Piwi. As castas do futuro?

Fotografia: Arquivo
Marc Barros

Marc Barros

Pilzwiderstandsfähig’ é a expressão alemã que significa “capaz de resistir a fungos”. Traduzida no acrónimo PIWI, nomeia o conjunto de variedades híbridas que apresentam elevada resistência a doenças fúngicas, possibilitando a importante redução do emprego de pesticidas.

 

Estas variedades são já utilizadas na Europa Central ou de Leste e, recentemente, a UE decidiu no sentido da sua viabilização no cultivo e na elaboração de vinhos DOP, sendo no entanto necessárias autorizações nacionais e regionais para a sua disseminação.
A evolução da videira resulta de um processo histórico, ainda em curso. Por exemplo, na Península Ibérica, os trabalhos desenvolvidos por Rosa Ayuso et al. demonstram que a Vitis vinífera sativa não será descendente nem originária de qualquer “matriz” oriunda do Cáucaso, antes se desenvolvendo e evoluindo naturalmente e de forma independente, a partir de um polo genético de Vitis vinífera silvestris. Estas foram selecionadas, por cruzamentos naturais ou dirigidos, para criarem a diversidade inter e intraespecífica de castas de que hoje somos ricos.


A filoxera obrigou à enxertia em porta-enxertos resistentes à praga, sobre as espécies americanas V. riparia e V. rupestris, e, posteriormente, destas com a V. berlandieri. Nesta altura, surgem doenças como o míldio e o oídio.
Em simultâneo, a proibição de espécies que dão origem aos vinhos ditos “de cheiro”, ou “americanos”, seja pela toxicidade, seja pelas fracas qualidades enológicas, com os típicos aromas “foxé”, coincidiu com a descoberta de que a utilização de cobre e enxofre era eficaz contra esses fungos. Assim, tais híbridos caíram em desuso, sobrevivendo apenas como tradição etnográfica em regiões como os Verdes, Madeira ou Açores.


Porém, a pesquisa sobre a valia da utilização dos híbridos prosseguiu, em centros académicos como as universidades de Geisenheim, na Alemanha, ou Davis, na Califórnia. O trabalho incidia sobretudo na criação de porta-enxertos que garantam a resistência dos híbridos tradicionais ao míldio e oídio com a maior incorporação do genoma de V. vinífera, trabalho esse que redobrou de importância tendo em conta a crescente consciência da sustentabilidade ambiental, consubstanciada no facto de a viticultura ser a cultura agrícola com maior percentagem de utilização de pesticidas. É em 2005 que surge um grupo de produtores alemães independentes que, adotando a designação ‘PIWI’, contribuiu para promover e divulgar estas variedades. Vieram para ficar?

 

Dicas

1.Entre nós, os viveiros Plansel, em parceria com a Universidade de Évora, têm desenvolvido estudos nesse sentido, e registaram no Catálogo Nacional de Castas de Videira a variedade branca ‘Defensor’ (Despacho nº 3040/2020), tolerante ao míldio, oídio e botrytis.

2.Segundo a empresa, a casta apresenta uma produtividade média/alta (14 t/ha com rega) e fertilidade elevada. O teor em álcool provável em plena maturação está dentro da média para uma casta branca (12,5 %/vol), bem como os níveis de acidez (7,6 g/l). Apresenta boa compatibilidade na enxertia, tanto para porta-enxertos híbridos de V. rupestris x V. berandieri como de V. riparia x V. berlandieri.

3.Quanto à resistência ao míldio e oídio, é recomendada a aplicação de 1 a 3 tratamentos anuais, para minimizar a possibilidade de desenvolvimento de estirpes fúngicas mais agressivas e ainda para evitar infeções secundárias.

4.Sobre a qualidade dos vinhos elaborados com estas castas não nos pronunciamos, dado não termos tido a possibilidade de prová-los. Mas relatos de prova cega de castas francesas resistentes a fungos dão conta de boas classificações face a castas tintas e brancas de referência.

5.Algumas destas castas híbridas: Alicante Bouschet (!), Müller-Thurgau, as tintas Regent (obtida em 1967 pelo Julius Kühn Institute -Geilweilerhof e reconhecida na UE em 1996) e, mais tarde, Reberger (cruzamento de Regent com Lemberger), bem como Muscat Bleu, ou as brancas Villaris, Felicia ou Sauvignac (cruzamento de Sauvignon blanc x Riesling).