Quinta de Vargellas, Taylor’s - Um novo mundo do velho mundo

Fotografia: Fotos D.R.
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Luís Costa

Luís Costa

A Taylor’s está a comemorar 325 anos e a Quinta de Vargellas é o coração e a alma desta importante casa de Vinho do Porto do grupo The Fladgate Partnership. Pretexto para uma visita de dois dias a Vargellas, em que assistimos ao dealbar de uma nova realidade no universo da Fladgate e do próprio Vinho do Porto: na viticultura de montanha, no trabalho da adega, no estágio e armazenamento e no enoturismo. Trata-se de um verdadeiro novo paradigma: no Douro, centraliza-se a produção e todo o processo industrial; em Gaia, fica apenas a montra do Vinho do Porto. 

 

 

Ao fim de três horas de viagem no ronceiro comboio que liga Campanhã, no Porto, à velha estação de Vargelas, dentro da quinta homónima, em pleno Douro Superior, com as águas do rio a quase banharem os carris, não desembarcamos somente numa das quintas mais bonitas e emblemáticas de toda a região. É muito mais do que isso, pois ali bate o coração da Taylors e da família Fladgate, epicentro da história maior do Vinho do Porto desde o início do século XIX.


Com a marca mais conhecida do grupo a cumprir 325 anos – pretexto fundamental desta “press trip” para um grupo exclusivo de jornalistas – chegamos a Vargelas já noite cerrada, e surge-nos uma primeira (boa) surpresa: nos lagares de granito da quinta, a transbordar com mosto dos últimos cortes do ano, vemos jovens portugueses do litoral, de Aveiro a Vila Nova de Gaia, gente urbana e com formação universitária, que ali estão, ali vivem e ali trabalham durante mais de duas semanas na companhia de alguns indefetíveis das vindimas de todos os anos, onde não falta uma jovial senhora que nos espanta com 80 anos. Não se arranja gente para vindimar? Os lagares do Douro têm de recorrer à imigração mais desqualificada? Já não é bem assim, nem sempre é assim, e na Quinta de Vargellas não é assim comprovadamente.


Descrito o cenário e explicado o contexto, o que retemos de mais relevante desta visita de dois dias? Três coisas fundamentais: um novo paradigma na viticultura de montanha, resultado de muito estudo e investigação do grupo The Fladgate Partnership nos últimos anos; o entusiasmo que está a gerar o projeto “World of Wine” – um investimento de 100 milhões de euros que vai transformar radicalmente, a partir de 2020, a atual zona de armazéns de Vila Nova de Gaia que se estende desde o hotel The Yeatman até à margem do rio; e, consequência (mas também causa) direta deste último projeto, a decisão estratégica de centralizar em S. João da Pesqueira, na Quinta da Nogueira, o estágio de Vinho do Porto.


É o fim declarado da visão romântica – e na verdade inexistente há já muitos anos – do Vinho do Porto que era transportado em barcos rabelos até à foz, onde repousaria tempos infindos nas caves de Gaia em condições únicas de temperatura e humidade. Hoje em dia, essas condições ideais podem ser reproduzidas em qualquer lado com recurso ao ar condicionado, à escolha criteriosa dos materiais usados na construção dos pavilhões de armazenamento e a sistemas de aspersão que borrifam suavemente as barricas e tornam húmida a atmosfera onde repousa o mais conceituado vinho fortificado do mundo. Em Gaia fica a memória, o património e… os turistas. E criam-se condições cada vez melhores para quem chega de fora, melhorando a cidade, qualificando o urbanismo e elevando a oferta enoturística a patamares de excelência. Trata-se de um verdadeiro novo paradigma: no Douro, a produção e todo o processo industrial; em Gaia, apenas a montra do Vinho do Porto.


Essa imensa montra vai ocupar um espaço requalificado de 30.000 metros quadrados que irá oferecer cinco experiências diferentes: a “Wine Experience”, que contará a história dos vinhos portugueses desde a vinha à garrafa, contextualizando-os com os outros grandes vinhos do mundo e explicando as castas, os solos, os padrões climatéricos e as técnicas de vinificação; a “Cork Experience”, sobre a relação da cortiça com o vinho; o “Porto Through the Ages”, sobre a história do Porto e do Norte de Portugal; o “Fashion & Design Museum”, que será dedicado à moda, tal como o nome indica; e o curioso “The History of Drinking Vessels”, uma imensa coleção de copos com valor histórico e patrimonial. Para além das “experiências” haverá uma escola de vinho, uma dúzia de restaurantes, um espaço de eventos, lojas, um espaço para exposições temporárias e estacionamento subterrâneo para 150 automóveis.


Adrian Bridge, diretor-geral da Fladgate Partnership, explica a estratégia desta aposta: “É nossa intenção criar um catalisador que estimule o investimento e o desenvolvimento, que transformará e beneficiará a cidade inteira.” Para acrescentar que “as empresas de turismo e as unidades hoteleiras vão beneficiar do aumento da procura gerado pelo ‘World of Wine’ através do aumento da estadia média dos hóspedes e da redução do efeito da sazonalidade, associado aos períodos de ocupação mais baixa, entre novembro e março”.

 

Um novo paradigma

Se Vila Nova de Gaia é a face visível da renovação em curso no universo da Fladgate Partnership, é nas montanhas do Douro que tudo começa por acontecer. Desde logo na criação de um novo modelo de vinha sustentável, que ambiciona tornar-se referência para a viticultura ambientalmente responsável de toda a região do Douro. Um trabalho conjunto de David Guimaraens – o importante diretor técnico e enólogo da casa há quase três décadas – e de António Magalhães, reconhecida autoridade mundial em viticultura de montanha. Um novo modelo de vinha a que chamam apropriadamente “segunda geração de socalco pós-filoxera”. Em síntese, esse modelo defende a construção dos socalcos suportados por muros de pedra como a mais duradoura arquitetura do terreno e destaca-se por simplificar – e aliviar – a penosidade do trabalho manual na vinha. No novo modelo deixa-se em cada socalco – e na base do muro – uma única entrelinha para a circulação das máquinas em trabalho, e esta é a chave do modelo para a modernização dos socalcos.


Para além das inovações na vinha, também há novidades – e grandes novidades – no trabalho da adega e no armazenamento/envelhecimento dos vinhos do Porto. Neste aspeto, a adega da Nogueira, localizada num planalto junto a S. João da Pesqueira, tem um papel cada vez mais relevante no universo da Fladgate Partnership, que é constituído por quatro casas emblemáticas de Vinho do Porto: Taylors, Croft, Fonseca Guimaraes e Wiese & Krohn.


À entrada da adega, um mapa do Douro que podia ter sido esquissado pelo Barão de Forrester mostra-nos a localização de todos os viticultores que fornecem uvas à Taylors, Croft e Fonseca Guimaraes, responsáveis por sensivelmente 40% da matéria-prima engarrafada com aquelas marcas (os restantes 60% são de produção própria). Os pinos de cores diferentes espetados no mapa revelam a origem e o destino dessas uvas antes de entrarem na adega: os pinos verdes são de viticultores que fornecem uvas à Taylor’s; os pinos amarelos são de viticultores que trabalham para a Fonseca Guimaraes; e os alfinetes azuis são da Croft.


Lá dentro vemos em plena atividade os inovadores tanques de fermentação desenhados pela equipa de produção da Taylor’s, resultado de protótipos desenvolvidos na adega de pesquisa da Quinta de Vargellas. Essas cubas de fermentação estão equipadas com um sistema de pistões mecânicos que mantêm a película da uva em constante contacto com o vinho que está a fermentar. Mas a Fladgate não trabalha com mais do que duas dezenas de viticultores. David Guimaraens explica-nos porquê: “Trabalhamos com viticultores grandes, pois isso permite-nos fazer lotes deles individualmente ou, no máximo, juntando dois ou três viticultores. Isso é muito importante porque temos quatro casas de Vinho do Porto, cada qual com identidade. Todos os nossos viticultores têm um destino para uma das casas. Aqui na adega, quando é feito o planeamento já prevemos a separação das uvas para cada uma das nossas casas”.


Paredes meias com a adega, localizam-se os armazéns onde agora se faz o envelhecimento de vinhos que noutros tempos rumavam até Vila Nova de Gaia. Só num desses armazéns podem contar-se 84 balseiros que contêm 5 milhões de litros de Vinho do Porto. Os LBV da Taylor’s, por exemplo, já são integralmente envelhecidos nesta infraestrutura localizada às portas de S. João da Pesqueira.
Segue-se, ali mesmo ao lado, outro armazém imenso onde repousam 4.000 cascos, uma realidade outrora possível apenas nos velhos armazéns de Vila Nova de Gaia. É uma imagem impressionante e inusitada. Sinal de que a modernidade também chegou ao Vinho do Porto? “Sim – responde David Guimaraens prontamente – esta é a prova de que não estamos parados no tempo. Há muita vida no Vinho do Porto. Como costumo dizer, o setor do Vinho do Porto é o novo mundo do velho mundo. Quem entra numa adega como esta da Nogueira podia estar a entrar numa adega da Califórnia ou da Austrália. As instalações de Vila Nova de Gaia são para dedicar ao enoturismo, que é uma aposta muito importante. Admito que perder a melhor sala de provas do mundo custa-me um bocado… mas é assim, temos de saber mudar para continuar em frente”.

 

Alguns dos melhores

Claro que não podíamos visitar a Quinta de Vargellas sem provar alguns vinhos, nomeadamente os mais recentes Porto Vintage Vargellas, Fonseca Guimaraens e Roeda – ou seja, os Vintage 2015 de que não reproduzimos aqui notas de prova com classificações por já terem sido anteriormente provados pelo painel da revista. São Vintage muito promissores, apesar de não ser um ano clássico. E talvez por isso mesmo: estes Vintage estão num ponto tão elevado – e dão já imenso prazer a quem os bebe – que proporcionam a alguns a desconfiança de que a longevidade dificilmente irá além dos 30 ou 40 anos. O que é uma tremenda injustiça para uma colheita fantástica – 2015 – e uma enorme penalização para um vinho – o Vinho do Porto – que é capaz de durar dezenas e dezenas de anos, como poucos no mundo. Se o Roeda Vintage é mais contido, com taninos suaves, não tão amplo como os demais, mas muito limpo e elegante, com “nuances” de esteva e eucalipto, o Vintage Vargellas 2015 é um festival de fruta perfumada e fresca, muito complexo e floral, com a elegância habitual dos grandes vinhos oriundos deste imenso anfiteatro do Douro Superior. O Fonseca Guimaraens 2015 tem muito nervo, estrutura e perfil marcado pela acidez fantástica, taninos imensos, estrutura sólida e notas deliciosas de cereja preta e chocolate amargo.


Fim da visita à Quinta de Vargellas e uma certeza: desta quinta com uma história relativamente recente no Vinho do Porto (pois o Douro Superior era o Douro Novo que só despontou depois de eliminado o Cachão da Valeira) vão continuar a sair alguns dos melhores vinhos do mundo. O que não é coisa pouca.
 

Artigo publicado na edição nº 338, de Janeiro de 2018, da Revista de Vinhos.

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