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Argilla Wines: vinhos de terra e terroir

Fotografia: Fabrice Demoulin
Guilherme Corrêa

Guilherme Corrêa

Conheci os vinhos da família numa feira de produtores artesanais e, muitos deles, “naturais”, de Portugal e do mundo. Na ocasião, os Argilla destacaram-se dos demais, desde a esmerada apresentação dos rótulos e garrafas, e depois pelos vinhos em si. Trata-se de excelentes brancos e tintos, com o carácter vincado que é apanágio deste grupo alternativo de produtores, mas também pela precisa execução enológica em cada garrafa mostrada, o que não é tão habitual nestas feiras. 


Imediatamente quis saber quem era o enólogo por detrás daquelas belas expressões de Portalegre, ainda que ostentassem algo a mais e único no estilo, e não fiquei surpreendido quando soube que havia um exímio técnico a manter toda aquela forte compleição ainda coesa e muito refinada: o impecável Nuno Mira do Ó.

Faltava então conhecer a família e o terroir dos vinhos Argilla. Em Lisboa marquei uma prova com Rita Tenreiro, filha de Paulo Tenreiro, e responsável pelo marketing e vendas da Herdade da Anta de Cima. Tudo que havia provado em pé naquela feira, num stand cheio e sem muitas condições de concentração, pude confirmar neste segundo encontro com os vinhos. Como é recorrente em vários produtores de primeira grandeza do Alentejo de hoje, dos pequenos aos maiores, dos novos aos tradicionais, os vinhos estão a aliar cada vez mais a estrutura e madureza típica da região com a frescura, menor aporte de madeira e mais elegância e mineralidade, algo que volto a sentir nos Argilla provados. E ainda com mais verve, precisão e drama do que a maioria. 

Rita Tenreiro transmite muito bem a paixão e obstinação da família pelo “monte” e tudo o que dele extraem, num sistema integrado. A bela imagem dos vinhos também é motivo de orgulho para si, como idealizadora que foi.


Um canto particular de Portalegre


O terceiro momento de imersão nesta nova proposta de Montargil foi um dia a desbravar a herdade com a família Tenreiro, recebido por Paulo, agrónomo e professor, por Rita e pelo seu irmão, Tomás, também agrónomo e a aprofundar seus estudos em Espanha. Sente-se algo diferente quando se visita uma herdade cujos donos são agrónomos de ponta. Algo como entrar numa loja de música cujos donos tocam profissionalmente, ou numa garrafeira de sommeliers, pois há um misto de técnica e paixão. O monte foi adquirido por Paulo em 1998 e conta com 186 hectares totais, divididos em 7,15 hectares de vinhas plantadas em 2010, montados de sobro onde os porcos alentejanos são engordados a lande, pinhais mansos pastoreados por rebanhos de ovinos e mata autóctone que abriga inúmeras espécies, a compor um ecossistema sustentável no qual a atividade agrícola “é igualmente promotora de serviços ambientais dos quais a própria também beneficia”. Quase toda a produção de porcos alentejanos da família segue para Espanha, onde são transformados em alguns dos melhores enchidos e presuntos do mundo.

Da bela casa em cima de uma doce colina no monte vemos as vinhas em todo o redor, com diversas exposições solares, plantadas com castas tradicionais, e outras mais experimentais, como a Verdelho, nesse caso a Verdejo da Rueda espanhola, e a Petit Verdot, outra paixão de Paulo. A propriedade possuía, nos seus primórdios, uma área de vinha, que foi extirpada na década de 50, como testemunham as ruínas de uma velha adega de talhas a ladear a vinha atual, a qual deverá ser reestruturada para também servir o enoturismo. Importante atentar para o facto de que esta zona de Montargil está a uma cota mais baixa do que normalmente associamos à sub-região de Portalegre, e bem próxima da fronteira do distrito de Santarém, já no Tejo vinícola. É por isso um canto bem particular de Portalegre e, ainda que tendencialmente mais quente, sofre a influência moderadora da albufeira de Montargil e, por estar na transição para as planícies mais quentes, está numa zona de drenagem atmosférica com fortes ventos a contribuírem para a sanidade das uvas, carga aromática e manutenção da acidez. 

Os solos são também diversos, menos xistosos. Numa faixa de 100 metros de altitude encontramos areias e arenitos mais recentes do período Quaternário (época Pleistoceno) e, numa cota de 100 a 120 metros, um cordão calcário, aproveitado para as castas tintas. Nas partes mais altas há ainda gnaisse e granitos da Serra de Montargil. Esse enquadramento geomorfológico e climático diferenciado da zona, bem como as diferentes castas e exposições da vinha, oferecem uma rica paleta de opções para os Tenreiro e o enólogo Nuno do Ó criarem os seus vinhos, típicos de Montargil e diferentes do Alentejo ou mesmo de Portalegre. 

Na adega, era também preciso nascer algo de diferente. Cansado da madeira no vinho, Paulo Tenreiro começou a estudar as talhas tradicionais da região. Mas queria fazer uma expressão muito pura, com a talha a amplificar sem distorções o terroir tão particular da sua herdade e não a conceber “vinhos apetrolados demais, resinosos demais, oxidados demais”. Hoje os Tenreiro, sempre flanqueados por Nuno Mira do Ó, encontraram um ponto de equilíbrio entre os tanques inertes de inox e 25 pequenas talhas de 150 litros compradas em França, além de duas maiores, de 1.200, litros adquiridas em Espanha, todas sem qualquer tipo de revestimento. Fazem vinho nestes recipientes, mas não os “talhas tradicionais” alentejanos; seguem num caminho diferente, mas igualmente empolgante, com estágios mais curtos na terracota, sempre à busca de valorizar o equilíbrio e a frescura, transferindo o carácter intricado e único do terroir de Montargil para cada garrafa dos particulares vinhos Argilla.