'Bota Velha' é a mais recente marca de vinho do Douro

Fotografia: Fotos D.R.
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Redação

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Com quase 30 anos de carreira João Silva e Sousa lança os primeiros vinhos a solo, Bota Velha. Montou uma adega na Penajoia em final de Julho de 2017 e contactou produtores de uvas no Douro Superior e Cima-Corgo, seus conhecidos de sempre, que o apoiaram neste seu novo projecto. As produções são de pequena dimensão. Bota Velha Vinhas Antigas, entre três mil branco e oito mil garrafas tinto e Botas Velha Colheita cerca de 10 mil garrafas de branco e 25 mil tinto. O 'diário de bordo' é na primeira pessoa sobre a primeira vindima.


 
"Douro 2017. Ano de seca e calor. Ano de recomeço. Cá vou eu. O Miguel Grijó e o Stephane Perrin decidem visitar-me durante a vindima. Queriam saber o que ia fazer e aproveitavam para ver vinhas e a vinificação de brancos e tintos. Venham, mas tragam botas e roupa velha. Vão precisar. Andámos pelo Douro Superior e pelo Cima Corgo. Vimos o que as vinhas novas sofreram e o que as vinhas velhas resistiram. Muitos anos de colonização radicular fazem a diferença. As botas cheias do pó fino do Douro que se vai juntando no sobe e desce dos vinhedos. As canções das mulheres que cortam os cachos e a sede que nunca nos larga. Vamos acompanhar o transporte das caixas até à adega e começar a fazer vinho. Do rio Torto até à Penajoia fazemos uma das mais bonitas estradas do planeta. 30 anos depois ainda me surpreendo com a beleza que acompanha a viagem do rio Douro. A história da vinha e do vinho também flui; os mortórios pré-filoxera, os muros altos de pedra arrumada feitos por galegos fugidos da Galiza durante a fome da última metade do século 19, as quintas da Dona Antónia e a única quinta do Barão de Forrester, os patamares iniciados nos anos 60 do século passado, as vinhas ao alto dos anos 80.

Chegámos à adega com o vento quente que sempre sobe o Douro ao fim da tarde. Pesar e descarregar as caixas, preparar desengaçador-esmagador, ligar bombas e mangueiras, sobe cuba, desce cuba, fecha válvula, abre válvula, liga grupo de frio, verifica isto e aquilo e depois mais aquilo e isto. Siga. Fogo à peça. As caixas viradas e os cachos a desprenderem os bagos que serão esmagados. Quantas castas aqui estão? Os cachos são todos diferentes. Tinta Amarela, Mourisco Tinto, Rufete, Tinta da Barca, Malvasia Preta, Touriga Franca. Sr Carlos, venha cá por favor, que casta é esta? É Tinta Carvalha. É uma casta dos antigos, hoje já ninguém planta isto. Cuba cheia, tara feita, 9250 quilos, 3,24 hectares de vinha vindimada, menos de 3 toneladas por hectare. Como competir com seja lá que região do país ou do mundo? Jantar à pressa. Miguel e Stephane, são alérgicos a aranhas? Não? Vamos lavar caixas. Água até ao pescoço, 2 horas e as quase quinhentas caixas nunca mais acabam. Lavar bomba, mangueiras, desengaçador-esmagador. Provar pela primeira vez o mosto por fermentar. Rosado, fruta intensa, doce, denso, boa acidez, bom corpo, 14% álcool provável, equilíbrio.

João, gastas as botas à procura destas vinhas e na adega, que tal fazermos uma marca chamada Bota Velha? Vamos a isso."

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