Quinta do Espinho, entre Douro e Távora

Fotografia: Ricardo Garrido
Luís Costa

Luís Costa

É um projeto verdadeiramente familiar que se espraia pelos 20 hectares da bonita Quinta do Espinho, em plena EN 222, no preciso local onde a foz do rio Távora encontra as águas do Douro. Propriedade da família Macedo Pinto há várias gerações, é hoje liderada por Joaquim de Macedo Pinto Peres Ventura, um homem com sólidas raízes durienses que viveu a infância no Porto mas que em 1950 foi viver para Lisboa com a sua mãe Noémi. 


Joaquim de Macedo Pinto Peres Ventura fez o seu percurso profissional na área da banca – designadamente no Banco de Comércio e Indústria, hoje Banco Santander, onde permaneceu como administrador executivo até meados dos anos 90 –, depois de se ter especializado nos EUA em engenharia de sistemas, e nos anos mais recentes abraçou o projeto da Quinta do Espinho de forma determinada.

Para além do pai Joaquim, o triângulo familiar da Quinta do Espinho completa-se com os filhos Patrícia, a “front woman” do projeto que é especializada em Marketing e licenciada em Comunicação Empresarial, e Pedro Almeida Peres, que trata das vendas. Mesmo o enólogo, o francês Jean-Hugues Gros, que abraçou a região do Douro há duas décadas, já parece fazer parte da família, tal a cumplicidade que tem mantido com os donos da Quinta do Espinho desde que os conheceu nos tempos em que trabalhou na Quinta do Convento de São Pedro das Águias.

Somos recebidos à entrada da propriedade, mesmo juntinho à confluência do Douro com o Távora, por António André – o cuidador permanente da Quinta do Espinho, ou o “patrão” da terra, como gosta de lhe chamar Joaquim de Macedo Pinto Peres Ventura – e também por Patrícia, filha de Joaquim, ou não fosse ela o rosto da Quinta do Espinho. É ela que nos dá as primeiras indicações de reportagem: “O meu pai herdou isto da minha avó. Os Macedo Pinto são de Tabuaço e tinham quintas pelo Távora abaixo até à foz do rio. Eram seis irmãos e diversas quintas, tudo para Vinho do Porto. Até que o meu pai herda isto em meados dos anos 80”.

Com a Quinta Nova Nossa Senhora do Carmo e a Quinta do Crasto mesmo em frente, na outra margem do Douro, a Quinta do Espinho é um bom exemplo da revolução vitivinícola que transformou o Douro, para muito melhor, nas últimas quatro décadas. Nesses primórdios, mais concretamente a partir de 1985, o investimento e as prioridades centraram-se no processo de reestruturação e plantação da vinha. “Quando começámos a fazer vindimas, tínhamos uma parceria com a Quinta do Convento de São Pedro das Águias, que era de uma senhora francesa, a Madame Morisette, que tinha trazido com ela um enólogo francês, Jean-Hugues Gros. Nessa altura, limitávamo-nos a vender-lhes as uvas com o benefício para eles fazerem Vinho do Porto. Mas depois começaram a surgir os projetos de vinhos DOC no Douro e nós também fomos por esse caminho”, conta-nos Patrícia à medida que nos conduz para o interior da pequena adega da Quinta do Espinho, cuja reestruturação teve lugar em 2010 e hoje proporciona três cubas de fermentação e três lagares tradicionais em granito, todos eles com sistema de frio, o que permite a pisa pé de todas as castas plantadas e vinificadas na Quinta do Espinho – com predominância de Touriga Franca, mas também Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Barroca, Tinta Francisca, Alicante Bouschet e Tinto Cão.

Já no miolo da quinta, rodeados por vinhas muito bem tratadas e com vistas deslumbrantes em várias direções – quer para o lado do Douro quer para o lado do Távora, uma vez que a Quinta do Espinho tem a particularidade de ser abraçada pelos dois rios – junta-se à visita Joaquim de Macedo Pinto Peres Ventura, cujas raízes familiares no Douro remontam ao século XVIII: “O Douro é muito isto, são projetos familiares que vêm de trás, que têm alguma solidez na retaguarda, com muitas dezenas e centenas de anos”.

Foi esse enquadramento familiar e as sólidas raízes durienses que lhe deram condições para avançar com o projeto da Quinta do Espinho a partir de 1985. Mas nada disso teria sido possível sem o catalisador contexto histórico dessa época, quer no Douro quer no país, que Joaquim de Macedo Pinto Peres Ventura sintetiza de forma exemplar: “Nessa altura, não era famosa a qualidade do vinho de mesa que se fazia aqui no Douro. Tudo mudou com a UTAD [Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro], com os fundos europeus, com as novas tecnologias, com os Douro Boys, com a vontade dos durienses de verem alterada toda esta estrutura, toda esta região maravilhosa. Assim acabámos por ter um Douro que é um “dois em um” – Vinho do Porto e vinhos DOC – que é onde estamos hoje”.

No Vinho do Porto, a Quinta do Espinho mantém hoje em dia uma parceria com a Taylor’s, que se traduz também em apoio técnico, aconselhamento e orientação. Mas a sua aposta estratégica e prioridade são os vinhos DOC, com uma produção anual de 80 mil garrafas, das quais 40 por cento vão para o mercado da exportação – essencialmente Suíça, Alemanha, Bélgica, Japão e Brasil.

Joaquim de Macedo Pinto Peres Ventura quer atingir o patamar das 120 mil garrafas, não mais do que isso, e mostra saber bem por onde quer levar a sua Quinta do Espinho: “Eu penso que é neste tipo de projetos que está a grande riqueza do Douro. Aqui produzimos vinhos de quinta, os vinhos são nossos e são feitos com as nossas uvas, ao contrário de muitos outros que – sem prejuízo de terem a sua qualidade – são projetos de índole industrial, mais virados para a quantidade do que para a qualidade. Sendo o Douro uma região relativamente pequena, mas que tem de competir com outras regiões vitícolas no mundo inteiro, eu considero que a melhor solução é apostarmos na qualidade, nos nossos vinhos, nas nossas castas, com o nosso produto, com a nossa identidade”.

A acompanhar a família da Quinta do Espinho desde o início desta aposta nos vinhos DOC está o enólogo francês Jean-Hugues Gros, graças à cumplicidade que se estabeleceu entre eles desde há 20 anos, quando os seus caminhos se cruzaram na Quinta do Convento de São Pedro das Águias, como já relatámos. É com ele que nos despedimos desta visita à Quinta do Espinho, cujo terroir o enólogo enaltece porque “disponibiliza exposições mais a leste, norte e oeste e todos os anos oferece uma boa qualidade de uvas e muita regularidade das colheitas, ano após ano, com uma Touriga Franca que nesta zona é mesmo espetacular. Por isso, a nossa Touriga Franca serve de base a todos os lotes da Quinta do Espinho”.

Natural de Paris e conhecedor de regiões como Champagne, em França, ou Califórnia, nos EUA, não resistimos a perguntar a Jean-Hugues Gros qual pode ser a mais-valia do Douro em confronto com outras regiões vitivinícolas de prestígio internacional – e a resposta parece sair da boca de um duriense, em que Jean-Hugues efetivamente já se transformou ao longo de todos estes anos: “A mais-valia do Douro é poder trabalhar com vinhos de consumo e Vinhos do Porto ao mesmo tempo. Depois há muitas castas, muitos microclimas, cada parcela é diferente, o que dá variedade e complexidade aos vinhos, que é muito importante. O Douro tem tudo isto. E não temos as castas francesas que vemos por todo o lado. É por isso que somos diferentes.”

Quinta do Espinho
Cardanhos
5120-011 Tabuaço
T. 254 787 079
E. contacto@quintadoespinho.com