Herdade do Monte da Ribeira

Fotografia: Ricardo Garrido
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

No ponto médio da distância que une a Vidigueira ao Alqueva, está a pequena aldeia de Marmelar. As suas origens perdem-se na história, havendo, no entanto, a certeza que no princípio da nacionalidade já existia. D. Sancho I deu-lhe foral, confirmado mais tarde por D. Afonso II. É nesta aldeia alentejana, um pequeno lugar de casas brancas e alinhadas, do concelho da Vidigueira, que vamos encontrar a Herdade do Monte da Ribeira. A propriedade espraia-se pela planície e conquista parte da Serra do Mendro, numa área com uns expressivos 1.100 hectares. Pertença da Fundação Carmona e Costa, amplamente reconhecida no desenvolvimento da Arte Contemporânea, foi comprada em 1986 por Vítor e Maria da Graça Carmona e Costa. Em 1989, após a construção da primeira barragem, foram plantadas as primeiras vinhas e a enologia ficou a cargo de João Portugal Ramos.


Os vinhos da Herdade do Monte da Ribeira rapidamente conquistaram adeptos fiéis, tendo a marca Pousio aparecido pela primeira vez no mercado, em 1992. Durante quatro anos consecutivos ganhou a medalha de ouro dos Enófilos do Alentejo e o sonho de Vítor Carmona e Costa de produzir vinhos de qualidade parecia estar concretizado. Mas a verdade é que, após o período áureo da década de 1990, os vinhos da Herdade do Monte da Ribeira foram-se afastando da ribalta, entrando num estado de quase letargia, como uma sombra de tons cinzentos.

Energia renovada

A administração da Fundação Carmona e Costa, não satisfeita ou conformada com o caminho que os seus vinhos tomaram, continuou a ambicionar uma qualidade que apenas seria possível repensando todo o projeto. E, em 2010, António Nora é convidado para integrar a equipa que iria fazer a diferença. Após muitos anos ligado a várias áreas no sector do vinho, começando por ser um enófilo confesso e grande conhecedor dos vinhos do mundo, António Nora tem o seu percurso marcado pelas lojas que criou e que alteraram definitivamente a forma de comercializar vinho em Portugal. O estilo da “Vinho e Coisas”, primeiro, e da “Wine o’Clock”, depois, são disso exemplo. Mas, até então, António Nora nunca tinha estado ligado diretamente à produção, pelo que este foi um desafio que logo o aliciou. Visitou a propriedade com Luís Duarte, tendo a opinião do experiente enólogo sido essencial. Segundo Luís Duarte, a herdade tinha muito potencial e a história poderia ser recomeçada a partir de um novo paradigma. E, com Nora já como Diretor de Vinhos da Herdade do Monte da Ribeira, o projeto é reformulado, com novas metas, novos princípios, nova imagem. Assim, ainda em 2010, iniciou-se a renovação das vinhas (que ainda hoje continua), bem como se realizaram obras na adega. Também se estudou a imagem dos vinhos e, em 2011, os rótulos de Pousio e Quatro Caminhos têm já um design mais cuidado. Mas não são só os rótulos que marcam a diferença desta nova fase que, então, se estava a iniciar. Também a qualidade dos vinhos é notada, estando a enologia a cargo de Luís Duarte, hoje consultor, e de Nuno Elias, atual Diretor Técnico da herdade e enólogo residente.


Depois, já com o reconhecimento e consistência dos vinhos, foi tomada a decisão de concentrar toda a energia apenas na marca Pousio. A exceção é o Marmelar, pensado como ícone, de produções limitadas e que é editado apenas em anos de exceção. Dos melhores vinhos tintos, são reservados 3 a 4.000 litros, submetidos a várias provas, em várias fases, por várias pessoas. Apenas o que passa estas sucessivas etapas, é rotulado como Marmelar. Os outros integram o lote do Pousio Reserva. O Marmelar só foi editado duas vezes, nas colheitas de 2012 e 2014, esta última provada na edição 342 da Revista de Vinhos (com a classificação de 17 valores).

A Herdade do Monte da Ribeira

A Herdade do Monte da Ribeira é o resultado da agregação de duas propriedades, o Monte da Ribeira e o Monte do Farrobo. Além de uma enorme área de floresta mediterrânea nos mais de 700 ha na Serra do Mendro, com medronho e azinho maioritariamente, tem ainda 43 ha de vinha e 210 de olival. Nos últimos anos, a produção de azeite com a marca Pousio tem aumentado significativamente. Mariana Carmona e Costa, Diretora Agrícola da herdade, diz-nos que sempre entregaram as azeitonas na cooperativa e vendiam, também, azeite a granel. A qualidade dessas azeitonas começou a ser notada e o próprio azeite preferido por espanhóis e italianos, razão pela qual quis engarrafar um lote para a família. Daí a perceber a sinergia comercial com o vinho foi um passo e, também o azeite, virgem extra, é rotulado com a marca Pousio, com o Premium a coroar a linhagem.
O olival existente divide-se entre o olival tradicional, com as variedades Galega, Bico de Corvo e Verdeal, o intensivo, maioritariamente com Cobrançosa, mas também com Cordovil e Picual, e olival super-intensivo, apenas com Arbequina. Mariana revela-nos, ainda, que em 2022 já terão água do Alqueva e ficarão com potencial para aumentar o olival em 300 ha.
Na vinha, fomos acompanhados por Nuno Elias. Os solos são pobres, franco-argilosos, com argila pouco desenvolvida. Uma parte dessas vinhas está sobre a falha geológica Vidigueira-Moura, numa zona de mineralização generalizada de antigas minas de cobre e ferro. As vinhas começam no sopé da serra e desenvolvem-se para sul, pela planície que vai até Beja. Nuno Elias diz-nos que estão completamente protegidas, sendo um caso particular em toda a região da Vidigueira. A Serra do Mendro, com os seus cerca de 400 metros de altitude, é um bloqueio geográfico para os ventos predominantes de norte, pelo que o calor naquela zona acaba por ser amplificado. Ainda assim, as vinhas não entram tão facilmente em stress como em propriedades vizinhas, já que a desidratação provocada pelo vento tem mais impacto que aquela provocada pela radiação e, aqui, as vinhas estão abrigadas. Quanto aos encepamentos, 30% são brancos e 70% tintos. E, às variedades tradicionais, juntam-se outras. Nas brancas, encontramos Antão Vaz e Roupeiro, com Alvarinho, Arinto e um pouco de Verdelho. Nuno Elias está muito contente com a expressão do Alvarinho que permite que os brancos tenham um perfil mais internacional, ao mesmo tempo que equilibra o lote e dá mais longevidade aos vinhos. Quanto às castas tintas, Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, vêem-se complementadas por Cabernet Sauvignon, Baga, Petit Syrah e Petit Verdot, com esta última a fazer brilhar os olhos do enólogo.


Com uma produção anual a rondar as 400.000 garrafas, António Nora é muito pragmático nas linhas que definiu para o estilo dos vinhos. A herdade tem de vender os vinhos que produz e, para tal, tem de ir ao encontro do consumidor. Não pode esquecê-lo. E o consumidor alvo quer vinhos agradáveis, fáceis e com quantidades de produção que permitam uma continuidade. As raridades não entram na equação. Então, o que se procura é encontrar o equilíbrio entre manter a personalidade do Alentejo, em vinhos de qualidade superior, compatíveis com a facilidade de consumo. E, muito importante, que sejam reconhecíveis pelo gosto internacional. E este princípio não foi encontrado só a pensar nas exportações, já que o mercado nacional deve em grande parte o seu crescimento recente ao turismo. Estamos, por isso, a falar igualmente de consumidores estrangeiros que querem o conforto de códigos que reconhecem, em vinhos que sejam fáceis de beber. António Nora considera o Alentejo uma caixa de surpresas e a Vidigueira é para ele, a região ideal. Relativamente ao resto do país, o que destaca, no Alentejo, é a escala das produções. A capacidade de produzir com qualidade e em quantidade. E acredita profundamente nos vinhos da herdade do Monte da Ribeira, “de qualidade e a preços muito interessantes”, diz-nos.


Tivemos oportunidade de acompanhar uma refeição com os mais recentes Pousio Selection, branco, rosé e tinto, todos com um PVP de 6,25€, e confirmar a sua personalidade e versatilidade (os três vinhos foram provados e classificados na edição 342 da Revista de Vinhos).


São vinhos limpos, aromáticos, bem-dispostos e modernos. O branco 2017, resultado de um lote de Verdelho, Alvarinho e Arinto, com uma produção de 50.000 garrafas, é muito frutado, tem volume, citrinos muito expressivos e acidez proporcionada. Preenche os requisitos de um vinho internacional, com semelhanças com alguns exemplos do novo mundo. Quanto ao Pousio Selection Rosé, também da colheita de 2017, num total de 40.000 garrafas, que junta Trincadeira, Aragonês e Touriga Nacional, tem uma lindíssima cor acobreada suave, com tons salmão claro. Seduz pelo equilíbrio entre o seu carácter aromático e uma suavidade muito elegante. A boca é, também ela, equilibrada, com uma secura evidente e aplaudida. Por fim, o tinto 2016 é, talvez, o mais surpreendente. Com uma produção de 100.000 garrafas, as castas Alicante Bouschet, Syrah e Trincadeira estão em igual proporção. E o resultado é um vinho arejado, com fruta madura que não se camuflou. Às notas de ameixa e alguma pera, junta-se um lado mais enigmático que a boca revela num carácter mentolado. Ótima textura, macio e refrescante. Estruturado, sem ser pesado. Muito bem para a refeição.


Para os Pousio Reserva, esperavam-nos vinhos já com alguns anos. O branco, de 2014, com as mesmas castas usadas no Selection, teve 3 meses de estágio em barricas de carvalho francês. É um branco adulto, de nariz desafiante e prometedor, com a barrica muito bem integrada. É um vinho gordo, com espessura, que dá muito prazer. Quanto ao tinto, trata-se do 2013 e resulta de um blend de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Petit Syrah, com estágio de um ano em barricas novas de carvalho francês. Nuno Elias usa barricas de 300 litros para que o resultado tenha menos impacto. Com a experiência, foi adaptando o estágio em madeira à matriz do vinho, chegando à capacidade de 300 litros, em allier de grão fino.
O Pousio Reserva tinto é, então, é um vinho muito bem feito, dócil no nariz, que não esconde a sua origem em terras quentes, antes a trabalha. Percebe-se a madeira, que o estrutura, mas não é demais. Tem uma boa frescura final e uma textura de taninos finos.


Para António Nora, este projecto é “o culminar de uma vida dedicada aos vinhos”. Acha uma “paternidade muito especial” acompanhar a vinha e as uvas, o vinho e a sua evolução. E o desafio de a cada ano querer fazer melhor. Assim parece estar a acontecer na Herdade do Monte da Ribeira.


Notas de prova:

17
Pousio Reserva Tinto 2013
Alentejo / Tinto / Herdade do Monte da Ribeira

Rubi, com tons granada. Dócil e elegante no nariz, com fruta madura, alguma especiaria e torrefação. Na boca, a madeira estrutura sem estar em demasia. Os taninos são finos, de suavidade assumida. É um vinho que não oculta a sua origem de terras quentes, apresentando uma frescura final revigorante, com notas de cedro, alguma secura e muito carácter. CL
13,00 € / 16ºC
Consumo: 2018-2021


16,5
Pousio Reserva Branco 2014
Alentejo / Branco / Herdade do Monte da Ribeira

Cor amarelo ouro. O nariz é desafiante e prometedor, onde encontramos limão confit e flores. As notas de barrica estão bem integradas. Na boca, é um vinho gordo, com acidez alta e fruta sem excessos. Às notas de baunilha, juntam-se algumas notas mais tostadas e ligeiro fumado. Termina longo. CL
13,00 € / 11ºC
Consumo: 2018-2020

Trabalho originalmente publicado na edição nº 343 da Revista de Vinhos (junho de 2018).

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