Empresas pedem estabilidade nos mercados

Francisco Toscano Rico, presidente da CVR Lisboa, antecipa vindima e aborda temas como tarifas e  exportações

Fotografia: Fabrice Demoulin
Manuel Moreira

Manuel Moreira

A segunda edição do Lisboa Wine Summer Moments está de regresso ao Campo das Cebolas, junto à frente ribeirinha da capital. De 31 de julho a 3 de agosto, o evento volta a reunir cerca de 30 produtores da Região de Lisboa, abrangendo concelhos como Alcobaça, Alenquer, Cadaval, Lourinhã, Torres Vedras, Bucelas e Carcavelos. A entrada é livre, sendo apenas necessário adquirir o copo oficial – disponível por 1 euro – para participar nas provas, que continuam gratuitas. Além das provas de vinho, o programa integra workshops, provas comentadas e uma área dedicada à gastronomia regional, com queijos, charcutaria, doces tradicionais e artesanato local.

Organizado pela Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa (CVR Lisboa), com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, da OesteCIM e da EMEL, o evento tem como missão reforçar a ligação entre a cidade e a sua envolvente vitivinícola.

Em conversa no primeiro dia do evento, Francisco Toscano Rico, presidente da CVR Lisboa, destaca o sucesso da edição inaugural e o reforço da ambição para este ano, “o ano passado correu muito bem. Foi a primeira vez que realizámos o evento neste espaço, e tivemos uma excelente colaboração da Câmara de Lisboa e da EMEL, que foram muito prestáveis a agilizar tudo isto.”

A grande aposta em 2025 passa por mostrar que “Lisboa é muito mais que a capital, é também uma grande região de vinhos”. Durante quatro dias, os produtores dão a provar as suas novidades e promovem os municípios do vinho, o enoturismo, a cultura, o património e a gastronomia.

“É um convite para as pessoas saírem da capital e visitarem a região, conhecerem as paisagens, os vinhos, a cultura e a gastronomia”, sublinha Toscano Rico.

A escolha da data, em pleno verão, também não é inocente, “Queremos associar o verão à nossa identidade atlântica. Lisboa é uma região ligada ao mar e quisemos juntar essas duas dimensões.”

Além do objetivo de promover os vinhos junto do público da capital e dos turistas, o evento quer contribuir para uma maior literacia vínica.
“Queremos descomplicar o consumo. Passar informação de forma diferente, divertida, descontraída”, explica o responsável. “É importante saber contar a história que está por trás de cada garrafa de vinho, o conhecimento, o território, o trabalho.”
 

Uma vindima desafiante e o contexto mundial no consumo
 

O responsável confirma a tendência de redução do consumo de vinho a nível mundial, “a Comissão Europeia apresentou no mês passado um relatório que prevê uma queda anual de 1% no consumo e nas exportações, o que é significativo.”
Toscano Rico considera que este é um dos grandes desafios para o setor, que “terá de se aproximar das gerações mais jovens”. Para isso, defende a necessidade de “descomplicar o consumo”, apostar em “mais informação” e saber comunicar “tudo o que está por trás de cada garrafa de vinho: a sua história e todo o expertise que está num copo de vinho”. Eventos como o Lisboa Wine Summer Moments são uma ferramenta para atingir esse objetivo, “passar a informação de forma diferente, divertida, descomplicada e descontraída.”

Quanto à quebra prevista na produção para este ano, sublinha que se trata de uma questão cíclica, “as oscilações são naturais, cada vindima é diferente. Este ano, uma primavera chuvosa dificultou a floração das videiras, agravada pelo míldio, o que leva a prever uma quebra de cerca de 15% na quantidade de uva.” Conclui, “faz parte do ciclo natural, ano após ano. Ainda assim, não será isso que complicará o funcionamento do setor, até porque há stocks de vindimas anteriores. A situação é encarada com naturalidade.” Reconhece, no entanto, que há desafios no escoamento, tanto nos mercados externos como no mercado interno, num contexto de pressão económica, “o custo de vida está elevado, tudo está mais caro. Não está fácil para ninguém.”
Mesmo assim, acredita que o vinho continua a ser um produto com espaço para todos, “as diferentes categorias de preço são uma oportunidade. É sempre possível encontrar, para cada um, o vinho certo para o seu posicionamento.”
 

Exportações e tarifas, estabilidade precisa-se
 

Sobre outro tema em destaque, o recente acordo comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia, que prevê a aplicação de tarifas de 15%, Francisco Toscano Rico alerta, “qualquer regra que limite o comércio mundial impacta inevitavelmente o comércio mundial.” Sublinha que, para um setor como o do vinho português, fortemente orientado para a exportação, as consequências são significativas,“tem um impacto imenso! Os Estados Unidos são o principal mercado de destino dos vinhos portugueses, e Lisboa não foge à regra.”

No caso da sua região, destaca que, “Se excluirmos o Vinho do Porto, Lisboa tem uma quota de 20% de exportações para os EUA. Impacta, obviamente, aquele que é o nosso principal destino.”
Com 80% da produção da região a ser exportada para cerca de cem mercados, há uma constante procura por alternativas. Mas, sublinha, o mais importante é garantir previsibilidade, “não é bom termos tarifas de 15%. Vamos ver se o vinho fica ou não de fora dessa medida — esperamos que sim. Se houver estabilidade nas regras, estão criadas as condições para retomar as exportações.”

Até maio deste ano, as exportações da região registavam uma quebra entre 7% e 8%, o que considera “muito”. Explica que a incerteza quanto às tarifas levou a um mercado marcado por compras pontuais, sem compromissos a médio ou longo prazo.
“Havia nervosismo por parte de quem tem de vender. A esperança agora é que, mesmo que as tarifas avancem, haja estabilidade nas regras. Isso dá previsibilidade às empresas, e é exatamente disso que elas precisam.”
Com os desafios que o setor enfrenta, eventos como o Lisboa Wine Summer Moments assumem um papel ainda mais relevante: aproximar o vinho das pessoas, valorizar os territórios e dar visibilidade a um dos principais ativos económicos da região.

O programa inclui concertos ao vivo todas as noites, entre as 20h45 e as 22h00 (exceto no dia 31, que começa às 20h00), com o encerramento diário às 23h00. O DJ Tiago F garante a animação das tardes, das 16h00 às 20h30.

Cartaz musical ao vivo:

•    31 de julho – Meninos da Sacristia
•    1 de agosto – Tributo 100 Anos de Samba
•    2 de agosto – Dee Dee & The Drum Killers
•    3 de agosto – Bia Souza Trio