GRAN CRUZ - 130 anos, uma dimensão ainda maior 

Fotografia: Ricardo Garrido
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Luís Costa

Luís Costa

A Gran Cruz tem estado a comemorar 130 anos. Sozinha, corresponde a 30% do setor do Vinho do Porto e a 70% do setor do Vinho Madeira. Tudo é grande, tal como sugere o nome do próprio grupo, com uma faturação anual consolidada de 90 milhões de euros e 30 milhões de garrafas de Vinho do Porto vendidas anualmente.

 

 

O terraço do edifício Porto Cruz no cais de Vila Nova Gaia, com uma vista deslumbrante de 360 graus sobre as duas margens do Douro, é uma espécie de metáfora do que significa hoje a marca líder na exportação de Vinho de Porto – pelo alcance do olhar, pela dimensão, pela ousadia, mas também pela capacidade de inovar. Todavia, é um pouco mais acima na colina que preenche a margem esquerda do Douro, quando começamos a abandonar a zona histórica onde se localizam as caves, que se percebe a real dimensão do grupo Gran Cruz.


É aí que fica o centro nevrálgico de um grupo que integra sete empresas de Vinho do Porto, Madeira e Douro – com notório destaque para a marca Porto Cruz – que fatura anualmente qualquer coisa como 70 milhões de euros e faz parte do universo da Martiniquaise, grupo francês de raiz familiar que figura no top 10 do comércio mundial de bebidas alcoólicas.


Aqui tudo é grande, tal como sugere o nome do próprio grupo, com uma faturação anual consolidada de 90 milhões de euros e 30 milhões de garrafas de Vinho do Porto vendidas anualmente. Dito de outro modo: sozinha, a Gran Cruz corresponde a 30% do setor do Vinho do Porto e a 70% do setor do Vinho Madeira.


Pois é. Aqui tudo é grande. Logo à entrada do edifício principal da Gran Cruz, um pouco acima da estação ferroviária das Devesas, os diversos camiões TIR estacionados na rua são prenúncio da atividade fervilhante que se desenrola no interior, mais concretamente no armazém de exportação da empresa. Neste enorme armazém, três modernas linhas de engarrafamento debitam as garrafas que no final do dia irão totalizar 6 a 8 contentores, consoante a média diária de produção.


Nas instalações da Gran Cruz somos recebidos por Jorge Dias, CEO da empresa, que nos dá uma visão sumária do ritmo que marca o dia a dia da empresa líder do mercado do Vinho do Porto: “Neste armazém da exportação, até às 10h é a chegada dos ´secos´ (das caixas, das garrafas, etc.) e só depois dessa hora é que começamos a expedir, uma média de 6 a 8 contentores correspondentes a 150.000 garrafas de engarrafamento diário. Mas temos aqui um ´tampão´para 15 dias e para mais duas semanas no armazém de Paris, isto é, temos um pulmão de um mês para acautelar alguma catástrofe nas linhas de engarrafamento. Ao ritmo a que expedimos tem de ser mesmo assim, não podemos correr riscos”.


Se o armazém de expedição da Gran Cruz já impressiona, que dizer do passo seguinte da nossa visita, quando entramos na zona das cubas em inox. São estruturas imensas, enormes, com uma altura que faz doer o pescoço só de olhar para elas. Ninguém diria que estamos no centro da cidade de Vila Nova de Gaia, neste parque de cubas gigantescas que albergam, no total, 10 milhões de litros de vinho. Jorge Dias explica-nos o que vemos mais em pormenor: “Cada cuba destas tem 350.000 litros. As mais pequenas, logo à entrada do armazém, têm a capacidade de um camião cisterna. É nessas cubas que ficam os vinhos quando chegam do Douro, num período de quarentena, porque os vinhos não entram diretamente para o stock. Só depois de analisados e aprovados pelo nosso laboratório”.


Mas este armazém impressionante é apenas um dos elementos estruturais do imenso “puzzle” logístico da Gran Cruz em Vila Nova de Gaia. Na verdade, há mais nove armazéns para além deste, todos eles ligados por tubagem fixa, numa espécie de rede de “pipelines” com arrastador de ar comprimido para evitar que se percam na tubagem centenas de litros de vinho. E, a ligar tudo isto – ou seja, vinhos mais jovens nas cubas de inox; vinhos mais exigentes que estagiam nos balseiros; e vinhos especiais, as “joias da coroa” da Gran Cruz, que repousam em pipas – há vários túneis no subsolo que se espalham por cinco quarteirões.

 

É uma capacidade de armazenamento de 55 milhões de litros em Vila Nova de Gaia, a que deve juntar-se um “stock” de mais 25 milhões no moderno centro de vinificação de Alijó. São os efeitos em larga escala da chamada “lei do terço”, que obriga as empresas do setor a terem um “sotck” equivalente a um terço da capacidade de vendas.
Por isso Jorge Dias sublinha, bem a propósito, que o Vinho do Porto “é uma indústria de capital intensivo”. O que ajuda a explicar que as quatro maiores empresas do setor – Gran Cruz, Sogrape, Fladgate e Symington – sejam de cariz familiar, embora de grande dimensão. Porque o Vinho do Porto exige paixão e uma relação afetiva com o território e com a fileira, o que só é possível com empresas desta natureza.


É na Gran Cruz que podemos encontrar também uma das maiores coleções de balseiros de Vila Nova de Gaia, mais concretamente 220 balseiros com uma capacidade que varia entre os 350 e os 500 hectolitros. É de ficar basbaque: qualquer coisa como 9 milhões de litros de Vinho do Porto só em balseiros. Verdadeiramente impressionante.

 

Uma história com 130 anos

A Gran Cruz tem estado a comemorar 130 anos de existência porque é sucedânea da casa Assunção e Filhos, fundada em 1887, que foi adquirida pelo grupo nos alvores da democracia em Portugal, no ano conturbado de 1975. É nessa altura que os responsáveis operam uma mudança estratégica que iria marcar de forma indelével o futuro da empresa e das marcas de Vinho do Porto. Foi quando perceberam que tinham de deslocar o eixo de atuação (e de engarrafamento) de Paris para Vila Nova de Gaia, de modo a controlar melhor todo o processo produtivo. “Não vamos vender vinhos que são estagiados por terceiros, vamos começar nós a estagiar os nossos vinhos”, como sintetiza Jorge Dias de forma lapidar. De permeio, fizeram aquilo que hoje se designa por “rebranding” e passaram a adotar o nome Gran Cruz. Daí para cá foi sempre a crescer. 


Em 1985 assinala-se outro marco importante: o lançamento de uma campanha de comunicação, marketing e publicidade que associa a marca Porto Cruz a uma mulher misteriosa vestida de negro, uma mulher oriunda de um país em que o negro é cor, em que o preto é colorido: “Le pays où le noir est colour”. A importância e perenidade desta campanha é de tal ordem, que atualmente a Gran Cruz continua a canalizar 10% por cento do investimento para comunicação.


A partir de 2001, a Porto Cruz tornou-se a marca líder no Vinho do Porto, com mais de 11 milhões de garrafas, uma liderança que vem consolidando ano após ano. Mas isso não resultou somente da aposta feita na comunicação e publicidade, como nos contextualiza o CEO da Gran Cruz: “Para alcançarmos os atuais patamares de vendas foi fundamental a visão do pai do nosso atual presidente, que percebeu que o Vinho do Porto era vendido sobretudo nas lojas de livre serviço e aproveitou o nascimento e crescimento das grandes superfícies na França, de que são exemplo o Carrefour ou o E. Leclerc.  Ainda hoje, mais de 80% dos vinhos vendem-se nas grandes superfícies. Não vale a pena lutar contra isto. É incontornável. E foi isso que permitiu que a França assumisse o primeiro lugar do ´ranking´ mundial dos mercados, destronando o Reino Unido”.


Em 2007, a Gran Cruz volta a crescer com o processo de aquisição da C. da Silva, uma compra que teve uma dupla importância, como nos explica Jorge Dias: “Por um lado ficámos com ´stocks´ absolutamente fantásticos, com mais de 40 Colheitas e uma coleção impressionante e única de vinhos brancos velhos. Por outro lado, a compra da C. da Silva – que tinha uma adega – permitiu-nos vinificar e, assim, começámos a ter uma relação direta com os viticultores, a quem passámos a comprar as uvas, e não apenas com os produtores, a quem comprávamos os vinhos”.


Foi assim até 2014, ano especialmente importante para a Gran Cruz, pois corresponde à inauguração do enorme e moderníssimo centro de vinificação de Alijó e à compra da Quinta de Ventozelo, na margem esquerda do Douro, no Cima Corgo. Se a compra de Ventozelo – uma das maiores quintas do Douro com uma história de 500 anos e 200 hectares de vinha numa área total de 400 hectares – permitiu à Gran Cruz produzir as próprias uvas e apostar seriamente no universo dos vinhos DOC, onde dispõe já de 16 referências, a adega de Alijó é “the state of the art” da engenharia enológica. Trata-se de um investimento superior a 16 milhões de euros que surpreende pelos requisitos tecnológicos inovadores e pela conceção arquitetónica da responsabilidade do arquiteto Alexandre Burmester e que, na verdade, dispõe de duas adegas: uma para grandes volumes com capacidade para vinificar 6.000 toneladas de uvas e outra, mais pequena, para categorias especiais de vinhos do Porto e DOC Douro, dotada de um sofisticado sistema infravermelhos de seleção de bagos.


Pelo meio, no ano de 2012, é inaugurado o Espaço Porto Cruz na marginal de Vila Nova de Gaia. Com a abertura deste espaço, contíguo às caves da Sandeman e com frente para o largo homónimo, a marca não ganha apenas a presença que lhe faltava no coração das caves e do Vinho do Porto, já que as vastas instalações ficam um pouco mais acima; ganha também, e sobretudo, um espaço em que comunica a marca de uma forma completamente diferente – moderna, ousada e inovadora – no contacto direto com os consumidores nacionais e estrangeiros que nos visitam. Espaço onde dominam as novas tecnologias e a inovação, dispõe de um restaurante com a assinatura do prestigiado chefe Miguel Castro e Silva (exemplarmente representado a tempo inteiro pelo jovem chefe José Miguel Guedes) e do terraço deslumbrante de que falámos no arranque deste texto.

 


É precisamente no Espaço Porto Cruz que vamos terminar esta jornada na Gran Cruz em que tivemos Jorge Dias como cicerone e à qual se juntará, entretanto, José Manuel de Sousa Soares, o máximo responsável pela enologia da casa. Em conversa com Jorge Dias percebemos mais plenamente a razão pela qual o terraço onde nos encontramos é a tal metáfora do que significa hoje a marca líder na exportação de Vinho de Porto: “É absolutamente essencial que o Vinho do Poto se vá reinventando porque corremos o risco de ter provocado uma embolia geracional. Se existe uma geração que perde o contacto com o produto, corremos o risco de perder os nossos consumidores. E temos de ter consciência de que o Vinho do Porto é um vinho demasiado complicado. Até para servir um Vinho do Porto chamamos-lhe um Porto de Honra… Não podemos dizer a um jovem que está a entrar no consumo de Vinho do Porto que tem de beber num copo especial, que tem de ser servido pela esquerda, se quer um Tawny, um Rubi, um Porto branco ou um LBV. O mais natural é que ele desista logo. Não pode ser. Temos de ir ao encontro dos jovens consumidores com propostas mais simples, mais ao gosto deles. Depois, à medida que envelhecerem, têm todo o tempo do mundo para virem a apreciar a verdadeira riqueza e complexidade do Vinho do Porto”.

 

A ousadia do Ventozelo Premium Dry Gin

 

Para rasgar ainda mais a ousadia da conversa não estamos a beber Vinho do Porto, mas sim… um Ventozelo Premium Dry Gin, um muito interessante gin com intenso caráter vínico que resultou de dois “brainstormings” na Quinta de Ventozelo que permitiram captar os aromas da mata mediterrânica desta vasta quinta. “Foi isso que tentámos captar e meter dentro de uma garrafa de gin: uma base espirituosa da destilação dos próprios vinhos de Ventozelo, para além de zimbro, base de coentros, lima-limão, rosmaninho, perpétua-roxa e hortelã-pimenta”, como nos explica Jorge Dias antes de concluir o raciocínio sobre as dificuldades e os desafios que se colocam presentemente ao Vinho do Porto: “Não nos conformamos com a redução do consumo do Vinho do Porto. Não nos conformamos com este fatalismo reinante no setor, de que o consumo de Vinho do Porto tem de cair inevitavelmente e que devemos concentrar-nos mais nas categorias especiais. Ora, se formos analisar a evolução do mercado, as categorias especiais também têm caído, embora não tanto como o conjunto do setor. O volume é absolutamente essencial para as empresas enquanto divisor de custos, mas sobretudo para a sustentabilidade do próprio Douro. Porque o viticultor recebe o mesmo por uma pipa seja qual for o destino. Se nós nos conformamos com a descida dos volumes comercializados de Vinho do Porto, estaremos a pôr sobretudo em risco a sustentabilidade da região demarcada do Douro que tem uma economia muito frágil, muito assente sobretudo no Vinho do Porto. Porque é no Vinho do Porto, não tenhamos ilusões, que os viticultores fazem as mais-valias necessárias para compensar as menos valias que fazem nas massas vínicas para o vinho do Douro”.

 


A fechar esta visita da Revista de Vinhos à Gran Cruz não poderia haver melhor “grande final”, pois terminámos a degustar o “Gran Cruz Very Old Port 130 Anniversary Edition”, um Tawny velhíssimo loteado com vinhos do século XIX produzidos antes da filoxera e que envelheceram mais de um século em pipas de carvalho, no Douro e em Gaia. Um vinho estratosférico de que publicámos nota de prova na última edição da revista e que celebra a capacidade da Gran Cruz, hoje indesmentível, de associar a produção e comercialização de grandes volumes de Vinho do Porto à excelência das raridades e dos vinhos únicos e singulares.
 

Artigo publicado na edição nº 338, de Janeiro de 2018, da Revista de Vinhos.

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