100 anos d. C. (depois de Constantino)

Fotografia: Ricardo Garrido
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Marc Barros

Marc Barros

Há 100 anos, Constantino de Almeida adquire a Quinta do Crasto e junta mais uma pérola à sua empresa de Vinho do Porto. Na atualidade, a família Roquette preserva e prossegue o seu legado, a inovar nos vinhos do Douro e Porto de excelência e com incursões no Novo Mundo (do Douro Superior). Sempre com um pé do outro lado do Atlântico.  

 

 

Há uma marca além-Atlântico que define e orienta o percurso da Quinta do Crasto. O Brasil é quase omnipresente nas últimas décadas da história, crescimento e definição da estratégia deste produtor duriense, pelo menos desde que, seis anos após o 25 de abril, Jorge Roquette regressa a Portugal com a esposa, Leonor, e os filhos, vindos do Rio de Janeiro. E se o seu irmão José Roquette (proprietário da Herdade do Esporão) volta igualmente para Portugal, outro dos irmãos, João, permanece no Brasil, onde funda, em 1995, a Qualimpor, importador e distribuidor dos vinhos da Quinta do Crasto em terras de Vera Cruz. E rapidamente se perceberá o papel que desempenhou e continua a desempenhar no peso que o mercado brasileiro detém nas vendas deste produtor duriense.
É Tomás Roquette, filho de Jorge e, em conjunto com o seu irmão Miguel, responsável pela gestão da empresa, quem nos conta: “O meu pai sempre teve uma grande paixão pelo Douro. Quando viemos do Brasil, comprou o Crasto ao resto da família tornando-se, com a minha mãe, proprietários da empresa”. Cumpre esclarecer que a quinta chega ao atual ramo de proprietários por via de Leonor, neta de Constantino d’Almeida (o mesmo do brandy cuja fama vinha de muito longe mas que tinha feito fortuna, pois claro, no Brasil…), que havia adquirido a quinta em 1918. Cem anos de Crasto, portanto, que se cumprem nas mãos da mesma família.
“Tudo nasceu com o Vinho do Porto e continuamos com essa tradição, mas percebemos, logo desde o início, que o potencial era enorme para os vinhos DOC Douro. Decidimos começar a investir em alguma tecnologia para vinificação e iniciamos esse projeto em 1994”, recorda Tomás. “Foi um desafio enorme porque a empresa era muito pequena, tinha que haver uma grande paixão por trás do negócio e fomos lentamente conquistando o nosso espaço. Aliás, na altura, tivemos um problema com o registo da marca e logo no início fomos obrigados a exportar 100% da produção. Se ainda hoje é um desafio exportar vinhos portugueses, há 25 anos atrás era ainda maior, sobretudo para uma empresa que estava a começar”. Mais uma vez, o Brasil a revelar-se decisivo para os fundamentos desta empresa.


Nesse primeiro ano foram lançados o Crasto DOC e o Reserva Vinhas Velhas 1994, no total de 32 mil garrafas, pela mão de um certo enólogo australiano, de seu nome David Baverstock (por curiosidade, este Reserva durou bastante mais do que os 10 anos de guarda então recomendados no seu contrarrótulo, como pudemos atestar durante a prova…). “Tínhamos também Vinho do Porto produzido pelo meu bisavô que foi muito importante para abrir portas”, assegura Tomás. “Apresentávamo-nos como produtores de Vinhos do Porto mas dizíamos: “Já agora dê-nos mais cinco minutos para lhe dar a conhecer estes vinhos de mesa que são também muito bons.” E a verdade é que vendemos hoje 1,4 milhões de garrafas”, resumiu. Para os seus proprietários, o Crasto “nunca foi um projeto de volume, mas os mercados foram surgindo, sempre a querer comprar mais, o que nos colocou uma pressão positiva”. Essa pressão obrigou a empresa a crescer, a investir no aumento da capacidade de produção e vinificação. “Hoje somos cerca de 60 pessoas a trabalhar no grupo, incluindo o pessoal da vinha. Estamos hoje em mais de 50 mercados a nível mundial - entre os quais o Brasil tem um peso especial - sempre posicionados no segmento premium”.
O investimento contínuo dos proprietários do Crasto é um tema caro a Tomás Roquette. Para além da plantação ou reconversão de vinha, o enoturismo é já um alvo central de futuras decisões de investimento, incluindo a oferta de uma unidade de alojamento. Porém, a prioridade atual é a conclusão da requalificação da adega e dos lagares, avaliada em meio milhão de euros. O objetivo é expandir a área de vinificação mas, também, oferecer um espaço amplo que se preste à realização de eventos de grande dimensão. Por seu lado, o investimento em barricas é constante, sendo que o Crasto possui uma cave com 2600 barricas, a que se juntam 900 numa unidade de armazenamento em Sabrosa. E não deixa de causar espanto o engenhoso sistema de bâttonage por rolamentos instalado na cave, que permite que as barricas sejam totalmente reviradas sem necessidade de esforço físico de monta nem entrada adicional de oxigénio. E, todos os anos, são investidos cerca de 300 mil euros em novas barricas. 

Vinhos únicos de vinhas únicas

Hoje com mais de 130 hectares, dos quais cerca de 80 são ocupados com vinha, a que se juntam 30 hectares arrendados ou de gestão própria, a Quinta do Crasto assumiu uma dimensão bastante maior daquela que tinha quando Jorge Roquette tomou conta dos 20 hectares que então formavam a propriedade. E continua a crescer. Há cerca de dois anos foram plantados oito hectares de vinha para brancos, a 550 metros de altitude, que deverá entrar em plena produção no próximo ano, estima Tomás. Entre este ponto mais alto da quinta e a cota onde está localizada a casa que agora ocupa o que foi o Castrum romano (que empresta o seu nome à quinta) a diferença de amplitude térmica média pode chegar aos 7ºC. 
Observar desse ponto o rendilhado de vinhas com orientações, diferentes sistemas de condução e implantação das vides é mais do que um exercício de viticultura – é um quadro em múltiplos tons, cujas cores vivem e vibram em função da altura do ano. A partir da cota de 450 metros de altitude, onde termina a zona dos tintos, “vemos o potencial e as valias do Douro, com as diversas tipologias de vinha”, explica o enólogo Manuel Lobo de Vasconcelos. Desde logo, a emblemática Vinha Maria Teresa, com os seus muros antigos, caracterizada pela exposição nascente: “Cerca de metade da vinha é mais sombreada e recebe menos horas de sol que a outra metade”, assinala. “Tudo isto se reflete na maturação das uvas; num ano quente esta vinha está mais salvaguardada e fresca do que uma vinha com exposição poente”, como é o caso da Vinha da Capela, plantada ao alto quase a chegar ao rio, que “funciona melhor num ano mais fresco”. “Temos também zonas de maior inclinação, com patamares de dois bardos”, resume Manuel Lobo. A isto o enólogo chama “o puzzle do Douro”, com “altitudes, exposições e terroirs diferentes, atravessados por várias linhas de água”, conjunto que confere “enorme complexidade” ao terroir. Para o enólogo é “um prazer poder trabalhar todas estas peças, de forma diferente, todos os anos”. O grande desafio, considera, “passa por conhecer bem as nossas vinhas e a realidade da nossa viticultura”. Pois todos estes elementos “originam vinhos completamente diferentes e cada vinha tem a sua identidade própria”.


Veja-se a Vinha Maria Teresa. São 4,7 hectares, com 49 castas identificadas, num conjunto de 29 mil pés de vinha que são alvo de um estudo de georreferenciação. Ou seja, “sabemos o que cada tem cada pé de vinha”. Mais abaixo está “o nosso campo de multiplicação, onde temos os genótipos das 49 videiras identificadas em multiplicação; quando morre uma videira asseguramos, por georreferenciação, que esta é replantada exatamente no mesmo sítio, com o mesmo genótipo”, resume o enólogo. O objetivo? “Manter o mapa genético desta vinha, que tem uma identidade e carácter únicos”. Em anos excecionais, sai daqui o Crasto Vinha Maria Teresa; por norma, estas uvas integram o lote do Vinhas Velhas Reserva.
Tal como as uvas da Vinha da Ponte, com os seus 1,96 hectares, esta orientada a sul, com mais de 30 variedades misturadas. Também daqui, quando o ano assim o dita, sai o exclusivo Vinha da Ponte. Vinhos únicos, feitos para dar prazer, mas também para durar, como comprovámos na prova de algumas estrelas de outrora, os primeiros exemplares de cada uma das respetivas referências: Crasto Superior 2007; Tinta Roriz 1997; Reserva Vinhas Velhas 1994 e LBV 1994.

Um Novo Douro

No Crasto, portanto, orientações e sistemas de condução diferentes. É, podemos dizer, um Velho Douro, em que vinhas com mais de 100 anos conjugam-se com a plantação recente de brancos, segundo os sistemas modernos de condução. “Em toda a área envolvente, temos ainda mais de 2500 oliveiras, tipicamente uma cultura de bordadura”, explica Tomás Roquette. Mas no Douro também há um Novo Mundo. No caso do Crasto, chama-se Quinta da Cabreira. Jorge Roquette enamora-se pelo Douro Superior e, desde 2000, começa a adquirir propriedades em Castelo Melhor. “O nosso projeto na Cabreira é mais recente e aí só temos um único tipo de viticultura e instalação da vinha”, resume Tomás, que justifica a compra no Douro Superior “com a necessidade de crescer dado o volume de procura. Tínhamos três hipóteses: expandir a área de vinha para sermos autossuficientes; manter a vinha e comprar mais uva; ou comprar mais vinho. Já sabíamos que, para o nosso nível de exigência, era fundamental controlar a matéria-prima; isso ficou logo evidente no início do projeto, pois as uvas granjeadas por nós tinham qualidade garantida”. Foi assim decidido, numa perspetiva de longo prazo, canalizar grande parte do investimento dos últimos 15 anos para a extensão da área de vinha.


É nesse cenário que surge o projeto do Douro Superior. “É uma região fantástica, a maior em dimensão mas com a menor área de vinha do Douro. Com a ajuda da rega percebemos que era possível encontrar um equilíbrio ótimo e produzir boas uvas. Iniciamos o projeto no ano 2000, que hoje conta com 114 hectares de vinha, 2,3 quilómetros de margem de rio, e a garantia que todos os anos temos cerca de 500 toneladas de uva de excelente qualidade”.
Destacam-se, no caso das variedades brancas, Rabigato, Viosinho e Verdelho plantadas a maior altitude (entre os 400 e os 450 metros), e, nos tintos, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca, Sousão, Tinta Barroca e Tinta Francisca. Neste Novo Mundo também há lugar para experimentação, com a plantação das castas Syrah e Alicante Bouschet, coadjuvados por um sistema de rega gota a gota que faz frente ao clima árido, o qual, em certos anos, dispensa mesmo a utilização da rega. À vinha juntam-se 5000 oliveiras cuja produção, aliada à das 2600 árvores do Crasto, fornecem a matéria-prima para mais de 50 mil garrafas de azeite. O bisavô Constantino haveria de ficar satisfeito… 
 


 

Um museu vivo

Os marcos do passado persistem em toda a Quinta do Crasto e contam a história da própria região. Desde os mortórios que hoje ocupam o que há 300 anos atrás eram vinhas, dizimadas pela filoxera; aos metros cúbicos de muros seculares que foram construídos à mão (havendo quem diga que representou na região um trabalho maior do que a construção da Grande Muralha da China), passando pelo marco pombalino datado de 1758 que o Crasto guarda, ou mesmo pelo lagar romano que comprova a cultura da vinha na propriedade desde pelo menos 300 d.C, é todo um museu vivo que a propriedade encerra.
Museu esse que terá os pilheiros entre os protagonistas. Numa extensa área do Crasto persistem muros pré-filoxéricos que sobressaem pela presença de pilheiros. Estes não são mais do que buracos nos muros que sustêm os socalcos onde outrora a cultura dominante era o cereal. “Era uma região muito pobre, onde se dava prioridade à plantação de cereal, pois tratava-se de um bem de primeira necessidade. A vinha era plantada nesses buracos; daí o nome pilheiro, de pilhar, pois a vinha roubava espaço ao cereal”, explica Tomás. Este sistema engenhoso permite ainda o escoamento de água e a prevenção da erosão dos solos. A intenção do Crasto passa por “recuperar esta área e cultivar cereal”, com vista a “ter um museu vivo da região”.

Uma pedra rolante no Crasto

O enoturismo é uma atividade em franca progressão no Douro e, como não poderia deixar de ser, também a é no Crasto. “Começamos a sentir, há cerca de sete anos atrás, mais pessoas a circular na região. E estávamos a ter cada vez mais solicitações. Como não tínhamos nenhuma estrutura sofríamos alterações repentinas da agenda para acompanhar os visitantes. Decidimos contratar uma pessoa para estar dedicada a isso e receber bem. Hoje temos uma equipa de nove pessoas para este segmento”, resume Tomás Roquette.
A Quinta do Crasto recebe anualmente mais de 4500 visitantes, a grande maioria oriunda do Brasil e de países europeus. Entre os visitantes notáveis contam-se o guitarrista dos Rolling Stones, Ron Wood, ou Harrison Ford (que, ao que parece, desmarcou a sua agenda para poder desfrutar da quietude do Crasto durante mais alguns dias). A piscina de Souto Moura continua a marcar o cenário – a qual, diga-se, tem aquela famosa perspetiva pelo facto de ter uma forma de trapézio e não retângulo perfeito. Ilusão de ótica…
E se o enoturismo representa 4% da faturação, a sua importância é muito superior: “Trata-se de uma excelente oportunidade para criarmos ‘goodwill’ à volta da marca pois, ao proporcionarmos experiências únicas, obtemos um grande efeito na divulgação do Crasto”. A procura “disparou nos últimos três anos, como uma expansão natural do que aconteceu no Porto”, estima Tomás Roquette. “Não temos hoje época baixa, nunca tivemos meses de janeiro e fevereiro como este ano. Isso é muito positivo e uma enorme responsabilidade”. Que irá motivar novas aventuras, entre as quais a criação de uma unidade de alojamento, cujos contornos não estão ainda definidos, mas resultará num investimento sempre superior a um milhão de euros.
 

Quinta do Crasto 
Gouvinhas
5060-063 Sabrosa
T. 254920020
M. 934920024
E. enoturismo@quintadocrasto.pt

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