Herdade Vale d’Évora: A diferença da origem

Fotografia: Fabrice Demoulin
Célia Lourenço

Célia Lourenço

Mértola é um destino de caça por excelência. E a chegada de Paulo Alho, natural de Sesimbra, com atividade profissional na construção civil, aconteceu exactamente com a caça. Em 2007, compra uma propriedade e, algum tempo depois, pensa na hipótese de aliar um outro gosto pessoal à actividade cinegética, o vinho.


A Herdade do Vale d’Évora fica a poucos quilómetros da vila de Mértola e está inserida no Parque Natural do Vale do Guadiana. Tem uma área de 550 ha e é um couto de caça selvagem. A vinha, plantada em 2010, tem uma área de 10 ha, com castas tintas e brancas. Touriga Nacional, Touriga Franca, Alicante Bouschet e Syrah, nas primeiras. Antão Vaz, Verdelho e Arinto, nas segundas. A paisagem é selvagem, com escassez de água constante. A topografia da herdade estende-se entre zonas mais planas e sobe por encostas abruptas, com mato e fauna autóctone que vai das lebres e perdizes, ao javali e aos gamos. Uma família de oito burros vive livremente na herdade e é normal encontrá-la quando passeamos.

O nosso anfitrião, Miguel, filho de Paulo Alho, é o diretor executivo, apoiado por toda a família e por Nuno Vieira Martins, gestor de projeto. Em 2012 produzem-se os primeiros vinhos e, pela referência literal a uma sub-região do Alentejo, Évora, não foi possível o uso do nome da herdade na marca. Depois de várias conversas infrutíferas, é a mãe de Miguel que lança a pista com a interjeição “tem sido tão complicado arranjar o nome… tem sido uma discórdia!”. Os vinhos do Vale d’Évora encontram no nome Discórdia a unanimidade que procuravam (!) e são comercializados.

Já em 2016, junta-se um novo sócio, Vítor Pereira, engenheiro civil e amigo de Paulo Alho, igualmente caçador e apreciador de vinhos. E é no ano seguinte que Filipe Sevinate Pinto assume a enologia, até essa altura a cargo de Diogo Lopes. Desde a plantação da vinha que acompanhava o projeto à distância e na vindima de 2017 vê o seu caminho cruzar-se definitivamente com os vinhos Discórdia. Diz-nos que tem raízes alentejanas e sempre se sentiu atraído pela diversidade do Alentejo. Mértola é um diamante em bruto que Filipe não quer polir demasiado. Encanta-o o sul árido, selvagem, de encosta e de dificuldade que Mértola oferece. Os solos pobres, a falta de água, o lado bruto, tudo isso faz parte da existência destes vinhos. O enólogo diz-nos que são vinhos onde o factor “origem” está muito presente. Muito mais que o lado varietal que possam ter. Esse lado selvagem da proveniência sobrepõe-se em absoluto. São vinhos quentes, cheios, gulosos, com concentração. Só podiam ser, perante a terra que pisamos, o ar que cheiramos, o calor que sentimos e o silêncio que ouvimos. Várias colheitas, várias vinificações ao longo destes anos e já se insinua essa evidência. O sítio dá a personalidade.

A prova dos vinhos que fizemos na Herdade do Vale d’Évora mostrou-nos que autenticidade, aqui, não é figura de estilo. Não há excessos, ao contrário do que poderíamos antecipar ao percorrer estas terras. Os brancos surpreenderam pela fruta muito limpa e pela energia que emanam. Dão grande prazer e evoluem bem, como comprovámos com o 2015. “Vinhos com uma boa simplicidade” foi uma frase de Filipe Sevinate Pinto que registei e que me pareceu uma ótima análise. Quanto aos tintos, começámos no 2017 e recuámos a 2014. Têm uma robustez muito particular, que surpreende pela alegria. São vinhos quentes, só podiam ser. Neles sente-se o xisto, o mato rasteiro, a estrutura. São aromáticos e têm carácter.

Já falámos da escassez de água, condição natural de Mértola com a qual se aprende a lidar. Miguel Alho diz-nos que é uma das maiores dificuldades da região, que exige uma racionalização quase espartana da rega, no sentido de preservar ao máximo os recursos (a herdade tem uma reserva de água com capacidade de resposta para dois anos). Estas vinhas existem numa das zonas mais quentes do país, em solos muito pouco produtivos. Desde cedo, são resilientes e desenvolvem uma capacidade única de adaptação. Por isso mesmo, Filipe fala-nos daquilo que tem vindo a testemunhar. Apesar de não ser um dado científico, a experiência de alguns anos demonstra que esta resistência ao calor extremo é realmente única. Em anos como 2018, no qual se atingiram temperaturas históricas e o escaldão dos primeiros dias de Agosto destruiu grande parte da produção um pouco por todo o país, curiosamente a situação que se viveu nas vinhas da Discórdia não foi dramática. O calor durante o ano tinha sido abundante e as plantas estavam a reagir e a adaptar-se há muito. A sua resistência mostrou-se muito superior. Houve perdas, mas nada comparável às zonas mais frescas, onde as uvas e as folhas estavam mais viçosas e mimosas.

Todas estas condições naturais tão duras exigem também uma atenção redobrada e um acompanhamento muito próximo das maturações, com grande rigor nas decisões dos momentos de vindima. Toda a equipa nos diz ser este o elemento-chave para o resultado serem vinhos tal como os provámos.

Em Miguel Alho intuímos uma timidez que toca a humildade. Percorremos a propriedade e percebemos orgulho sincero na riqueza daquela paisagem única. O contraste entre a aridez e a presença incansável do Guadiana tem uma grandiosidade que impressiona. A Herdade do Vale d’Évora tenta tirar partido de toda esta riqueza e num futuro muito próximo está planeado o desenvolvimento de turismo rural. Se os vinhos e a actividade cinegética já se complementam, parece haver uma janela de oportunidade imperdível, ou seja, oferecer estadia aos caçadores. Além do mais, há uma notória escassez de oferta de infra-estruturas de turismo de qualidade na região. O hotel virá juntar-se à produção de vinho e à caça, à produção de cereais, aos pinheiros e azinheiras, ao medronho e às ovelhas. Quanto à adega para os vinhos da Discórdia, Miguel Alho diz-nos que preferem não dar passos maiores que as pernas. Por enquanto, as cerca de 50.000 garrafas anuais continuarão a ser vinificadas em Beja e a construção de adega própria, que até já tem o sítio e a filosofia de projecto bem definidos, será concretizada a médio prazo.