O setor vitivinícola tem vindo a enfrentar uma pressão crescente por parte de campanhas anti-álcool. Para debater este tema sob o prisma da ciência, o Fórum Anual da ViniPortugal convidou António Vaz Carneiro, Presidente do Instituto de Saúde Baseado na Evidência (ISBE) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, para uma intervenção sobre "Mitos, crenças e mentiras sobre o impacto do álcool na saúde".
Numa apresentação focada na análise científica do risco, Vaz Carneiro não poupou nas palavras ao abordar o atual clima de desinformação. "Há uma indústria para assustar as pessoas. E a Organização Mundial da Saúde (OMS) lidera essa indústria", afirmou o especialista, exortando o setor a "saber contrariar" estas narrativas com base na evidência.
O médico alertou para o facto de a área da nutrição ser particularmente fértil em "mitos e falsidades", fruto de estudos complexos e difíceis de interpretar. Explicou ainda que o risco em saúde — uma noção estatística de probabilidade de morte ou doença — é muitas vezes mal comunicado.
Um dos pontos centrais da intervenção foi a distinção entre correlação e causalidade. Vaz Carneiro explicou que muitos argumentos anti-vinho baseiam-se em correlações (uma ligação estatística entre um fator e um resultado) que não implicam necessariamente uma causa direta. "Isso é manipulável", avisou, lembrando ainda que "a aleatoriedade no cancro é enorme".
Consumo Moderado vs. Mortalidade
Contrapondo o alarmismo, o médico apresentou dados que indicam que uma ingestão leve a moderada acarreta um risco muito pequeno. Mais do que isso, sublinhou que os estudos, embora por vezes contraditórios, mostram frequentemente que "um consumo baixo e moderado de álcool está ligado a uma diminuição da mortalidade", ao contrário do consumo elevado.
Para balizar o que é o consumo moderado, o especialista apontou para os 10 a 15 gramas de etanol puro, o equivalente a um copo normal de vinho. As recomendações gerais apontam para uma bebida padrão diária para as mulheres e duas para os homens.