O vinho sempre foi mais do que uma bebida. Foi uma forma de estar à mesa, de reunir pessoas, de celebrar o tempo e a companhia. Talvez o seu futuro dependa menos das estratégias de mercado e mais da capacidade de preservar — ou reinventar — o valor do convívio humano.
Quem sabe de vinho não se deixa influenciar da mesma forma pelo preço ou promessas de valorização de um determinado rótulo.
Hoje, felizmente, graças em grande parte ao interesse das novas gerações de chefes, a cozinha tradicional portuguesa brilha em locais bem melhores e não lhe faltam clientes.
Para um produtor de classe mundial, obter 100 pontos, especialmente de críticos e publicações mais famosos, é uma fonte de enorme alegria, mais para satisfazer o ego pessoal do que pelas consequências comerciais.
Recordo como se tivesse sido ontem: conheci-o na primeira semana de setembro de 1992. Fez-me uma entrevista de emprego e terminou mais ou menos com isto: “muito bem, se eu não disser mais nada, esteja aqui na segunda-feira às nove”. Não me voltou a dizer nada e, por isso, na tal segunda-feira eu apareci. E trabalho nos vinhos desde essa data.
Numa época em que muitas publicações sobre vinhos permitem que a política editorial se concentre em regiões dispostas a fornecer suporte de marketing, é fundamental a independência dessa mentalidade de "pagar para jogar".
Já sinto um certo vazio. Mas, os espíritos livres como Domingos Soares Franco não merecem lamúrias; pelo contrário, merecem que lhe agradeçamos por tudo o que fez pelos vinhos portugueses.
O vinho, tal como uma expressão artística, tem uma amplitude de gosto tão extensa que é apenas imbecil tentarem-se padronizações deste ou daquele estilo, qual trincheira em tempos de guerra.
É contra o espírito de uma vinificação artesanal e natural que alguém veja estes vinhos como uma forma de ganhar dinheiro, e não como algo para beber e apreciar.
Dar a um vinho a classificação mais alta exige compromisso e, às vezes, imprudência. Nunca tive coragem de dar nota 100 quando tive a responsabilidade de provar todos os vinhos. Nos últimos 25 anos, os vinhos registaram uma grande melhoria e, por isso, a pontuação máxima foi alcançada.
Se nada de verdadeiramente significativo for feito, dentro de alguns anos o Vinho Madeira poderá ficar confrontado com a escassez de uva.
A não ser que Dona Antónia ressuscite, que o Barão de Forrester emerja das profundezas do rio para mediar conflitos ou que o Vale da Vilariça se desloque para o Vale de Mendiz, não antevejo solução imediata para o Douro.