ViniPortugal antevê 'ano difícil' em 2026

O Fórum Anual da ViniPortugal 2025, realizado em Almeirim, ficou marcado por alertas sobre a quebra histórica no consumo e pelas críticas à Organização Mundial da Saúde.

Fotografia: Pedro Costa
Luís Alves

Luís Alves

Foi num espaço reabilitado pelo município de Almeirim, antiga "casa do vinho" e atual espaço multiusos do IVV (Instituto Valências Variadas), que o setor vitivinícola nacional se reuniu para o Fórum Anual 2025 da ViniPortugal. O tom foi de cautela e combate, com Frederico Falcão a abrir a sessão com avisos claros sobre os desafios que se avizinham. "A OMS tem uma agenda política. Não é uma organização técnica", declarou Frederico Falcão na sessão de abertura, relembrando posições passadas da organização sobre o azeite e os seus "supostos malefícios" para traçar um paralelo com a atual pressão sobre o consumo de vinho.

Para o responsável, o setor tem de "ouvir a ciência" para se defender dos ataques de que tem sido alvo.

Consumo em mínimos de 1961 e a incerteza da PAC

As previsões económicas apresentadas não foram animadoras. "O nosso mercado nacional não está a passar um bom momento e 2026 será um ano difícil", admitiu Falcão, apontando para uma diminuição global do consumo, que atingiu os valores mais baixos desde 1961, segundo dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho. O presidente da ViniPortugal destacou que o excesso de stocks deixará de ser uma realidade em breve, fruto de um "grande arranque de vinhas" a que se tem assistido no mundo, relembrando que Portugal é, estruturalmente, deficitário na produção de vinho.

A preocupação estende-se ao financiamento futuro, com as negociações da Política Agrícola Comum (PAC) pós-2027 em curso. "A previsibilidade das verbas deixa de existir porque deixamos de ter estes pacotes", alertou, pedindo atenção e diligência ao setor.

No plano da promoção, a aposta passa por uma articulação crescente com as Comissões Vitivinícolas Regionais (CVR) e pela valorização internacional, destacando-se a realização do Concurso Mundial de Sommeliers em Portugal no próximo ano e o fortalecimento da ligação aos cursos WSET.

Restauração inflaciona preços

Maria João Real Dias, Diretora do Departamento de Estudos e Apoio à Internacionalização do IVV, trouxe os dados concretos do mercado, marcados por uma tendência pós-pandemia: o consumidor está disposto a pagar mais por vinho certificado.
No entanto, o setor enfrenta desafios na recolha de dados, uma vez que as estatísticas de vendas entre janeiro e setembro de 2025 não incluem o grupo Jerónimo Martins, devido a uma "decisão unilateral do grupo" em não partilhar informação. Ainda assim, os dados disponíveis mostram descidas ligeiras em volume, mas uma subida nos preços médios, impulsionada pela restauração. "A restauração tem praticado preços excessivos", notou a responsável, apontando para uma média de 8 euros por litro neste canal.

No que toca às preferências, o vinho tinto continua a prevalecer, mas o vinho branco registou uma "subida relevante" de 11% em valor.

Exportações: O "ressurgimento" de Angola

Portugal mantém-se entre a elite mundial, ocupando o 7.º lugar em volume e o 9.º em valor nas exportações, que cresceram 65% desde o ano 2000, focando-se cada vez mais nos segmentos de preço médio e alto.

A grande surpresa dos dados apresentados foi o regresso de Angola ao topo, liderando o top 5 em volume com 31 milhões de litros exportados. O Brasil também marca presença neste lote de principais destinos. Nos mercados tradicionais, o cenário é misto. Os EUA, principal importador mundial, registaram uma diminuição nas importações de vinho português em volume, valor e preço médio face a 2024, penalizados por taxas alfandegárias e um contexto político-económico desfavorável. Já o Reino Unido, segundo maior mercado, viu o valor e o preço médio subirem, apesar de uma ligeira descida em volume. A Alemanha confirma a tendência de queda nas importações mundiais que se verifica desde 2021.