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Na estrada do vinho com Diogo Lopes

Fotografia: Fabrice Demoulin
Guilherme Corrêa

Guilherme Corrêa

Viajamos por cinco regiões vinícolas com um dos mais talentosos enólogos da nova geração de Portugal, através de dez vinhos que marcaram a sua trajetória de sucesso, e que refletem centenas e centenas de quilómetros percorridos todos os anos à procura de autenticidade e precisão.

 

 

Diogo Lopes personifica essa nova geração de enólogos de Portugal que viajou pelo mundo, prova vinhos de todos os continentes, é extremamente curioso, alia a técnica à emoção para revelar o que o país tem de melhor, e lança-se à descoberta das suas novas fronteiras vínicas. 

É um prazer dividir a mesa com este enólogo, seja em provas técnicas ou informais, pois também é um excelente garfo, para além do virtuosismo com os copos. Talvez porque goste tanto de praticar a harmonização vinho-alimento, a sua predileção pelos vinhos brancos foi-se tornando indissimulável ao longo dos seus 15 anos de carreira. Sem esquecer que Diogo foi o braço direito de Anselmo Mendes em vários projetos, o “mestre Jedi”, como se lhe refere com humor e deferência, um herói pioneiro dos grandes brancos de Portugal, de quem recebeu o treino para procurar a “força” do terroir com a precisão e pureza de um sabre de luz.
Nascido em Lisboa em 1978, ganhou gosto pelo campo nas visitas à terra do avô entre a Beira Alta e a Beira Baixa. A opção pela Agronomia foi tão natural como a sua posterior formação em enologia, não sem antes passar por um teste de resiliência com o seu mestre e futuro grande amigo. Conheceu Anselmo Mendes numa feira de vinhos em 2001. Na altura, foi aconselhado a, para ter certeza do caminho a trilhar, deveria submeter-se a uma vindima completa ao seu lado. Fê-la nos Vinhos Verdes, uma epifania que selou o seu destino.


Em 2003, Diogo partiu para Napa Valley, meses intensos de aprendizagem e novos paradigmas sobre como empregar a enologia e encarar o vinho. No regresso assume um novo desafio do mestre Anselmo em Cabeção no Alentejo, o Grou da Sociedade Agrícola do Vale de Joana, adega de vinhos muito promissores, mas cujo projeto infelizmente não vingou. Esses primeiros cinco anos da sua carreira de enólogo foram marcados pelo experimentalismo, pela volta a Portugal “com aquela vontade de mudar o mundo”, de “aprender o que não sabemos”, de balancear as estruturas. Permaneceu como enólogo residente até 2010 no Grou e, ao conhecer cada vez mais o Alentejo, passou a colaborar com o produtor Herdade do Menir e assinar um “ícone tímido” da região, o Vale de Ancho.

Pequeno grande país 

A segunda fase da carreira de Diogo Lopes veio em 2010 com a criação da AdegaMãe pelo forte grupo Riberalves, participando com Anselmo Mendes na concepção do projeto, da construção da adega, no plantio das vinhas e definição da linha de vinhos a elaborar, de modo a trazer uma nova dinâmica à região de Lisboa. “A experiência que mudou a minha vida”, segundo um mais viajado e experiente Diogo. Uma visita à adega é obrigatória a qualquer enófilo, não somente pelo impecável enoturismo que oferece, e talvez o melhor bacalhau que irá comer dessa família de especialistas, mas pelos vinhos em si, cada vez melhores e mais autênticos no seu terroir atlântico. Na Adega Mãe, Diogo teve todo o apoio e recursos para desenvolver ao máximo a sua técnica e talento. Percebeu ao longo destes anos que o terroir vem antes das castas e métodos. 

No uso de madeiras diferentes, por exemplo, levou os testes até à exaustão, paralelamente com o trabalho do mestre na sua adega de Monção. Pude com o Diogo visitar florestas de carvalho e tanoarias em França, em 2018, e foi uma experiência fascinante aprender com ele que, quanto mais conhecemos profundamente todas as variáveis envolvidas e os pormenores do seu uso, mais transparente é o efeito final no vinho.
Ainda nesta fase intermediária da carreira, debutou em 2010 um projeto enológico “solo”, ao lado dos amigos Vasco Magalhães e Carlos Coutinho, este a sétima geração da família proprietária da bela Quinta de Guimarães na sub-região de Baião do Vinho Verde e que detém a maior mancha contínua plantada de casta Avesso. Os vinhos Cazas Novas ambicionam serem embaixadores desta casta peculiar na sua expressão herbácea e mineral. 

Do granito de Baião para o magma de Biscoitos em 2011, a verve de Diogo foi fundamental para levar o mestre Anselmo Mendes a investir com ele na recuperação da adega cooperativa local. Estivera lá em 2009 a visitar um amigo na Terceira, e ficou completamente estupefato ao sentir o potencial da casta Verdelho naquelas vinhas dramáticas, encurraladas por muros de pedra vulcânica negra e açoitadas pelo aerossol de maresia do Atlântico. Após resolverem as questões económicas que inviabilizavam a produção, entre elas o baixíssimo valor pago aos produtores de uva que desestimulava o seu cultivo naquelas condições de trabalho hercúleo (o preço saltou de 0,60€ o quilo para 3,50€ na parceria atual), em 2015 surgem os primeiros vinhos Magma, reveladores ao mundo do carácter explosivo singular daquele terroir de exceção.

Fase três, e a seguir?

Agora o ainda muito jovem Diogo Lopes está cada vez mais pronto e forte para viver a terceira fase da sua tão promissora carreira enológica, a encarar projetos totalmente pessoais, ainda que a imagem do mestre sempre esteja a iluminá-lo para trilhar os melhores caminhos. Nos últimos dois anos assumiu um desafio grandioso no Douro, na Kranemann Wine Estates, onde poderá realizar um dos seus sonhos de fazer Vinho do Porto, e também dois outros no Alentejo: na Vidigueira, a Herdade Grande do seu amigo e respeitado agrónomo António Lança e, no Redondo, a promissora Herdade do Freixo.

Não lançado ainda para o mercado é o resultado de um projeto minúsculo e de excecional qualidade de “vinho de terroir Atlântico” em Melides; e é difícil de imaginar que ele pare por aí. O vibrante enólogo relatou no seu imperdível blogue que percorreu mais de 2.000 quilómetros na última vindima para coordenar os seus sete projetos em operação, em cinco regiões diferentes. Como um apaixonado por vinhos brancos, diz-se encantado pelas castas Arinto e Viosinho. Das regiões que ainda não trabalha em Portugal, confessou que sonhava com um retorno vínico às origens familiares, na Beira Interior. E se pudesse fazer vinhos fora do nosso país, Diogo elegeria hoje as encostas íngremes de granito ou xisto da Ribeira Sacra em Espanha ou os solos vulcânicos, dos quais tanto gosta, da ilha de Santorini na Grécia. Espero que poder lá estar e dividir com ele uma mesa com vinhos de terroir, boa comida, conhecimento e alegria.