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Morávia do Sul: Mikulov, vinhos e imperadores

Fotografia: Fotos D.R.
Marc Barros

Marc Barros

No início de dezembro de 1815, na sequência da Batalha dos Três Imperadores, Napoleão Bonaparte foi confirmado como um grande estratega militar e soberano quase absoluto da Europa, fundador do I Império francês. Em Austerlitz, na Morávia do Sul (Slavkov u Brna), a cerca de 10 km a sudeste de Brno, na altura região que integrava o Império Austríaco, a chamada Terceira Coligação, formada por Inglaterra, Áustria e Rússia, com a neutralidade da Prússia, enfrenta as forças francesas (que curiosamente haviam sido derrotadas cerca de dois meses antes por Nelson na batalha marítima de Trafalgar).


A intenção inglesa era impedir por todos os meios a invasão da ilha britânica, receio reforçado depois de Napoleão coroar-se rei de Itália. A 20 de novembro de 1805, Bonaparte derrota os austríacos na Baviera e marcha sobre Viena, que viria a ocupar a 13 de novembro. E segue ao encontro do exército austro-russo em Austerlitz. Aqui, Napoleão enfrentaria o czar Alexandre I da Rússia e o imperador Francisco II da Áustria (que na realidade não marcou presença, mas contribuiu para que a batalha assim ficasse conhecida). A 2 de dezembro, o exército às suas ordens simulou uma tática de retirada e ocupou o estratégico planalto de Pratzen, movimentações ocultadas por um espesso nevoeiro que se fazia sentir, seguindo-se um ataque massivo francês que, em última instância, resultou numa vitória retumbante.

Como consequência, a batalha custou a perda da coroa do Sacro Império Romano-Germânico a Francisco I já que, pela paz de Bratislava, a Áustria viu-lhe retirados os territórios do Tirol, Voralberg, Veneza, Ístria e Dalmácia e Napoleão formou a Confederação de Estados Alemães do Reno, sob o seu protetorado, destinada a fazer tampão face à Prússia.

No período em que permaneceu na Morávia, Napoleão instalou-se no Castelo de Mikulov, hoje uma atração turística da região, e podemos certamente especular que tenha provado os vinhos produzidos localmente. Isto porque a Morávia do Sul é o maior e mais antigo centro produtor de vinhos do país.

Com um passado que remonta à ocupação romana, quando as legiões ocuparam as encostas de Pálava e plantaram as primeiras vinhas, a viticultura é hoje uma atividade dinâmica na região, estimulada em grande parte pelo (devido) aproveitamento dos fundos comunitários que se seguiram à adesão da República Checa à União Europeia, em 2004. Isso é visível na paisagem vitícola, com a disseminação de grandes áreas de vinhas novas, e na construção de adegas contemporâneas, de traço moderno. Funcionais, sóbrias e direcionadas para a melhoria contínua dos vinhos.

Grosso modo, a República Checa possui duas grandes regiões produtoras: a norte, junto à fronteira com a Alemanha, surge a Boémia; a sul, encostada à Áustria, a Morávia do Sul. Esta última divide-se em quatro sub-regiões: Slovácko, Velké Pavlovice, Mikulov e Znojmo. A recente reclassificação deu-se após a entrada do país na UE, simplificando e reduzindo o número de 10 sub-regiões que compunham a Morávia. Inclui 17.421 hectares de vinhas, o que representa 96% da área de vinha do país, grande parte junto à fronteira com a Áustria e o seu Weinviertel, onde predomina a variedade Gruner Veltliner.


Um toque de Botrytis


O nevoeiro que ganhou a batalha a Napoleão diz-nos algo sobre as características da região. Localizada em torno do paralelo 49 N e contígua às zonas vitivinícolas a sul da Alemanha e norte da Áustria, mas de influência continental, a Morávia conta com uma temperatura média anual de 9,42°C, precipitação média de 510 mm e 2.244 horas de sol. O ciclo vegetativo é mais curto que na Europa Ocidental mas, na maioria dos anos, destaca-se a maior intensidade térmica dos meses de verão, o que permite o cultivo de castas de maturação tardia. É, aliás, comum, encontrar nos vinhos aromas terrosos e de mofo, mais associados à Botrytis Cinerea.

No que diz respeito à classificação dos vinhos, os checos adotaram um sistema decalcado do alemão, que avalia a maturação da uva durante a vindima e, consequentemente, o teor de açúcar no mosto, cujas denominações são atribuídas segundo o teor de açúcar residual. Podem ir desde o suché (seco, até 9 gr./lt!); polosuché (meio-seco); polosladké (meio-doce); ao sladké (doce).

Em geral, trata-se de vinhos bastante leves, com alguma austeridade, boa acidez (nem sempre capaz de equilibrar o teor de açúcar) e relativamente baixo teor alcoólico. Os vinhos brancos são protagonistas, mas alguns tintos podem ter boa fruta e equilíbrio. Os vinhos pozdní sběr (colheita tardia) são recomendáveis, bem como alguns sekt (espumantes).

E, como em quase tudo o que se refira ao país, a nomenclatura das castas pode ser um problema. Não só pela dificuldade em apreender as designações, mas também pela diversidade de castas, algumas das quais resultam de cruzamentos realizados durante a época comunista. Desde logo a variedade Pálava, cruzamento de Muller-Thurgau com Traminer e muito utilizada em Mikulov, a sub-região que visitámos.


A ronda de Mikulov


Por ocasião da última edição do Concurso Mundial de Bruxelas, que decorreu em Brno, foi possível visitar diversos produtores na sub-região de Mikulov, que operam em diversas dimensões, mas têm como foco o mercado interno, consumidor da totalidade dos vinhos aí elaborados.

Mikulov conta com cerca de 4500 hectares de vinhas, instaladas em solos maioritariamente calcários - o último afloramento calcário dos Cárpatos Brancos -, nas montanhas de Pálava, que também empresta o nome à casta branca autóctone mais tradicional da sub-região. As vinhas, que, na sua maioria, são conduzidas em cordão bilateral, propícias a sistemas de pequena expansão vegetativa que permitem altas densidades de plantação, gozam, portanto, de altitudes assinaláveis e solos frescos, dando origem a vinhos predominantemente brancos, com aromas frutados bem vincados, bastante especiados, picantes até, com boa mineralidade e acidez. Os principais centros vitícolas localizam-se em Mikulov, Valtice, Perna, Pavlov e Dolni Dunajovice.

Pavlov, região onde se produz vinho desde o séc. XVI, tem na Vinarstvi Pavlov o produtor mais emblemático, que reúne diversos pequenos viticultores locais e 20 ha de vinhas, processando um milhão de quilos de uva anualmente. O primeiro vinho foi produzido em 2002 mas elabora vinhos desde os anos 70. O Bohemia Sekt é especialidade da casa e, por isso, não são de estranhar as caves da adega, construídas em 1698. 

Por seu turno, a família Volařík cultiva uvas nas colinas Pálava, desde o período da Segunda Guerra Mundial. A adega foi estabelecida em 2007 e, desde então, acumularam sucessivos prémios. A sua produção centra-se quase exclusivamente em vinhos brancos. “Os vinhos brancos são uma prioridade para nós. A maioria dos vinhedos está localizada nas encostas das colinas Pálava e a sua base de calcário cria as condições ideais para vinhos como Welschriesling (Ryzlink vlašský) ou Veltliner”, afirmou o produtor Jaroslav Volařík. A empresa elabora cerca de 300.000 garrafas anuais. Começaram com mais de 20 castas plantadas mas estão a reduzir número de variedades na vinha, sendo que a produção média ronda 6000 kg./ha. Para além da Pálava, foram provados vinhos de variedades tão singulares como Johanitter, que expressa aromas vegetais e melosos e consegue a proeza de oferecer sabores simultaneamente doces e picantes.

Defronte do rio Thaya, próximo da fronteira com a Áustria, dois produtores destacam-se: Sonberk e Gotberg. No primeiro caso, trata-se de um projeto recente, cujo nome surge do original alemão Sonnberg, ou colina soalheira, que retomou em 2003 o passado ancestral de produção de vinhos. Em cerca de 40 ha, cultiva as castas Rhine Riesling, Pálava, Traminer e Muškát moravský (Muscat da Morávia), para além de Pinot Gris (Rulandske Sedé), Chardonnay e Merlot, produzindo cerca de 150.000 garrafas anuais. A moderna adega, inaugurada em 2008, está instalada a 236 metros no topo da coluna Slunečná. Com desenho do arquiteto checo Josef Pleskot, oferece vistas panorâmicas deslumbrante sobre as vinhas e a linha de água formada pelos lagos de Nové Mlýny e Pálava, encimadas pelas ruínas de vários castelos medievais.

Também foi em 2003 que a vizinha (literalmente contígua) Gotberg, próxima de Hustopeč, arrancou o seu projeto vínico, tendo lançado o primeiro vinho em 2010. Este produtor granjeia 56 ha de vinhedos, em cinco vinhas: Panenský kopec, Svidrunk, Sonberk, Stará hora e Unédy. Também aqui nota-se o aproveitamento dos fundos comunitários que o país recebeu, com a sua moderna adega, discreta mas funcional, a apostar claramente no aproveitamento do enoturismo. Entre os vinhos que merecem destaque, surgem os monocasta Pálava, Tramín červený, Sylvánské zelené, Muškát moravský, para além de um francamente bom Merlot.

Foi à chegada à aldeia vitícola de Dolní Dunajovice que fomos finalmente brindados com a prova de um sekt, do produtor Mikrosvín, elaborado com base nas castas Ryzlink rýnský, Ryzlink vlašský e Chardonnay, ao qual é adicionado Riesling da vinha Železná, tida como uma das mais nobres do produtor, como licor de expedição. Este estagia nas borras durante pelo menos 36 meses e é produzido apenas em anos adequados. A Mikrosvín Mikulov opera uma área de 520 ha de vinhas próprias, nos municípios de Mikulov, Dolní Dunajovice, Perná, Březí e Dobré Pole. 

O Château Valtice, criado pelos Liechtenstein no século XV, conta com duas adegas exclusivas. A primeira a ser construída foi a Zámecký sklep, existente a partir de 1430 na ala esquerda do castelo, com capacidade para vinificar 500.000 litros. Mais tarde, a Křížový sklep (1640), considerada hoje o centro deste produtor. Assumem a forma de cruz e ostenta um corredor monumental com 136 metros de comprimento, atravessado por um braço com 90 metros. Possui capacidade para um milhão de litros de vinhos. Verdadeiramente impressionante é também a “biblioteca”, com 50 mil vinhos do Wine Salon da República Checa. O Château Valtice possui cerca de 6% de toda a área de vinha do país, ou seja, cerca de 1000 ha. A presença dos Liechtenstein em Valtice terminou após a II GM, quando foram forçados a abandonar a então Checoslováquia e todas as suas propriedades passaram para o Estado.

Este período de nacionalização das vinhas e adegas foi responsável, ao longo dos anos, por um sistema que privilegiou o volume em detrimento da qualidade, negando o próprio conceito de terroir e, como já referimos, propiciando a hibridização de castas, visando torná-las mais produtivas. A reprivatização das vinhas e dos operadores, o desmantelamento das cooperativas e a entrada de fundos comunitários em abundância estão a dar uma nova vida aos vinhos daquele país. Talvez, nos tempos mais próximos, não nos apercebamos disso. Afinal, como o próprio Château Valtice faz questão em afirmar, “não operamos nos mercados externos nem exportamos vinhos. Os clientes estrangeiros interessados nos vinhos terão que comprá-los diretamente na nossa adega em Valtice”. Mas, e isso podemos assegurar, vale bem a pena a visita.