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Grande Entrevista: Paula Jardim

Fotografia: Fabrice Demoulin

Paula Luísa Duarte Jardim é licenciada em Engenharia Agrícola pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Trabalhou no Baixo Alentejo ainda antes de se fixar no Funchal, onde exerceu várias funções ligadas à esfera agrícola. Em 2017 foi nomeada presidente do Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM), cargo que ocupa deste então.


Nesta entrevista à Revista de Vinhos, Paula Jardim analisa como muito positivo o trabalho desenvolvido na liderança do instituto, refere-se ao abalo que a pandemia está a causar no setor e pronuncia-se sobre os desafios futuros do Vinho Madeira – da vinha à comercialização.

Assumiu a liderança do IVBAM em 2017. Que balanço faz até ao momento?
O balanço é muito positivo. É, muitas vezes, extremamente difícil assumir funções que são inesperadas, como foi o caso. Inesperadamente tive esta nomeação para presidente do instituto e a adaptação foi bastante salvaguardada pela excelente equipa, muito bem preparada, que temos – da certificação à promoção, da viticultura ao laboratório. Estes três anos foram muito intensos, é um organismo muito trabalhoso e é com muito orgulho que o lidero, até porque o IVBAM tutela áreas extremamente importantes e de reconhecimento mundial, como o vinho e o bordado. O Vinho Madeira, efetivamente, é de grande inspiração. Tenho muito sentido de dever público e de proximidade com os colaboradores do instituto, é com eles que conto para me ajudarem no sucesso deste organismo e dos produtores desta tutela.

Em 2017 certamente não calculava ter que se confrontar com a atual pandemia. Em termos práticos, que impacto está a ter no Vinho Madeira e quais as perspetivas para o segundo semestre deste ano e para 2021?
Nunca pensamos viver esta situação, tivemos que nos adaptar. O setor do vinho tem tido algumas dificuldades essencialmente com a comercialização, na medida em que está muito dependente de mercados externos. Em junho, por exemplo, tivemos quebras gerais de -65% nas exportações mundiais (-31% na Europa, -94% nos mercados terceiros). Tivemos que nos ajustar à nova situação, mas devemos retirar algo de positivo, nomeadamente maior celeridade nos processos de promoção online como resposta ao adiamento dos eventos de comunicação e promoção presenciais. 

Olhando o futuro, centremo-nos na vinha. A área vitícola da Madeira é, como sabe, bastante diminuta, menos de 500 hectares, e muitas das parcelas obedecem a uma viticultura de fim de semana, na medida que os viticultores possuem outras atividades profissionais a tempo inteiro. A sustentabilidade da viticultura, a médio e a longo prazos, é possível com este modelo?
Efetivamente, a nossa viticultura é de microfúndio, nem diria minifúndio. Grande parte dos viticultores tem superfícies de ocupação pequenísimas, que colocam em causa a viabilidade económica. Procura-se que os novos investimentos sejam em superfícies maiores, por uma questão de economia de escala e para que os viticultores possam ter mais vantagens, passando a encarar a viticultura como uma atividade de tempo inteiro. Temos vários programas e incentivos de apoio, inclusive com os quadros comunitários de apoio, para ajustar as explorações agrícolas a uma dimensão que permita a viabilidade económica e financeira. Na sustentabilidade ambiental, que também se fala, todos os viticultores têm hoje uma sensibilidade maior, até porque as regras comunitárias impostas ao setor da produção também têm vindo a ajustar as mentalidades dos viticultores. Espero que as empresas e os agentes económicos possam rapidamente recuperar, de forma a que os viticultores também se sintam incentivados a continuar.

Os campos experimentais de castas são atualmente suficientes para garantir um futuro promissor?
Sim. Recentemente substituímos um campo de ensaios que tínhamos a sul, na Calheta, e passamos para um investimento que é propriedade do instituto, em São Vicente. Estamos a fazer ensaios de adaptabilidade de várias castas, incluindo algumas castas minoritárias e de grande importância económica para o setor. Os campos, efetivamente, são suficientes mas sinto que era necessária uma ajuda da União Europeia para que as entidades públicas pudessem beneficiar de medidas de apoio I&D, que houve no passado mas que neste quadro comunitário não existiu. É muito importante dar continuidade a estes ensaios.

Agora, os DOP Madeirenses. Genericamente, é um projeto que cresceu bastante a partir do impulso dado pelo IVBAM, através da Adega de São Vicente, que presta apoio técnico nas diferentes fases de elaboração de um vinho. Graças a isso, pequenos produtores madeirenses lançaram DOP no mercado, mas as principais casas encararam-no como uma espécie de concorrência desleal. Ora, entretanto, essas mesmas casas estão também a apostar nesse segmento. É um processo sem retorno?
O Vinho Madeira e o DOP Madeirense são produtos totalmente diferentes. A mesma cultura é a vinha, há castas com dupla aptidão, mas cada vinho tem o seu papel. O vinho tranquilo está muito bem desenvolvido na região, permitiu a alguns viticultores, com áreas de vinha mais significativas, a escoar produção. Temos que ter vinho tranquilo na região, pelo fator turístico e com boa presença no canal Horeca, temos que ter um produto diferenciado, que não se confunde com o fortificado. O tranquilo é quase exclusivamente consumido no mercado regional e o Vinho Madeira tem um mercado global.

Pelas características muito próprias que possui, o Vinho Madeira estará sempre restrito a um nicho de consumidores?
Não diria isso. É ainda necessário que as pessoas conheçam o Vinho Madeira, que percebam que tem que ser apreciado, tem que se saber bebê-lo. No entanto, o Vinho Madeira pode ter vários consumos, pode até ser harmonizado com várias comidas. Mas, noto que o consumidor não conhece ainda o Vinho Madeira. O instituto tem feito várias formações, criamos a rota dos vinhos e demos formação a todo o canal Horeca. Temos ainda feito ações junto do consumidor final, que lhe despertem a vontade de apreciar e procurar o vinho no mercado.

Uma das ideias recentes que defendeu foi a criação de uma rede internacional de educadores de Vinho Madeira. Como está a aplicar essa estratégia?
Está a ser um sucesso, tem sido muito positivo. Criamos em 2019 o primeiro “Madeira Wine Educators Course”. O número de participantes é muito restrito, de 10 a 12 pessoas, e tivemos mais solicitações do que as que aceitamos. Este ano, devido à pandemia, tivemos que o adiar e voltamos a ter mais procura que o número de lugares disponíveis. Alguns dos wine educators têm entretanto promovido cursos, debates e provas de Vinho Madeira online.

A situação de incerteza que hoje vivemos devido à pandemia obriga o Vinho Madeira a procurar novos mercados?
A política do instituto é a de conquistar sempre novos mercados e fazermos abordagens em diferentes países. É importante conquistar cada vez mais mercados para termos mais hipóteses de comercialização. 

Como sabe, nos anos mais recentes, os vinhos fortificados de todo o mundo têm estado numa espécie de lista negra de alguns consumidores, atendendo ao facto de serem vinhos com graus alcoólicos e açúcares mais elevados. Os diferentes estudos internacionais que têm sido publicados ao longo da pandemia indicam que os fortificados têm tido as maiores quebras de procura e de consumo. Doravante, como será possível desmistificar estas ideias que têm sido insistentes nalguns mercados?
Em primeiro lugar, o vinho não é para se beber, é para se degustar. Em grandes quantidades não se bebe vinho, bebe-se água. Temos que começar a desmistificar por aí, até porque o Vinho Madeira e os vinhos fortificados em geral podem ser consumidos, em pequenas quantidades e em várias momentos, como em refeições ou mesmo em cocktails. Os vinhos envelhecidos, sobretudo, permitem uma conservação invulgar. O Vinho Madeira é, como gosto de lhe chamar, um super vinho, um vinho indestrutível. As pessoas, com uma garrafa de Vinho Madeira, podem abrir e ir apreciando o vinho, é um vinho de longa conservação sem que haja alterações de qualidade.

O que mais gostaria de ver concretizado no pós-pandemia?
Aos operadores económicos, que tenham esperança numa recuperação rápida. O IVBAM e o Governo Regional tudo farão para ajudar o setor a ultrapassar estas contingências, para que consigamos recuperar a nossa vida normal.

TEXTO: José João Santos e Nuno Guedes Vaz Pires