A semana da Borgonha em Londres

Todos os meses de Janeiro o ‘trade’ britânico fica um pouco desvairado. A causa está na semana da Borgonha, que tem lugar todos os anos em Londres.

 

Para alguns dos membros do ‘trade’, Janeiro representa a retirada forçada do seu hábito de eleição. Mas, para aqueles que se especializaram em vender vinhos de qualidade a ‘wine lovers’ opulentos, o mês mais frio do ano é dominado pela última colheita de Borgonhas.

Ao longo dos muitos anos em que acompanho o panorama britânico dos vinhos, foi estabelecida a firme tradição de que a segunda semana de Janeiro seria dedicada a provas frequentemente bem preparadas de jovens Borgonhas, com o maior número possível de produtores presentes. Esta oportunidade para provar um leque tão vasto de nomes da mais reverenciada origem do mundo para vinhos de produções limitadas é tão rara e valiosa que até alguns dos mais afamados ‘wine writers’ franceses deslocam-se a Londres para aproveitar a nossa Semana da Borgonha. 
Em Janeiro último, por exemplo, foram realizadas em Londres não menos de 21 apresentações de Borgonhas de 2016 durante a segunda semana e esta tornou-se tão preenchida que decorreram mais cinco provas na semana seguinte.

Tenho por hábito, durante a segunda semana de Janeiro, recusar quaisquer compromissos que não as provas diárias de Borgonhas, tão exaustivo que é concentrarmo-nos em tudo o que nos oferecem - para o bem dos meus leitores -, enquanto somos rodeados por centenas de outros provadores, muitos dos quais potenciais compradores, com bastantes opiniões para partilhar com todas as pessoas na sala.

Os dois negociantes que levam a cabo as maiores provas são os rivais de St James’s Street, Berry Bros & Rudd e Justerini & Brooks. Em dias sucessivos, estes apropriam-se do enorme e marmoreado Great Hall do One Great George Street, próximo das Casas do Parlamento. As amostras dos produtores mais afortunados são colocados em mesas em torno do perímetro da sala, enquanto os potenciais compradores sobreexcitados comparam notas no centro.

Alguns borgonheses apresentam os seus vinhos em ambas as provas. Sabendo como são caros os hotéis em Londres, penso por vezes que estas casas comerciantes, para além de mimarem os produtores em jantares ruidosos em noites sucessivas, deveriam igualmente oferecer camas de campanha na sala de provas. É sempre uma surpresa, quando chegamos à grande porta de entrada do One Great George Street, depararmo-nos com ‘vignerons’ que mais rapidamente associaríamos à condução de tractores por entre as vinhas ou ao trabalho nas adegas da Côte d’Or do que a fumar um cigarro dissimulado no passeio.

Lá dentro, os produtores aproveitam a rara oportunidade para provar os vinhos uns dos outros antes que a sala encha, por volta das cinco da tarde, quando os clientes deixam as suas secretárias para definirem o que querem ou podem comprar da colheita deste ano. Jovens e atraentes mulheres, armadas com formulários de encomenda, estão geralmente posicionadas junto à saída. A Berrys apresenta uma mesa central com queijos Neal’s Yard mas na Justerinis, gerida por um escocês, o foco reside apenas no vinho.

A Justerinis orgulha-se particularmente da sua lista de clientes aristocrática; a Berrys será talvez melhor em atingir o público dos fundos de investimento. Já ouvi algum deste staff enumerar a quantidade de encomendas, avaliadas em milhões de libras, que são feitas antes mesmo destas provas.

Porque, claro está, os vinhos mais procurados não são apresentados nestas provas massivas. Estes são demasiado preciosos para serem servidos a quem não se comprometeu com um cêntimo que fosse neste evento. Vinhos da estirpe dos Rousseau e Roumier são alocados, em pequenas quantidade, aos melhores clientes. O Domaine de la Romanée-Conti realiza a sua própria prova, da colheita do ano seguinte ao daquela destacada em cada Janeiro, nos escritórios do seu importador britânico Corney & Barrow. A lista de convidados é reunida com extremo cuidado; os copos são temperados com um vinho inferior antes dos preciosos Grands Crus serem lentamente servidos.

A arte de ler as entrelinhas

Provar vinhos antes de serem engarrafados, o que é o caso da maioria destes jovens tintos, é uma ciência inexacta. Sou profundamente céptica quanto ao valor das provas anuais em primor realizadas em Bordéus, onde todos provamos centenas de amostras de vinhos que têm apenas alguns meses. Mas pelo menos os Borgonhas apresentados em Londres cada mês de Janeiro estão no meio do seu segundo Inverno de envelhecimento. Muito pode acontecer a um vinho tão delicado como um Borgonha, mas será muito, muito mais fácil avaliar estes vinhos 16 meses ou mais depois da vindima, do que a média de sete meses com que se apresentam os Bordéus em primor.

Quando estas provas londrinas de Borgonhas começaram, no final do século passado, era comum depararmo-nos com amostras retiradas da barrica, por vezes tão cedo como antes do Natal e levados através do Canal da Mancha para serem armazenados sabe-se lá onde, em más condições e obviamente tratados com sulfuroso em excesso. Mas hoje em dia tudo parece ter-se tornado muito mais sofisticado e a maioria das amostras parece apresentar-se em boas condições, tendo ainda beneficiado de mais algumas semanas de envelhecimento.

A maioria destas amostras é retirada dos cascos na primeira semana de Janeiro – não muito depois de os produtores terem decidido de que forma irão alocar cada vinho a cada comerciante específico – antes de serem conduzidos até Londres, normalmente pelos jovens consultores das empresas comerciantes, delirantes por terem um pretexto para visitarem e estabelecerem contactos com os melhores domaines da Côte d’Or. Em certo ano, o tempo estava tão mau que vários carregamentos de amostras acabaram numa vala coberta de neve. Tenho pena pelos comerciantes aos quais as autoridades alfandegárias britânicas insistem em cobrar a nossa taxa punitiva de duas libras por cada garrafa, mesmo que não esteja para venda.

Por razões óbvias, os comerciantes disseminam livremente pelas provas impressos das suas amostras. Já reparei que alguns produtores levantam o sobrolho quando vêem os preços que são pedidos pelos seus vinhos. Estou sempre particularmente interessada na forma como a nova colheita é descrita. A arte reside em ler as entrelinhas. ‘Acessível’ ou ‘encantador’ pode querer dizer ‘suave, pobre em acidez e taninos’. ‘Refrescante’ poderá significar ‘acidez pronunciada’. ‘Firme’ poderá ser uma referência aos taninos duros.

Uma palavra basta para resumir a colheita de 2016 apresentada no início deste ano. Graças às geadas do final de Abril, a vindima é inegavelmente ‘curta’, mesmo que a qualidade de muitos dos tintos e alguns dos vinhos brancos que provei seja tentadoramente elevada.

Trabalho originalmente publicado na edição 341 (Abril de 2018) da Revista de Vinhos.

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