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Grande Entrevista: Rodolfo Queirós

Fotografia: Fabrice Demoulin
Nuno Guedes Vaz Pires

Nuno Guedes Vaz Pires

De há dois anos a esta parte como presidente da CVR Beira Interior, Rodolfo Queirós está a imprimir o seu cunho à região. O aumento da notoriedade, a aposta nas castas autóctones e o desenvolvimento do turismo, integrando todos os agentes económicos da região, são desafios a conquistar. A nova Rota dos Vinhos da Beira Interior é mais um passo nesse sentido.


Região raiana, a Beira Interior é sobretudo feita de planaltos, vinhas velhas e castas autóctones. Delimitada pelas serras da Estrela, Marofa e Malcata, altitudes entre os 400 e os 800 metros e fortes amplitudes térmicas, possui historial secular mas foi demarcada apenas em 1999, integrando três sub-regiões: Castelo Rodrigo, Cova da Beira e Pinhel. 

RV_ Como descreveria hoje a região da Beira Interior? 
RQ_ Temos uma área de vinha com cerca de 16.000 ha e, nos últimos 12 a 15 anos, reestruturamos cerca de 4.000 ha. Reunimos 60 associados de várias dimensões, entre os quais quatro adegas cooperativas. A região caracteriza-se por ter um património de castas como as brancas Síria e Fonte Cal e tintas como a Rufete. Mas acolhe nos 16.000 ha de vinha outras variedades, como Malvasia e Arinto, ou as tintas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Trincadeira, Jaen ou Alfrocheiro.
Quanto a vendas, representa ainda pouco a nível nacional, mas estamos a trabalhar no sentido de aumentar a presença na grande distribuição e no canal Horeca. Vendemos pouco mais de quatro milhões de garrafas por ano, o que é pouco, face ao nosso potencial, mas estamos a abrir aos mercados internacionais, nomeadamente Brasil e EUA, que são já significativos para nós. Estamos a desenvolver um grande esforço de promoção fora de portas.

RV_A Beira Interior tem altitude, fala-se muito nos vinhos biológicos e nas castas autóctones, mas poucas grandes empresas têm vindo a apostar na região. Porquê?
RQ_Creio que brevemente isso irá mudar e poderemos ter alguma novidade a curto ou médio prazo. A conjuntura é-nos favorável, pois o mundo corre atrás dos vinhos frescos e elegantes e, para além disso, os produtos biológicos ganham destaque. Nós preenchemos esses requisitos. Tradicionalmente sempre se fez biológico na região e temos boas condições para essa prática: os mais antigos sabem que sempre se fizeram três ‘enxofradelas’ em pó. Trata-se de um produto que apenas se usa na agricultura bio, mas nesse tempo os viticultores não tinham os papéis e os processos. Somos a segunda região do país com maior área de vinha biológica e temos 12 produtores que pretendem avançar com essa certificação. O nosso clima é muito frio no inverno, o que elimina as principais pragas, e no verão é seco, com humidade relativa baixa, o que impede o desenvolvimento de doenças, como o oídio.

Castas antigas, novos mercados

RV_Ainda em relação às castas autóctones, existe potencial em castas como a Fonte Cal?
RQ_Pode sobretudo ajudar-nos à diferenciação, mas tem alguns problemas relacionados com a sua relativa disseminação, pois não são castas apetecíveis para os viveiristas. Não é fácil encomendar porta-enxertos com Fonte Cal. Fizemos um esforço para fazer a seleção de Rufete e Fonte Cal de um nosso produtor. Hoje em dia só se plantam porta-enxertos prontos e é tudo feito nos viveiristas. O próprio ministério está a fazer um esforço para disponibilizar as castas minoritárias aos produtores. 
Provamos recentemente um monocasta Fonte Cal de 2002 e estava fantástico. É uma casta precoce, que amadurece bem, integra o lote típico da região, com Síria e Arinto, mas a Fonte Cal aporta uma complexidade que muitas vezes faz lembrar tosta. Em estreme é muito interessante e pode ser, para a região, um caminho de afirmação. Há dois ou três anos tínhamos dois produtores a fazer Fonte Cal e agora temos cinco.

RV_E, nos tintos, a Rufete…
RQ_A Rufete teve um problema. O próprio mercado olhava muito para os vinhos pela cor, algo que a casta não traz, pois apresenta uma cor aberta a que o mercado tinha aversão. Se fosse Pinot Noir, até tinha menos cor, mas como é francês… Isso mostra também o caminho que o mercado foi seguindo – pedem-se agora vinhos com menos álcool e potência.  Os vinhos de Rufete são finos e elegantes, não cansam e têm por isso o seu lugar. Felizmente alguns produtores estão a apostar no Rufete e terá novamente a expressão que merece. Outras importantes são o Jaen ou o Alfrocheiro, mesmo que esta produza muito pouco, pelo que o viticultor, que é pago em função do grau provável, prefere a Tinta Roriz. 
Temos que fazer esse caminho de diferenciação e revitalizar as castas antigas. Temos o projeto de fazer o nosso próprio campo experimental para salvaguardar as castas em risco de desaparecimento e oferecer ao produtor material vegetativo de qualidade, como a Mourisco, que tem potencial para espumantizar ou aportar aromaticidade aos lotes.

RV_Há risco de perda de património genético?
RQ_O interior de Portugal sofre de um problema grave de desertificação e envelhecimento. Grande parte das vinhas estão a cargo de pessoas de mais idade, pelo que podemos perder património genético. Mas há também sinais que nos deixam satisfeitos: a região teve direito a mais 80 hectares em direitos de plantação, mas candidatamos mais 200, o que mostra que há vontade de investir nesse setor. É preciso combater a interioridade, problema de todo o país. Com ganhos para todos: há freguesias da região que não têm incêndios há mais de 15 anos, porque estão cobertos de vinhas. Os viticultores são os primeiros bombeiros, pois se a terra estiver cultivada, o risco de incêndio é mais baixo.

RV_Como descreveria os vinhos da Beira Interior?
RQ_Falando dos tintos, são vinhos com expressão aromática muito interessante, um pouco duros no início, pois têm taninos bem presentes. Apresentam a acidez característica da região, são muito gastronómicos, com grande potencial de envelhecimento; são frescos e não cansam, pelo que apetece beber mais um copo.
Também nos brancos a frescura está sempre muito presente, alguns deles com bastante exuberância aromática e capacidade de envelhecimento. Aliás, grande parte do público consumidor pensa ainda que os vinhos brancos devem ser bebidos no próprio ano ou no seguinte. Creio que é um bom desafio para colocar aos consumidores, esperar alguns anos pelos vinhos e observar a evolução das características. 

RV_Nestes primeiros tempos como presidente da CVR, que desafios antecipa para a região?
RQ_Ganhar notoriedade a nível nacional. Já se ouve falar bastante da região pelas suas características. O nosso foco será divulgar ao máximo os vinhos da Beira Interior no mercado nacional e fazer uma aposta forte nos mercados de exportação, em articulação com os nossos agentes económicos, no sentido de criar massa crítica.
Outro desafio atual é a implementação da Rota da Beira Interior, que vamos começar a concretizar com a abertura da loja (ver caixa). Será uma rota de território, pois queremos agregar os munícipios, os hotéis, a restauração, as Aldeias Históricas e de Xisto, bem como os nossos próprios associados.
A região abarca 20 concelhos, com uma grande diversidade, que vai desde a Mêda e Figueira de Castelo Rodrigo até Vila Velha de Rodão, Proença-a-Nova e Sertã, com diversidade de terroirs, gastronomia e património. Queremos gerar oportunidades para os jovens que se queiram fixar. E criar riqueza para que, quem queira vir para cá, possa viver com a mesma dignidade do que em Lisboa ou Porto. Outro desafio é, por isso, reduzir a sazonalidade, ao trazer mais gente durante mais tempo. Estamos ao lado de Espanha, com 40 milhões de consumidores e rendimento per capita superior ao português, que adoram Portugal, a nossa gastronomia e os vinhos; temos que os guiar para cá, pois a fronteira é um mar de oportunidades.