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Ermelinda Freitas: 100 anos depois, a casa de Leonor

Fotografia: Ricardo Garrido
Nuno Guedes Vaz Pires

Nuno Guedes Vaz Pires

Este estranho ano de 2020 é especial para a Casa Ermelinda Freitas. Cumpriram-se os primeiros 100 anos de uma história familiar, sempre muito escrita pela têmpera e boa aventurança feminina – bisavó, avó e a mãe de Leonor, cada vez mais também pela filha, Joana. 


Na eventual escrita de um livro de memórias deste centenário, o capítulo principal ficaria sempre reservado a Leonor de Freitas – pelo acreditar, pela ousadia de tentar, pelo sorriso rasgado e desarmante com que enfrenta o que uma larga maioria simplesmente temeria.

“Tive a sorte de nascer numa família extremamente honesta, muito trabalhadora, sem grandes conhecimentos intelectuais, mas com uma profundeza de valores sociais e morais que ainda hoje regem a minha vida”. Esta confidência de Leonor à Revista de Vinhos é de uma sinceridade rara e mostra, acima de tudo, um respeito e admiração ímpares pelo berço.

Filha única, lembra-se de inventar brincadeiras na casa e nas terras de família. Semear feijão, plantar batatas, acompanhar o ciclo da videira, regar as plantas. A aldeia de Fernando Pó (nome de navegador português do século XV) era ainda mais isolada – não havia transportes nem luz elétrica.

Leonor nasceu ali mesmo. Prematura, diz ter tido a mãe como incubadora durante os primeiros dois meses. Cumprida a escola primária, com 10 anos saiu para continuar os estudos num colégio de freiras. A decisão foi criticada pelo entorno provinciano da altura, mas Leonor gostava de frequentar a escola e os pais acalentavam o sonho de ter uma filha instruída, quem sabe uma professora primária.

Guerreira desde o ventre, haveria de lhes trocar as voltas. Mais tarde cursou Serviço Social em Lisboa e já assistente social de carreira coordenava a educação para a saúde do distrito de Setúbal quando o pai, aos 59 anos, morreu. Leonor, que nesses anos frequentava a casa de família como retiro de fim de fim de semana, viu-se confrontada com uma decisão de vida – vender as terras ou arriscar. Mulher de armas, optou pela segunda via.

A decisão surpreendeu os colegas, que não a imaginavam a fazer da agricultura modo de vida. “Se vendesse, iria trair a família”. Assim explica o sentimento que lhe justificou a decisão.

Não percebia os meandros do setor, muito menos dominava a indústria do vinho. Mulher de armas, arregaçou as mangas e foi bater às portas das instituições da área para tentar perceber o que poderia ou não fazer de diferente.

Uma ida à Vinexpo, em Bordéus, foi a pedra de toque. Ficou deslumbrada com o glamour que o vinho poderia ter, embevecida com uma face da moeda que até aí desconhecia. Faz questão de guardar o Renault Clio comercial, sem ar condicionado, com que fez a viagem de ida e regresso a Bordéus, com o marido a conduzir. Por lá cruzou-se, de surpresa, com dois jovens com quem passaria a trabalhar, um deles Jaime Quendera, o enólogo de sempre.


Das Terras do Pó ao sonho do Douro


O primeiro engarrafamento deu-se em 1999, 7.000 exemplares do vinho tinto Terras do Pó.  Até 2002 manteve o negócio do granel como sustento, embora sempre na expetativa de o abandonar. Quando o principal cliente lhe disse que não iria comprar mais vinho voltou a sentir-se entre a espada e a parede. Uma vez mais, decidiu-se pela espada.

Arriscou escoar a produção em algo que estava ainda pouco divulgado em Portugal, o bag-in-box, e a aceitação foi supreendente. Libertada finalmente do granel, iniciou aí um imparável percurso de afirmação e crescimento, que hoje coloca a Casa Ermelinda Freitas como dos principais operadores, não apenas da região de Setúbal como de todo o país – 20 milhões de litros de produção média anual, 8 milhões de garrafas, 500 hectares de vinha própria, parceria com 136 viticultores, 150 hectares de vinhas velhas de Castelão. Exporta 40% da produção para mais de 30 mercados – Colômbia, Rússia, Luxemburgo, Canadá, Brasil, EUA e Reino Unido figuram entre os principais.

Em 2018, duas notícias de aquisições entre o verão e o outono. A Quinta do Minho, 30 hectares em Póvoa do Lanhoso, nos Vinhos Verdes , e a Quinta de Canivães, 20 hectares de vinhas no Douro Superior, em Foz Côa. Esta última propriedade representa o cumprir de um sonho muito particular.

Uma das vencedoras do Prémio Homenagem atribuído nos 30 anos da Revista de Vinhos, Leonor de Freitas há muito se transformou na Dona Ermelinda. Das maiores empregadoras da região, também há muito lhe extravasou as fronteiras para lhe aportar novos mundos.

A menina que inventava brincadeiras na casa de família, a mulher que conferiu a essa mesma casa uma dimensão como nunca imaginara, é hoje das personalidades mais marcantes do vinho português. Os primeiros 100 anos de uma casa de afetos são vividos “com uma alegria enorme” por ter continuado o legado dos pais. Joana, “a futura Dona Ermelinda”, tratará um dia de explicar o título dado ao capítulo reservado à mãe Leonor no tal livro de memórias… e de afetos.