Este não foi um simples jantar. Para o compreender, temos de recuar até 1873, ano em que o Grupo Bensaude (Bensaude & C.ª Lda à data) adquiriu a mais antiga companhia de navegação de Portugal, a Empresa Insulana de Navegação.
A primeira viagem da Empresa Insulana foi feita no ano da sua fundação, em 1871, no navio a vapor Atlântico, que saiu de Lisboa no dia 15 de outubro e transportou 72 passageiros até Ponta Delgada, onde chegou quatro dias depois, a 19 de outubro. Nos primeiros anos de atividade faziam-se 24 viagens anuais aos Açores, alargando as ligações à Madeira em 1875. Até 1910, fizeram-se carreiras para a América e umas quantas viagens especiais, com tropas e emigrantes para as Áfricas e viagens de excursão (precursoras dos atuais cruzeiros turísticos). A frota passou a incluir cargueiros na década de 1930 e até 1970 foram completadas cerca de três mil viagens, servindo todas as ilhas.
Foi Abraão Bensaúde, da primeira geração da família Bensaúde a chegar a São Miguel, quem adquiriu a empresa e garantiu que os Açores continuavam ligados ao resto do mundo.
Para celebrar as odisseias de outros tempos, o calendário gastronómico do BALCONY Restaurant soma já 10 edições de jantares vínicos inspirados num legado que, durante décadas, ajudou a sustentar a economia do arquipélago através de trocas comerciais.
O restaurante está inserido no Grand Hotel Açores Atlântico, parte do portefólio da Bensaude Hotels. Após quase 10 meses encerrado para obras de renovação, reabriu em julho de 2018 como o primeiro cinco estrelas de Ponta Delgada. E esta experiência enogastronómica só podia acontecer aqui, de frente para o oceano Atlântico, dentro de um edifício que parece o interior de um navio de luxo graças à decoração dedicada à herança naval do Grupo Bensaude. Tons oceânicos, fotografias e peças únicas provenientes do espólio da Insulana são os principais elementos decorativos deste hotel cujo conceito está intimamente ligado à companhia de navegação.
O Grand Hotel tem um total de 140 quartos (62 City View, 18 Bay View, 50 Sea View, cinco Suites e cinco Suites Juniors) e, em breve, um spa composto por materiais nobres que evocam a maquinaria e o mobiliário dos paquetes Funchal, Ponta Delgada e Angra do Heroísmo.
Para a 10 ª edição do Jantar Vínico Rotas da Insulana, no passado dia 21 de março, o chefe Rui Prado e o sommelier Acácio Oliveira criaram uma viagem no tempo em parceria com a Vinha Garrafeira e o produtor Rozès.
“Mais do que um jantar, estamos a servir um pedaço da nossa história. A Empresa Insulana de Navegação ligava ilhas e continentes, e este menu pretende ligar, através da gastronomia, as nossas memórias coletivas com o que de melhor temos hoje na nossa terra”, explica o chefe Rui Prado.
Os diferentes momentos da experiência assumiram a designação de uma rota insular, numa homenagem direta à história da Empresa Insulana de Navegação. Começou com o “embarque”, com pão de massa mãe, manteiga ghee e azeite aromatizado, acompanhados de Porto Tónico Rosé. A rota seguiu para o Faial, com Bryiani com açafroa, ostra, percebes e gel de maracujá, um prato harmonizado com Terras do Grifo Essência. Prosseguiu pela ilha do Pico, com pastel de novilho com molho tzaziki, acompanhado pelo Terras do Grifo Rosé.
A navegação seguiu em direção a São Jorge, com canja de amêijoas com topinambur, caril verde e clorofila de coentros, combinada com Terras do Grifo Reserva Branco. Cruzando o Atlântico até à rota da Terra Nova, o chefe propôs um bacalhau fresco com arroz de ouriço do mar e ervas das arribas e Terras do Grifo Grande Reserva Branco.
Na chegada à Terceira, esperava-nos uma bavette de novilho com trufa, caviar, rum e puré de raiz de aipo, que encontra no Terras do Grifo Grande Reserva Tinto o seu par ideal. Finalmente, o desembarque fez-se entre Santa Maria e a Madeira, com um pudim de laranja, pipoca salgada caramelizada e coulis de Pisang Ambon harmonizado com Porto Rozès 20 Anos.
Todos os momentos foram cuidadosamente explicados por Rui Prado, Acácio Oliveira e Manuel Henrique Silva, enólogo da Rozès, numa noite calma e de céu limpo que quase nos fez esquecer a depressão Therese.
O certame é aberto a não hóspedes e é uma excelente oportunidade para conhecer vários produtos açorianos num contexto de fine dining. O próximo jantar está previsto para novembro, mas a data definitiva ainda não foi anunciada.