Cerveja Loba: bairrista e de personalidade forte

Fotografia: Fotos D.R.
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Luís Alves

Luís Alves

Nascida no Porto, eis a mais recente cerveja artesanal. Com uma imagem forte e criada entre dois parceiros do setor, a Loba apresenta um portefólio de três cervejas e uma imagem marcadamente bairrista, portuense, que aponta a públicos diversos.

 

O fim de tarde na Baixa do Porto é quente. A primavera tardia faz-se agora sentir, no início da segunda metade de abril. Nos passeios, junto aos Clérigos, as mesas das esplanadas têm invariavelmente uma bebida fresca no centro. A escolha de quem frui as primeiras temperaturas altas da estação recai, muitas vezes, por uma cerveja. Mas que cerveja? De produção industrial ou as mais ‘trendy’? As artesanais? A pergunta tem especial importância. Ali, pela Baixa, no Plano B, está para ser apresentada a mais jovem cerveja artesanal do Porto. À porta do espaço, percebemos que se concentra uma pequena ‘alcateia’ de pessoas com a imagem de marca timbrada nas t-shirts: num fundo escuro, um lobo em tons de azul olha-nos de frente.


Jaime Freitas, diretor geral da Hoppy House – empresa ligada à produção de cervejas e uma das parceiras neste projeto - rapidamente desfaz as dúvidas que pudessem surgir na associação entre um lobo e uma cerveja: “Sabemos que o lobo é um animal territorial, com muita personalidade. E esta é uma cerveja do Porto. Onde as pessoas são bairristas, com uma personalidade forte”.
Esclarecidos quanto à associação mas ainda em dúvida quanto ao género. Loba e não lobo? “Apesar deste traço forte de personalidade, a delicadeza mantém-se e o trato de simpatia que devemos a esta cerveja deve ser um imperativo. Daí o feminino do nome. Terminada a dissecação ao nome e ao processo criativo que lhe esteve na origem, avancemos para a cerveja propriamente dita, a razão da Revista De Vinhos estar cá.

 

Outra cerveja artesanal?


A pergunta não pode ser incómoda, mesmo que a conversa seja com o criador da cerveja. Feitas as contas, surgiram num curto espaço de tempo 60 cervejeiras e mais de 130 marcas em Portugal. Jaime Freitas é o primeiro a reconhecer e não se ofende com a pergunta. “Enquanto estamos aqui a falar, de certeza que já nasceu outra cerveja, que ainda não conhecemos”. E o problema adensa-se quando o nascimento de todo este conjunto de bebidas não é acompanhado por bons canais de distribuição e um défice de consistência entre lotes de produção. 

“Queremos fazer diferente e conhecemos bem o mercado. A Loba nasce de uma parceria entre a Hoppy House e a Post Scriptum, que a produz. Não queremos ser mais uma e não acreditamos que o mercado das cervejas artesanais seja uma moda”. O exemplo americano parece ser a grande inspiração. Por lá, e ao longo de 20 anos, as cervejas artesanais passaram de uma representação de 5% de mercado para 20%. E na Europa começa a acontecer o mesmo, com o Reino Unido à cabeça, seguido por França, Espanha e Itália, por exemplo. Apesar do ruído em Portugal à volta deste mercado, a tendência parece ser de crescimento e a Loba nasce embebida nessa esperança.

 

Para já, são três as Lobas

O portefólio da Loba arranca já com três cervejas diferentes. A ‘Oat Pale Ale’, a ‘Session IPA’ e a ‘Rye Red Ale’. Diferenças entre elas? As percentagens de álcool - que apesar de serem baixas nas três, são mais baixas na ‘Session IPA’, com apenas 4% -, as cores, os aromas, os processos de fabrico e sobretudo o nível de amargor, medido em IBU. A ‘Oat Pale Ale’ tem 30 IBU, o ‘Session IPA’ tem 50, e a ‘Rye Red Ale’ apenas 25.

Sabemos que o mercado de cervejas em Portugal é tendencialmente avesso a grandes níveis de amargor. Como digerir então a ‘Session IPA’, com 50 IBU? “Vai ser para lá que o mercado se vai encaminhar. Pode demorar mas as cervejas amargas vão ganhar mercado”, assegura Jaime Freitas.
Não é sobre o mercado que a discussão se alarga a Pedro Sousa, o mestre cervejeiro e produtor da Loba na Post Scriptum, empresa responsável pela produção das cervejas. É sobretudo sobre a feitura da cerveja que a conversa flui, enquanto provamos a ‘Oat Pale Ale’ e nos questionamos de onde vem aquele sabor tão conhecido. “É cítrico”, atira Pedro, que começou a fazer cervejas aos 14 anos por brincadeira e que nos últimos tempos tem sido um participante ativo no aumento do ritmo de produção destas bebidas. Sobre a Loba, identifica-lhe alguns traços que lhe poderão trazer sucesso. A facilidade no consumo, mesmo na versão mais amarga, o traço nacional e também portuense, a sua potencial popularidade.

“Não fizemos uma cerveja para ganhar concursos internacionais. Ou para um público de elite. Fizemo-la, sobretudo, para ser popular, para ser bebida por um público que está a escrever numa folha em branco e que vê na Loba a verdadeira democratização das cervejas, pela sua abertura”, explica Pedro Sousa, enquanto vemos a porta do Plano B a abrir com mais frequência e a deixar entrar naquele final de tarde umas dezenas de curiosos em descobrir a novidade cervejeira.

 

Antes a cabeça do galo do que o rabo do boi

Por mais sucesso que a Loba possa granjear, a artesanalidade é para manter. Garantia de Pedro Sousa que aposta “num jogo bem jogado dentro daquilo que é a nossa liga”. E a liga de que fala começou com pequenos lotes experimentais de 30 litros e foi evoluindo para quantidades de maior monta, até chegar às três receitas finais que compõem o portefólio da Loba. Sempre numa lógica diferente das cervejas industriais. O uso de 100% malte de cevada, os lúpulos que vêm em extrato, ainda em formato vegetal, a dispensa de filtração ou a não introdução de glucose ou milho são traços que dão o carácter artesanal da cerveja.

A produção da Loba, como de outras cervejas, faz-se na Trofa, na fábrica da Post Scriptum. Ao todo, são 38 marcas que lá são produzidas. No caso da Loba, entre o início de criação de um novo lote e a sua preparação final para estar pronta a engarrafar vão cerca de três semanas. Clarificação incluída, que acontece naturalmente e sem recurso a filtração. A capacidade produtiva está assegurada e mesmo que a recetividade supere as melhores expectativas, a Loba chegará sempre aos destinos: “Temos na fábrica um ritmo pesado. Mas não faltarão ‘Lobas’ pelo país se essa for a vontade dos consumidores. Dá-nos um gozo tremendo produzir cerveja”, confessa Pedro.
No espaço que deu palco à apresentação da cerveja, as Lobas estavam já na mão de todos e a discussão cervejeira continuou ao som da banda portuense Fugly.

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