Biodiversidade no vinho por mãos de artista

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Manuel Moreira

Manuel Moreira

Dada a sua dimensão (18 mil hectares), a Companhia das Lezírias constitui-se como a maior herdade e uma das maiores empresas agrícolas do país, na qual o viajante se embrenha ao circular pelos concelhos de Benavente, Vila Franca de Xira e Salvaterra de Magos. Celebra 182 anos sendo que, entre as inúmeras culturas agrícolas que compõem a sua atividade, a vitivinicultura é hoje a que confere maior notoriedade ao projeto e uma das suas maiores fontes de receita. Sublinhe-se que, em termos de gestão, após 1975, ano em que foi nacionalizada, a companhia passou por períodos menos bons. Hoje em dia, desde há vários anos a esta parte, a exploração é rentável, aumentando lucros a cada ano sucessivamente.


As primeiras vinhas foram instaladas na charneca de Catapereiro, entre Samora Correia e Alcochete, em 1881. Chegaram a perfazer uma área de 400 hectares em 1934. Entretanto as vinhas foram sendo reestruturadas até aos atuais 140 hectares, que hoje continuam objeto de contínuas benfeitorias e reorganização da estrutura do encepamento, assim como alvo de processos que visam boas práticas de gestão, eficiência, consciência ambiental e aumento da qualidade do produto final. 
Castas como Trincadeira das Pratas e até o Moscatel Galego são apostas na procura de fazer bem e diferente. Menos sorte teve o Alicante Bouschet de uma das parcelas mais antigas neste ano de 2018, já que um incêndio vindo das suas imediações transformou uma parte desta venerável vinha numa dantesca visão, qual desolador cemitério. De recordar que são destas vinhas que se produz o topo de gama Companhia das Lezírias 1836 Grande Reserva. 

Vinha em terroir de encruzilhada 

Pela localização da vinha os vinhos produzidos são certificados como Tejo; no entanto, o seu posicionamento faz limite com a Península de Setúbal, a sul, somente separada por uma franja de floresta, bem como Lisboa, separada apenas pelo Mar da Palha, a Oeste, na qual a vinha sofre a influência da proximidade do rio, a cerca de 2 km, assim como do Atlântico, a poucas dezenas de quilómetros de distância. O Alentejo também está próximo, a cerca de 42 quilómetros em linha reta até Vendas Novas, num eixo que passa pelos arredores de Pegões. É nesta encruzilhada que se situa a vinha das Lezírias, sofrendo várias influências climáticas, afetada pela massa de água do rio e planura topográfica. Enfrenta um clima bastante seco, com as temperaturas médias em período de maturação - Julho, Agosto e Setembro -, a rondarem os 22ºC. Contudo, a amplitude térmica nesses meses, entre o dia e noite, atinge a média de 10ºC (27ºC-17ºC), o que favorece o equilíbrio nas maturações. 
Os solos pobres, de areia, possuem variados cambiantes que se percebem até pelas tonalidades nas parcelas, tendo levado a um trabalho de zonagem que permite explorar as particularidades individuais das várias zonas, assim como maior eficácia na gestão agrícola. Condições favoráveis à prática de produção em regime biológico, no qual a floresta circundante contribui para o efeito de terroir, seja no contributo de certos sabores, com sugestões a eucalipto, seja na preservação da biodiversidade.


É com estas condições desafiantes que Bernardo Cabral, o enólogo que desde 2012, tem explorado o potencial destas vinhas. A administração e o enólogo encetaram uma bem-sucedida reestruturação da oferta vinícola da empresa, da qual nasceu, numa primeira fase, o projeto Tyto Alba, a concretizar um conceito que tira partido das boas práticas agrícolas e ambientais. Este projeto deriva do nome científico da coruja das torres, que habita na propriedade e que tem um papel fundamental na manutenção do equilíbrio do ecossistema nas vinhas, pois ajuda a manter a propriedade livre de ratos e outras pragas; através do conceito Vinhas Protegidas sai reforçada a ideia de equilíbrio e sustentabilidade, assim como respeito pelos habitats naturais. Essa forte mensagem é sustentada numa renovada abordagem qualitativa dos vinhos, embrulhada num design marcante da responsabilidade da reputada Rita Rivotti, já distinguido com uma Medalha de Prata nos Pentawards, prémios considerados os óscares do design criativo de embalagens. A gama Tyto Alba arrancou em versão branco e tinto, a que se juntaram as versões rosé, Touriga Nacional, Castelão estagiado em barro (demijons de barro) e ainda um vinho de Moscatel Galego, num reflexo da aposta nas castas nacionais. A oferta de marcas foi reformulada, sustentada em três níveis: a Herdade de Catapereiro é a gama de base, aludindo à propriedade onde está a vinha, Tyto Alba na gama média, e o topo de gama 1836 Grande Reserva, que faz referência ao ano da fundação da Companhia das Lezírias, feito a partir das vinhas velhas da propriedade. 

Distinção e frescura dos vinhos

No que respeita aos vinhos, sobressai a frescura como matriz transversal a todas as gamas. Bernardo Cabral procura tirar partido das condições naturais da propriedade e fazê-las refletir nos vinhos. Essa conjugação é aprimorada através da zonagem, gestão produtiva, planeamento de vindima e filosofia de vinificação. Sente-se esse cuidado ao fazer uma ronda pela renovada adega, provando amostras de cubas, sendo que, aquando da nossa data da visita, houve a possibilidade de provar vários vinhos brancos e bases de espumante. Impressionam mesmo em fase de fermentação pela frescura, tensão e precisão, dando razão a Bernardo Cabral ao afirmar que os vinhos brancos de 2018 são excelentes. 
Destaque ao trabalho que o enólogo está a realizar com a casta Fernão Pires, emblemática na região, pois desde 2015 vai ensaiando vinificações especiais com a casta em edições quase residuais, integrados na gama 1836 Grande Reserva, nas quais procura explorar novos caminhos para a casta. Notável o 2015, com 11,9% de álcool e mais de 6 gr/l de acidez, do qual fez uma barrica; o 2016 segue os mesmos passos, mas em duas barricas, tirando partido do conhecimento adquirido e das características da propriedade. O 2018 promete igualmente. 


Outro vinho exemplar é o Castelão. Casta bem representativa do encepamento da Companhia, este vinho feito a partir das melhores uvas de uma vinha velha, fermentou com leveduras indígenas em maceração durante três dias, tendo acabado a fermentação em cuba inox sem contacto com as massas. O estágio aconteceu em pequenas ânforas de barro (140 litros cada) durante 12 meses. Inserido na gama Tyto Alba e com o designativo Castelão Estagiado em Barro, este vinho de 2016 apresenta uma frescura e finesse brilhantes. 
O Tyto Alba Touriga Nacional 2014 mais uma vez demonstra a vivacidade e perfil de frescura. Expressivo nos aromas florais e bagas silvestres que, apesar de maduras, retêm elegância, a recordar regiões mais a norte. Taninos sofisticados, muito bem extraídos, provenientes de vinificação em lagar de inox; estagiado 12 meses em barricas de carvalho francês e americano, 30% novas.


O Tyto Alba Rosé 2017 surge a partir de vinhas velhas da casta Touriga Nacional e Merlot e fermentou e estagiou com battonnage durante três meses em barricas de carvalho francês com cinco anos. Mostra perfil sério, muito rico, sofisticado e contemporâneo. Já o Tyto Alba Moscatel Galego 2017 apresenta-se quase como que uma provocação no uso da casta, ao estar tão próxima do território de Moscatel de Setúbal; fermentou com leveduras indígenas e estagiou em cuba de inox, onde ficou sobre as borras finas durante seis meses, pelo que expressa essa vertente de inovação da Companhia das Lezírias, num estilo vibrante, tenso, austero e repleto de carácter.
Voltámos a provar o espumante 1836 Companhia das Lezírias 2015 Extra Brut, feito à base de Arinto, de vinhas com 22 anos, em que o vinho base fermentou 30% em barricas de 300 litros. O dégorgement foi feito em Junho de 2017 e manteve-se mais de um ano de garrafa, o que contribui para o charme e complexidade brilhantes, suportado pela crocante acidez cítrica. A base de espumante de 2018, em cuba e barrica, promete, tendo o 2015 como referência. O brilho no olhar de Bernardo Cabral é indesmentível dessa expectativa. 


Todos estes vinhos mostram um perfil “Tejo” moderno, inquieto, experimental, mostrando à evidência que a eficácia da gestão também pode rimar com qualidade e identidade. Essa valorização do negócio vinícola na empresa é hoje também suportada por uma estrutura de enoturismo mais profissional e dedicada, com uma renovada loja de venda ao público, a funcionar em permanência, com programas específicos, que já contam com 500 experiências de vindima e mais de cinco mil provas de vinho. Também inaugurada em Setembro de 2018, a cave de estágio de barricas, onde anteriormente existia um barracão, é um ‘must see’. A Companhia das Lezírias apoia ainda projetos de investigação científica, levados a cabo em parceria com as universidades de Lisboa, Porto e Évora, o que a coloca na vanguarda da experimentação de equipamentos e operações que poderão trazer mais-valias ao sector. Na Companhia das Lezírias, o vinho assume papel de embaixador pela qualidade, pelos conceitos, pela investigação, inovação, na aliança entre práticas de gestão e respeito pela natureza.

Trabalho originalmente publicado na edição nº 347 da Revista de Vinhos (Outubro de 2018).

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