QUINTA DO AMEAL

A irreverência alcançou a maturidade

 
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José João Santos

José João Santos

No final do ano, a Quinta do Ameal lançará um espumante em que o vinho base conheceu um estágio prolongado. Será uma forma suplementar de celebração de 15 anos sobre o primeiro lançamento de um vinho branco que entretanto se afirmou entre os grandes de Portugal, obtido a partir de uma casta, o Loureiro, que é hoje igualmente tida como das mais emblemáticas dos Vinhos Verdes. Mas, para Pedro Araújo, a cor é o que menos importa…

 

O Vinho Verde sempre pareceu redutor a Pedro Araújo. “Se é verde, azul ou laranja não interessa; o que queria fazer era um grande vinho branco”. A loucura conheceu a luz do dia em 2000, quando saía para o mercado o primeiro Quinta do Ameal, da colheita anterior. Começava aí a história de um dos grandes vinhos brancos portugueses, obtido a partir de uma casta até à época tida como menor “No início chamaram-se louco”, recorda Pedro Araújo. O Loureiro estava longe de ser uma variedade apreciada e consagrada pela maioria e a ideia de com ela alcançar um vinho branco capaz de sobressair parecia descabida. Mas o protagonista desta história não desarmou.

As ligações umbilicais de Pedro Araújo ao vinho chegam pelo lado da mãe. Adriano Ramos Pinto, que fundou a empresa homónima em finais do século XIX e que ainda hoje é unanimemente considerado um visionário do marketing de vinhos, era bisavô de Pedro. A família manteve o controlo da empresa até 1990, altura em que a vendeu ao grupo Louis Roederer, reconhecido à escala mundial sobretudo como “maison” de Champagne, França. Nesse mesmo ano, o pai de Pedro Araújo adquiria a Quinta do Ameal, no Vale do Lima, junto a Ponte de Lima. A propriedade data de 1710, vê e ouve o rio Lima a passar-lhe numa das margens, mantém uma convidativa zona de floresta e uma pequena praia fluvial que, conforme os ímpetos do tempo, ora surge à tona ora desaparece. 

A etapa dos Araújos no Ameal começou por dar primazia à produção animal de vacas. O vinho estava notoriamente secundarizado, algo que haveria de mudar em poucos anos. Pedro acompanhava entretanto o lançamento da Quinta de Covela, em Baião, pelo irmão Nuno Araújo, e época houve em que ajudou à comercialização. 

Com formação em administração e gestão de empresas – e “como uma esponja seca que absorve tudo quando encontra água” – , Pedro deixava-se contagiar pelo mundo do vinho. Em 1998 o pai retirava-se de cena, o filho subia ao palco. As prioridades foram redefinidas e toda a atenção foi dada ao vinho. Ou talvez seja melhor dizer, à vinha.

Contrariando todas as ligações familiares ao Douro, Pedro abraçava com uma convicção absurda o Minho – como prefere apelidar a região dos Vinhos Verdes – e a tal empreitada de alcançar um grande vinho branco. Não cedeu à tentação do plantio de castas mais unânimes e apostou as fichas todas no Loureiro. 

Quinze anos depois de o mercado conhecer o primeiro vinho do Ameal, o presente dá-lhe razão. O Loureiro voltou a ser um emblema de orgulho dos vinhos do Vale do Lima e é hoje tida como uma das melhores castas brancas da região, sendo já comum ver rótulos a ostentar esse nome em primeiro plano, a solo ou em lote, prova final da conquista de uma batalha.

Pedro elogia-lhe “a enorme versatilidade, a capacidade de acompanhar momentos e refeições, a grande leveza”. Na maioria dos casos, os vinhos da casta Loureiro não excedem os 12% de graduação alcoólica e se forem devidamente trabalhados conseguem um perfil de elegância e personalidade invulgares em castas da região minhota. 

O produtor percebeu também que o vinho se faz na vinha, pelo que manteve – e mantém – uma adega minimalista mas funcional, dirigindo todos os esforços para a videira, tratada com o esmero de quem trabalha um jardim e sempre com uma saudável obsessão pela natureza. Também nesse detalhe Pedro jogou (e ganhou) na antecipação, adotando práticas de viticultura biológica que naqueles anos não eram muito frequentes na região (e no país). 

O tempo foi passando e dando razão à aposta. A crítica especializada acabaria por se render aos méritos do Ameal e as distinções internacionais começaram igualmente a chegar. Sempre contra a corrente, Pedro Araújo defendia o Loureiro como um D. Quixote defende uma dama em apuros e ao mesmo tempo que elogiava o “terroir” do Vale do Lima mantinha-se na linha da frente da contestação ao rumo que fora sendo traçado para a região. 

Década e meia volvida sobre o tal primeiro vinho, a irreverência mantém-se, tal como o permanente desafio de combater preconceitos. Se ainda muitos consumidores encaram os vinhos da região como detentores de uma acidez exagerada, Pedro prefere elogiar essa mesmíssima acidez, argumentando que pode ser equilibrada com um trabalho correto na vinha, evitando correções posteriores e sempre menos conseguidas na adega.

 

Natureza, música e decoração

 

Estamos no Ameal, mas Pedro avisa-nos: “Se fores agora a minha casa de certeza que tenho música a tocar”. Não concebe a vida sem a dita música e à medida que com ele vamos conhecendo os cantos e recantos do recente projeto de enoturismo da quinta minhota percebemos que não brinca em serviço. Há sempre um ritmo de fundo, seja jazz, bossa-nova, pop ou rock.  Na gravação do programa “A Essência” – formato televisivo com autoria e produção da EV-Essência do Vinho, que retrata grandes protagonistas do vinho e da gastronomia em episódios semanais emitidos na RTP3 com repetições na RTP Internacional –, Pedro explica que cada casa e suíte agora disponíveis na Quinta do Ameal estão equipadas com um sistema via internet de rádios temáticas, que permite aos hóspedes ouvir o estilo musical que pretendem a cada momento, integrando-o com o terraço ou pedaço de terra mais próximo. É como que a assinatura de autor, dado que música e natureza são paixões arrebatadoras do produtor.

O enoturismo era um projeto pensado há muito, que foi sendo concretizado pormenorizadamente, sem pressas. Os alojamentos foram nascendo a partir do aproveitamento de diferentes casas antigas da quinta, devidamente integrados na paisagem exterior, com design e conforto interiores que a atualidade não dispensa. Houve dedo de arquiteto mas muito cunho pessoal de Pedro Araújo, que fez questão de percorrer vários antiquários da cidade do Porto (onde vive) à procura de peças que conferissem carácter suplementar à obra. E casos há, como algumas mesas, candeeiros e cadeiras, que nasceram da mente de Pedro e resultaram do aproveitamento de madeiras e de objetos da propriedade. O gestor que se tornou produtor, que gosta de música e de natureza, diz que partilha com a mãe, as irmãs e o irmão um certo fascínio pela temática da decoração. 

Fascínio terá sido também o sentimento do adolescente que um dia, por opção familiar para fintar momentos internos conturbados, trocou a Invicta por São Paulo. Foi e sempre manteve a ideia de regressar ao país de origem, mas fez questão de viver o quotidiano brasileiro. O Brasil é, aliás, um dos principais países de exportação dos vinhos da Quinta do Ameal e quando Pedro atravessa o Atlântico mantém a sensação de se sentir em casa. EUA, Austrália, Reino Unido, Canadá e Norte da Europa são outros mercados que, sobretudo na restauração, conhecem os vinhos do Ameal.

Quem já tem mercados e já fez marca poderia agora limitar-se à gestão, usufruindo por estes dias da piscina exterior do Ameal. Mas, a mente inquieta que por ali paira já promete para o final do ano o primeiro espumante Ameal, um special cuvée de Arinto loteado com Loureiro, vertido para 2.000 garrafas. O vinho base deste espumante soma um estágio de 10 anos. Em 2017, a área de vinha aumentará de 12 para 14 hectares, mas o Loureiro será sempre a estrela maior, qual solista numa orquestra. 

 

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