocar impressões, mas não resistimos a mais umas costelinhas grelhadas e mais um copo de um tinto de talha, a bebida ideal para harmonizar com a Natureza e genuinidade.
No grupo, bastante policromático no que respeita a idades, profissões e carácter, descortinamos Manuel Bio (Encostas do Alqueva/Piteira e diretor da Adega Cooperativa Granja-Amareleja), outro aficionado da caça e sócio do grupo que também traz o vinho para partilhar. Porque nestas coisas de emoção, o vinho não pode faltar.
Mas a média de idades entre os caçadores é cada vez mais alta, já que de cerca de 300 mil caçadores registados, há cerca de uma década, existem hoje apenas 100 mil. Ou seja, há cada vez menos jovens entre os aficionados da caça, até porque era uma atividade passada de pais para filhos. O afastamento cada vez maior da agricultura e do campo tem contribuído para a diminuição de caçadores. 

 

Caçar com “amor e prazer”

 

A nossa paisagem venatória nasce de bosques, matas e florestas. Pode parecer um contrassenso, mas a Natureza, de facto, convida à caça.
Para o verdadeiro caçador, matar não é o que o move. Matar é apenas uma consequência do exercício que é a caça. Por isso, é visto fundamentalmente como um desporto. Mas, se aparentemente tem a ver com prazer, acaba, na origem, por se reger por algumas normas paramilitares.
Uma montaria acaba, por exemplo, por ser uma verdadeira operação pseudo-bélica. Desde a observação da mancha à proteção, a colocação de grupos de forma tática, a estratégia, a vozearia dos batedores e, claro, as armas. 

Bater uma mancha obriga a observar o amanhecer e o regresso dos animais aos esconderijos, os cursos de saídas e entradas.
Para montar caça, é necessário todo um desenho de estratégia no terreno, de facto quase paramilitar. É cuidadosamente estudada a colocação das armadas nos sopés e faldas, vales e ribeiros ou montanhas, mas tudo se faz no maior dos silêncios.
Para além de espingarda, munições e espírito de aventura há que ser perseverante e escutar a linguagem da terra-mãe, o latejar. Quanto aos cães de caça também há muito que se lhe diga: há os que caçam à vista e matam, os que buscam e matam e ainda os que buscam mas não matam.

Não esqueçamos que já na Idade Média a caça era uma atividade paramilitar que permitia, em tempo de paz, exercícios possíveis para a guerra. A caça era, sobretudo, um desporto para os privilegiados, daí existir uma hierarquia de caçadores. Enquanto que os reis, príncipes e fidalgos caçavam pelo desporto e prazer, e normalmente o faziam a cavalo ou com a ajuda de uma verdadeira comitiva, e muitas das vezes com a ajuda de falcões (volataria e altanaria), o povo fazia-o a pé e com o objetivo de matar para comer.
Os príncipes caçavam, assim, “com amor e prazer” na Idade Média, como homens de poder. A própria falcoaria e altanaria, a arte de caçar com um falcão no braço, era uma atitude símbolo de superioridade, dignidade e nobreza.

Numa caçada, o rei – lembremos que D. João I escreveu o “Livro de Montaria” e o “Livro de Ensinança de Bem Cavalgar a toda a Sela” é da autoria de D. Duarte – levava consigo o caçador-mor, o estribeiro, um pagem, o cavaleiro de lança, aqueles que transportavam a espingarda e besta, o homem de guarda e os moços de caça, a pé.
A caça era, aliás, apanágio de homens livres, uma espécie de divertimento e disciplina vigorosa, de exercício e treino na forma superior, exibindo qualidades como destreza, habilidade e prazer. Pouco mudou.

Tempos em que os ursos pululavam em Portugal, sobretudo aproveitando a orografia das Beiras e Trás-os-Montes. O urso, aliás, era a caça grossa que só o rei podia alcançar.
Apesar da literatura cinegética ser pouco abundante aconselhamos o livro “Oito Séculos de Caça em Portugal”, da autoria de Miguel Sanches de Baena e João Maria Bravo, bem como uma belíssima introdução de Jorge Roque de Pinho.

 

A importância da gestão cinegética

Preparamo-nos agora para a segunda volta, desta vez nas margens do Alqueva.
Debaixo de um sobreiro, observamos o espelho de água cinza azulado que reverbera no pico do sol da manhã. A seca severa tem tido como consequência a diminuição da caça. O baixo nível das águas do Alqueva não engana. Mais um dos motivos para ter atenção à gestão cinegética. A reaproximação com a Natureza e a gestão das espécies são princípios que este grupo de verdadeiros caçadores respeita.

Para além do som da passarada, o silêncio adensa-se, apenas entrecortado pelos tiros de caçadeira. Nuno Palhavã é agora nosso companheiro numa das “portas”.
Estamos numa espécie de fim de linha e a conversa vai rolando enquanto a cadela Diana, com nome de deusa caçadora, se diverte em momentos lúdicos próprios da idade. Está ainda a aprender e a dar os primeiros passos nestas andanças, mas a relação do cão com o caçador e o treino são determinantes.

A corrida célere de uma lebre corta-nos a conversa e ficamos a apreciar a saltitante beleza. Não se mata, porque há pouca, conforme afirma Nuno Palhavã, o proprietário da herdade.
“Nestas coisas de caça, há que ter muito bom senso e saber gerir muito bem as reservas cinegéticas. Infelizmente, há muita gente que não respeita isso e mancha a imagem do caçador”, condena.
O calendário aponta outono e inverno como o período indicado para a caça e a gestão cinegética é importante obviamente para proteger a espécie, até porque apenas cerca de 45% dos ninhos vingam. Por essa razão, a partir de 15 de dezembro entra-se no defeso e não se caça mais.

Os homens que andam na batida começam a surgir no cume do declive. No silêncio do vale, de repente, atravessa uma perdiz em voo picado e rápido. Nuno efetua uma volta de quase 180 graus e seguimos a ave com os olhos, achando ser impossível acertar. Mas o tiro de Nuno é certeiro, o voo proporcionou um bom lance e, numa fração de segundos, ela tomba, lá longe.
Mesmo com duas de conversa, a experiência mostra mesmo ser a mãe de todas as coisas. Diana cobra e, sem saber, fica com focinho de missão cumprida. Com a perdiz já na mão, sentimos pela primeira vez o frémito de um caçador. Mas também de um homem que respeita a Natureza.

A gestão cinegética é essencial para que não se produza pressão já que, para além da caça, os predadores como a raposa ou aves de rapina e mesmo javalis podem desequilibrar o ratio, neste momento de cerca de 0,1 a 0,2 perdizes por hectare em certas zonas mais povoadas. É que para além da destruição de ninhos por predadores, o próprio homem pode ajudar a decrescer as ninhadas através de atividades agrícolas de agricultores e pastores (máquinas agrícolas, perturbação causada pelos rebanhos), pelo que apenas 45% dos ovos acabam por vingar.
Nas zonas de regime livre, contudo, praticamente desapareceu e nas Zonas de Caça a população parece estar a aumentar devido à implementação de medidas de gestão e diminuição de perturbação dos animais. Por excesso de caça sem controlo, noutros tempos, e ainda devido a explorações agrícolas intensas, ocorreu o declínio desta emblemática espécie cinegética da Península Ibérica. Mas uma boa gestão da caça tem, ultimamente, permitido restabelecer as populações e a perdiz vermelha pode, assim, continuar a ser hoje caçada de forma sustentada, desde que as capturas sejam compensadas.

Este equilíbrio exibe o quanto a caça pode e deve ser uma atividade civilizada.
Quando falamos de caça falamos dela a sério e não das confrangedoras largadas de aves “de aviário” que hoje pululam o país, mas que são apenas exercícios desenxabidos. A gestão não racional das populações bravias tem contribuído para a diminuição, a par de repovoamentos pouco inteligentes que recorrem na maioria das vezes a animais de cativeiro com pouca qualidade, o que degenera em interferências genéticas pouco abonatórias para a espécie.

Mas, acima de tudo, a caça continua a ser hoje uma importante atividade económica que traz ação, desenvolvimento e gente ao Interior do país. Sem ela, muitas localidades alentejanas esmoreceriam.
No final da caçada, divide-se equitativamente as peças de perdiz, agora alinhadas junto à parede central desta espécie de pavilhão da caça em plena Herdade de Areias.

É hora do almoço, o momento tão esperado da manhã. Um belo cozido é partilhado pelo grupo com, mais uma vez, vinho da talha a regar as vitualhas que circulam numa mesa em forma de meia-lua, tal como uma linha de caça.

A conversa rola, animada, e o lado humano da caça mostra, de facto, ser a mais importante faceta. Uma espécie de ato cultural, de fusão com o ambiente e preservação, no respeito pelos ciclos da natureza, no prazer da união e do companheirismo.
Essa mesma atmosfera de fraternidade destaca-se nos rostos cansados mas felizes, nos brindes cúmplices e risadas fáceis que assim celebram a vida, a Natureza e a partilha de uma mesma paixão, mesmo que por ela tenham de palmilhar quilómetros. Como se costuma dizer: “Guerra, caça e amores: por um prazer, cem dores”.
 

Artigo publicado na edição nº 338, de Janeiro de 2018, da Revista de Vinhos.

Partilhar
Voltar