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Barca-Velha: O zénite da enologia portuguesa

 

Há quem diga que o Barca-Velha é um vinho caro. Quanto custa um Rolls-Royce ou um Aston Martin? Quanto pagamos, afinal, por um grande ícone mundial de Bordéus, da Borgonha ou de Champagne? O mercado, sempre o mercado, tratará de estabelecer o preço final do mais icónico vinho tranquilo português, que representa a concretização do sonho de uma mente tão inquieta quanto genial – a de Fernando Nicolau de Almeida.


O enólogo criador do Barca-Velha começou a imaginá-lo ainda nos anos 40 do século XX. Há livros que aprofundam o tema, mas o maior segredo enológico, numa altura em que o Douro não só parecia como verdadeiramente estava mais longe e quase inacessível do Porto, esteve na refrigeração. Os blocos de gelo transportados em camiões a partir da Lota de Matosinhos foram a chave que descodificou muitos dos processos de controlo de fermentação e temperatura das uvas que, naquele tempo, estavam sobretudo pensadas para o Vinho do Porto. 

Há a história e as estórias que se contam a pretexto de um vinho que se afirmou para lá disso, elevando-se ao patamar de mito. Luis Sottomayor, o atual enólogo, relembra a de um fantasma, um padre sem cabeça, que um dia terá tentado estrangular o então encarregado dos armazéns de Vila Nova de Gaia, numa noite de vindimas no Douro, na Quinta do Vale Meão, então pertença da Casa Ferreirinha. Terão sido os vapores do Barca-Velha a criar o dito padre?

Três, somente três enólogos são até hoje os criadores do Barca-Velha: Fernando Nicolau de Almeida, o mentor de um vinho cuja primeira colheita é de 1952 (os livros de registos apontam 17 meias pipas de 225 lts.); José Maria Soares Franco, o continuador do sonho e que decisivamente o ajudou a afirmar por diferentes edições; e Luis Sottomayor, que ainda conheceu o mestre ao entrar na empresa, em 1989, que durante anos trabalhou ao lado de “Zé Maria” e que agora, aos 57 anos, assina o segundo Barca-Velha de plena responsabilidade (depois de participar na elaboração do 2000 e de ter elaborado o 2008).


O leão que é a estrela


Desafiado a explicar o novo Barca-Velha 2011, Luis Sottomayor estabelece uma curiosa analogia com o rei da selva. “Equiparo o 2011 a um leão porque é um animal com carácter, personalidade, que sabe o que vale. Respira confiança, personalidade, carácter, é um vinho que impõe respeito”, observa.

É um ano de exceção, onde tudo pareceu perfeito no Douro. Não só os DOC são memoráveis como também os Porto Vintage 2011 foram aclamados de pé pela crítica internacional. O inverno mostrou-se frio e chuvoso, mas pouco choveu desde o final da primavera até ao início do outono (sendo que nos dias 21 de agosto e 1 de setembro foram contabilizados 35 e 40 mm de pluviosidade, respetivamente). O lote do vinho aliou Touriga Franca (45%), Touriga Nacional (35%), Tinto Cão (10%) e Tinta Roriz (10%), uvas da Quinta da Leda, em Almendra, Douro Superior, que desde meados dos anos 80 garantem a matéria-prima essencial para o vinho.

A parcela de vinha Apeadeiro, debruçada sobre o rio, contribuiu decisivamente para fazer do 2011 uma edição de colecionador. São 5,6 hectares de Touriga Franca, que ali se expressa de forma exemplar, conjugando notas florais elegantes a uma estrutura à prova de bala. 

“Nunca tive dúvidas sobre a qualidade, a evolução em barrica e o lote final”, garante Luis Sottomayor.

Apesar da importância muito significativa que o lançamento do Barca-Velha assume na Sogrape, a decisão final cabe sempre aos enólogos. “Nunca o Luís está pressionado, não é isso que nos move”, diz-nos Fernando da Cunha Guedes, o presidente da Sogrape. “O que nos move e preside e a excelência do vinho”, complementa.

O Barca-Velha é uma espécie de cereja no topo do bolo, mas não é mais importante que outros. O líder da Sogrape lembra tratar-se de um vinho nascido a partir da paixão de um enólogo e recorda outro caso de sucesso, nascido de outra paixão. O Mateus, o mais popular vinho português à escala global, foi curiosamente também pensado nos anos 40 do séc. XX, tal como o Barca-Velha, na altura pelo avô, Fernando van Zeller Guedes.


O ritual e a eterna questão


Saber esperar pode ser desesperante, mas no caso do vinho é quase sempre virtuoso. E os grandes vinhos precisam de tempo, merecem-no. 

Estará aí uma das razões pelas quais o Barca-Velha também é especial, na medida em que são cada vez mais raros os vinhos lançados após sete, oito ou nove anos sobre a colheita. As 33.766 garrafas da edição 2011 (um número bastante apreciável para a realidade portuguesa dos vinhos de qualidade excecional) foram engarrafadas no dia 6 de maio de 2013, após cerca de 18 meses de estágio em barricas de carvalho francês. Ora, se à partida já estaríamos perante um grande vinho, imagine-se a dimensão alcançada com este tempo de espera. Se o tivéssemos provado em 2013, o Barca-Velha 2011 já seria um vinho com a monumentalidade de hoje? 

O que impressiona igualmente nesta 20ª edição é perceber o notável caminho que ainda tem a percorrer. Sim, haverá certamente mais uma década e meia de evolução tranquila e sem sinais de cansaço, o que será dos melhores elogios que um vinho já com nove anos pode merecer.

O ritual da declaração, garantem-nos, mantém-se. Quando entende ter chegado o momento, o enólogo do Barca-Velha reúne a administração da Sogrape num almoço para anunciar en primeur a existência de uma nova raridade.

Um elogio ao Douro, um embaixador do que de melhor os vinhos portugueses podem demonstrar. Os portugueses, aliás, são dos primeiros a percebê-lo e constituem o principal mercado. Seguem-se os Estados Unidos, o Reino Unido e o Brasil, este último também com carinho histórico pela marca.

Será o Barca-Velha o zénite ou o apogeu da enologia, o sonho vivo que qualquer enólogo gostaria de vivenciar? Quando a Revista de Vinhos desafiou os irmãos Fernando Cunha e Manuel Guedes a juntarem-se a Luis Sottomayor numa barca velha, saindo da Ribeira de Aguiar para o rio Douro com a Quinta da Leda em fundo, percebemos que a par da natureza é a confiança e a cumplicidade entre pessoas que ajuda a tornar sonhos promissores em obras maiores. 


TEXTO José João Santos, Marc Barros 
FOTOS Ricardo Garrido e Arquivo histórico Sogrape