Casas do Côro - celebração do granito

Fotografia: Ricardo Garrido

Andar pela vila de Marialva é como passear no tempo. As ruas e casas de pedra invocam uma época sem retorno e convidam ao relaxamento e à reflexão. Como que uma celebração do granito. É exatamente nesta vila mágica e repleta de história que Carmen e Paulo Romão edificaram um sonho. Revitalizaram a zona e construíram um dos mais originais empreendimentos hoteleiros não apenas de Portugal, mas da Europa: as Casas do Côro.

 

 

 

A antiga cidade de Aravor foi fundada pelos túrdulos no século VI a.C. Situada numa eminência rochosa sobranceira aos campos da Devesa, foi conquistada pelos romanos e tornou-se um importante ponto de confluência. Por lá também passaram os godos, depois os árabes. Até que D. Fernando Magno de Leão a reconquistou em 1603, rebatizando-a de Marialva. Hoje em dia, a aldeia - uma das mais charmosas de Portugal - faz parte do concelho da Mêda. Aqui, Carmen e Paulo Romão edificaram um sonho, pedra a pedra, casa a casa, chamado Casas do Côro.


Trata-se de um conjunto de casas históricas revitalizadas e magistralmente decoradas onde tudo está milimetricamente pensado para proporcionar ao hóspede uma experiência única, inesquecível e irrepetível. Mas chegar ao que hoje são as Casas do Côro não foi fácil. “Tenho até dificuldades em explicar como começou, porque foi tudo muito irracional, completamente fora do que era a nossa vida”, conta Paulo Romão. “Ao longo destes quase dezanove anos, todo o envolvimento, todo o entusiasmo e todo o contágio acabaram por mudar a nossa vida, pessoalmente, familiarmente e em termos de rotina, justamente por se tratar de um projeto com um envolvimento pessoal muito forte”, complementa. 
“Começamos com seis quartos e fomos crescendo. A grande filosofia do projeto tem a ver com a nossa costela empreendedora. Na altura, ainda antes de saber o que queríamos fazer, garantimos a viabilidade imobiliária do projeto. Mesmo sem ter a certeza do que faríamos, sabíamos que queríamos ter um empreendimento muito privado, na zona mais emblemática junto ao castelo. Portanto, a alavanca do futuro que nos permitiu evoluir e criar todas as valências de um hotel, como temos hoje, foi garantir todo o território à volta do núcleo central”, explica Paulo.


Outro ponto importante na evolução das Casas do Côro foi a paciência. Saber esperar é uma virtude ao alcance de poucos. E entender o tempo próprio que cada ideia tem para crescer e florescer é um talento que faz toda a diferença e define o resultado entre o sucesso e o fracasso. Até porque, mesmo quando se pede um pouco mais de calma, a vida não para. Mas Carmen e Paulo tiveram sabedoria suficiente para perceber que estavam sentados em algo muito especial. “Crescemos de forma natural, até devagar. Mas o facto é que crescemos de seis quartos para 31, temos um conjunto de atividades que incluem um barco próprio no Douro, piquenique nas vinhas, programas de adrenalinas e caminhadas, além de todas as valências mais convencionais. Mas, fundamentalmente, o projeto ancorou-se desde o início numa filosofia de intervenção fora do normal, em que o hóspede sentir-se-ia em casa, mesmo não estando na própria casa, sem a pressão de um hotel convencional e ao mesmo tempo, assente em experiências irreverentes”, enumera.


Pese toda a história que transpira em Marialva, para além das atividades e do clima envolvente que reina nas Casas do Côro, o projeto procurou ainda outras valências que só fizeram contribuir para o ineditismo da experiência: gastronomia e vinho, aproveitando a sapiência e o gosto de Carmen pelos temas da mesa. “Foi uma cadeia de valor que se acrescentou desde o primeiro dia, mas sempre a evoluir, tanto que hoje somos bastante conhecidos pela qualidade da nossa gastronomia”, revela Paulo. 

A história do vinho

Já o vinho não nasceu desde o início. Na verdade, foi apenas alguns anos depois, quando o hotel era referência em Portugal, que a vocação vitivinícola das Casas do Côro aflorou. E, como não poderia deixar de ser, tudo andou de forma natural, quase orgânica. “O vinho aconteceu de forma totalmente oposta ao que fazemos aqui habitualmente. Normalmente, um produtor de vinho sente a necessidade, depois de algum tempo, de criar alguma condição de alojamento. Aqui, foi precisamente o contrário. Nós somos manifestamente hoteleiros, esta é a nossa vocação. Mas por estarmos na zona de transição entre a Beira Interior e o Douro Superior, onde o xisto começa a mudar para o granito, e dada a convivência com as pessoas do vinho, levou-nos a aproveitar o nosso potencial, agirmos de forma quase irracional, colocando o coração à frente da razão, comprar terra, plantar e produzir os nossos próprios rótulos”, explica.


Mas a ligação direta com a produção começa com a visita de um hóspede ilustre. “Nunca me esqueço desse dia: o meu hóspede, que na altura eu ainda não conhecia, era o Dirk Niepoort, que chegou com os dois miúdos, o Daniel e o Marco, ainda pequeninos, a sair do Lexus descalços. Poucas horas depois, o Dirk já estava a tirar garrafas especiais da mala do carro. Começou ali a nossa relação. Por já ter experiência em fazer vinho nesta região e conhecer a fundo o potencial da Beira Interior, esta altitude e este granito, pediu-me que mostrasse as vinhas aqui à volta. Fomos. E ele disse: começa a comprar estas uvas que eu faço o teu vinho. E foi assim o nosso início”, conta Paulo. O sucesso foi tal que, nos últimos sete anos, Paulo Romão e a equipa plantaram sete hectares de uvas para vinhos brancos. E ainda houve espaço e fôlego para plantar algumas vinhas de Rufete para a produção de vinho tinto. Hoje, as Casas do Côro possuem um total de 11 hectares de vinhas próprias. Além destas, Paulo compra uvas de vinhas velhas de viticultores locais.


O perfil dos vinhos é bastante peculiar. Têm carácter, estilo e qualidade. Mas não são, necessariamente, consensuais. “Os nossos vinhos são diferentes. Quisemos desde sempre assumir o nosso perfil. Não estamos preocupados com o mercado nem com o que as pessoas dizem. Quisemos transferir para o vinho a diversidade que aqui temos; para isso, rodeamo-nos das pessoas que julgamos serem as melhores para o nosso projeto”, conta Paulo. “Começamos com três vinhos. E, ao contrário do que é habitual, com três topos de gama. Quando começamos a vender com a nossa pequena rede distribuidora, percebemos que havia uma lacuna. Ficou claro que não poderíamos fazer marca apenas com o topo da pirâmide”. Portanto, o grande objetivo da colheita de 2018, a primeira feita com Carlos Raposo (ex-enólogo da Niepoort), foi criar três entradas de gama, sempre com o mesmo padrão de excelência, tanto no vinho como na imagem: um branco, um rosé e um tinto. “Registamos a marca Entrada, pelo que estes vinhos vão chamar-se Entrada das Casas do Côro”, refere.


Vinho, gastronomia, natureza, história, experiência, reflexão. São muitos os atrativos das Casas do Côro. Mas para este ex-piloto de automóveis, que conversa com a velocidade de quem ainda encara as curvas dos autódromos do mundo, o principal é que o hóspede saia de lá com um sorriso no rosto. “A nossa missão é fazer as pessoas felizes. Por isso criamos um programa, que lançaremos este ano, que nada mais é do que um passeio pela vinha. Onde a pessoa pode relaxar, refletir e viver, literalmente, o lugar. Quase como se pudesse banhar-se nas vinhas. E ainda teremos o ‘secret spot’ das Casas do Côro, que acreditamos ser a grande ideia de 2019, que consiste em quatro camas em quatro sítios completamente secretos, no meio do nada, onde convidamos os hóspedes a irem por duas ou três horas ao final da tarde, com uma garrafa de vinho e um cesto de frutos, para aproveitarem toda a natureza e tudo aquilo que temos à volta”, adianta. Afinal, de que vale a vida se não for para sermos felizes? 

 

TEXTO Alexandre Lalas e Nuno Guedes Vas Pires


Casas do Côro
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