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Os vinhos de “boutique” de Henrique Cizeron

Fotografia: Ricardo Garrido
Luís Costa

Luís Costa

Há vinhos que se distinguem pela sua singularidade, por serem diferentes, pelo seu lado artesanal. São vinhos de produção escassa, vinhos de pormenor, que primam pelas suas características únicas – ou, pelo menos, que diferem do padrão dominante das regiões vitivinícolas a que pertencem. São vinhos de “boutique” que nos deixam a sua impressão digital, que nos ficam na memória, que nos despertam a curiosidade. E que, não raras vezes, nos surpreendem. 


Os vinhos de Henrique Cizeron enquadram-se neste perfil, com destaque para o Cinética Loureiro e Arinto, um muito interessante vinho da região dos Vinhos Verdes – a estreia, aliás, de Henrique Cizeron na região – que não se limita a conjugar na “assemblage” duas das mais interessantes castas brancas portuguesas, no registo habitual que evidencia o seu carácter floral, cítrico, fresco e jovial. Apesar do preço muito acessível (PVP 11 euros), este exemplar dos Vinhos Verdes tem uma tonalidade dourada, nariz exótico, notas fumadas, perfil oxidativo (a que não é estranho o recurso parcimonioso a sulfuroso), boca com alguma amplitude (que se explica pela “batonnage” intensa ao longo de oito meses), um toque de especiarias que decorre, certamente, da fermentação em barricas de madeira usada. Ou seja, características “out of the box”, a tal singularidade que nos fica na memória.

Igualmente singular é o seu vinho branco do Douro, de que provámos a colheita 2017, feito com uvas de vinhas velhas com cerca de 90 anos localizadas em solos de xisto da aldeia de Soutelinho. Um branco que teve curtimenta de três dias em cuba de cimento antes de fermentar em barricas usadas, com “batonnage” moderada, a que se seguiu um estágio de 12 meses em barrica – e mais um ano em cuba antes do engarrafamento.

Ainda no Douro, destaque para um outro vinho que provámos nesta visita ao universo da Cizeron Wines – um lote de Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Vinhas Velhas, que resulta de pisa em lagar e estágio de 12 meses em barrica usada, mas que esteve a repousar na adega até ser lançado em 2018.


Da Nova Zelândia aos Verdes


Fomos ao encontro de Henrique Cizeron à freguesia famalicense de Cavalões, na estrada que liga Vila Nova de Famalicão a Vila do Conde, poucos quilómetros a norte do Porto. É ali que ficam os vinhedos que arrendou na Quinta da Devesa para fazer os seus vinhos da região dos Vinhos Verdes. Isto porque Henrique Cizeron também faz vinhos no Douro, como já vimos, e – por estranho que possa parecer – na Nova Zelândia, literalmente do outro lado do mundo.

Veterinário de profissão, Henrique Cizeron descobriu o vinho – e a enologia – como paixão complementar, já lá vai dezena e meia de anos. Embora o seu pai seja natural de Côte-Rotie, famosa denominação de origem francesa do vale do Ródano, nada no seu contexto familiar o empurrava para o mundo do vinho. Ou seja, foi uma descoberta, e um caminho, que trilhou pelo seu próprio pé.

Depois de algumas vindimas em diferentes regiões da Nova Zelândia, foi por aquelas paragens longínquas que Henrique Cizeron apostou na criação da marca própria Toroa – nome do albatroz em dialeto “maori” – cujo primeiro Riesling corresponde à colheita de 2010.

Em Portugal começou por fazer vinhos no Douro, mas o apelo das raízes acabou por trazê-lo também para os Vinhos Verdes: “Cresci aqui, e por isso achei que podia desenvolver aqui parte do meu projeto, que é um projeto-boutique, uma coisa muito pequenina. Procurei valorizar a região, usando técnicas de vinificação diferentes e procurando a uva adequada a essas técnicas. Mas respeitando sempre o que existe nos Vinhos Verdes – porque aqui há frescura, há verdura, há acidez”.

O próprio enólogo e produtor explica-nos qual a filosofia que preside aos seus vinhos que nascem neste pedaço da freguesia famalicense de Cavalões: “Eu já vinificava noutras regiões e encontrei aqui aquilo que procurava nos Vinhos Verdes para fazer vinhos diferenciados, em pequena quantidade, inspirados noutras regiões do mundo, como sejam os vinhos do Loire, designadamente de Sancerre ou de Pouilly-Fumé, com a componente aromática e o aspeto da borra, na busca daquela adstringência que a borra fina empresta ao conjunto. Quando terminei a licenciatura em Medicina Veterinária já tinha o apelo do vinho e interessei-me pelas noções de “terroir”. Já tinha algumas bases teóricas de pós-graduações em viticultura e enologia, mas precisava de alguma prática. Por isso larguei um bocadinho tudo e fiz uma viagem à volta do mundo. Trabalhei em vindimas em várias regiões e decidi então fixar-me em duas que são relativamente opostas: a zona de Central Otago, na parte sul da Nova Zelândia, e o Douro. Foi nesta antítese que se baseou o meu projeto. Os Vinhos Verdes vieram por acréscimo, pois achei que seria divertido dar o meu contributo a esta “onda” que está a ser criada por uma nova geração de produtores, enólogos e pensadores desta região”.

No entanto, Henrique Cizeron faz questão de sublinhar que não tem nada contra o perfil mais tradicional da região dos Vinhos Verdes, “bem pelo contrário”, pois representa “a originalidade das culturas do noroeste de Portugal”.

O próximo passo na atividade vitivinícola deste médico veterinário convertido ao mundo do vinho é basear em Portugal a distribuição de todos os seus vinhos, incluindo os que produz do outro lado do mundo. E os primeiros exemplares a fazerem a longa viagem desde a Nova Zelândia até Portugal já chegaram a terras lusas. São três varietais que prometem satisfazer a curiosidade dos consumidores pelo projeto da Cizeron Wines: um Pinot Noir 2014; um Riesling, também da colheita 2014; e um Gewurtztraminer 2019.

Com vendas em Portugal, Austrália e Nova Zelândia e uma “boutique” que já alberga perto de cinco mil garrafas/ano, Henrique Cizeron tem uma certeza… e uma convicção: “Já não sou um produtor de fim de semana. Todos os dias há coisas para fazer. Provavelmente, acabarei por ter de deixar a medicina veterinária”.