×
image

Touriga Nacional: Primus inter pares

Fotografia: Arquivo
Marc Barros

Marc Barros

Uma das mais nobres castas tintas, à Touriga Nacional parece estar reservado o papel protagonista no vasto leque de variedades autóctones portuguesas. Do afunilamento causado pela ‘Touriga Nacionalização’ à redescoberta de um certo perfil clássico, a prova temática dedicada a esta casta entrevê novos caminhos... 


A Touriga Nacional é tida como o porta-estandarte dos vinhos portugueses, a casta nacional mais reconhecida mundialmente e uma das mais versáteis e bem adaptadas às diversas regiões e terroirs nacionais (e não só…). A sua dimensão global deve-se, em grande parte, à própria designação – com efeito, é fácil a qualquer estrangeiro pronunciar - e fixar - o nome da casta, mesmo que com ligeiro sotaque, transformando-a numa dissonante ‘Tôriga National’. Mas a presença da casta em vários países do Novo e do Velho Mundo constitui o melhor reconhecimento da sua valia vitícola e enológica.

A esse propósito, a seleção da Touriga Nacional como casta autorizada em Bordéus é suficiente atestado: uma das regiões mais valorizadas mundialmente, num país tradicionalmente “exportador” de castas e reconhecidamente chauvinista quanto à valia dos seus vinhos, acolheu a Touriga Nacional na Parcelle 52, onde o Conseil Interprofissional de Vin de Bordeaux (CIVB) desenvolve pesquisa em climatologia. Esta parcela experimental em Pessac-Léognan pretende monitorizar a forma como 52 castas enfrentam as alterações climáticas em Bordéus. Em 28 de junho de 2019, foram aprovadas sete variedades na Parcelle 52, consideradas “de interesse pela adaptação às mudanças climáticas” para os vinhos AOC Bordeaux/Bordeaux Supérieur – as tintas Arinarnoa, Castets, Marselan e Touriga Nacional e as brancas Alvarinho, Liliorila e Petit Manseng. Com decisão sujeita a validação final pelo Institut National de l'Origine et de la Qualité após um período experimental de 10 anos, estas variedades podem ocupar até 5% das vinhas das mencionadas AOC, com não mais do que 10% incluídos nos lotes finais dos vinhos – regras que visam proteger a tipicidade de Bordéus. As primeiras plantações destas castas recém-aprovadas devem ocorrer ainda este ano ou no próximo. Motivo de orgulho para Portugal, até porque, segundo especialistas como Bruno Prats, a casta está “obviamente adaptada a condições quentes e secas e de alta qualidade, com concentração, subtileza e grande potencial de envelhecimento”. 

Mas a rainha das castas tintas nacionais esteve à beira da extinção devido à baixa qualidade da uva e aos escassos rendimentos, agravados pela introdução de porta-enxertos americanos no combate à filoxera, com os quais a casta não se terá dado bem. A investigação e seleção clonal, sobretudo no Douro e no Dão, bem como a introdução de porta-enxertos adequados, melhoraram a produtividade, por ser uma casta vigorosa e de porte semi-ereto, reconduzindo-a à condição de nobreza de que é meritória.


Touriga Nacionalização?

A Touriga Nacional tem como carta de apresentação o facto de dar-se bem em todos os tipos de solos, pedindo apenas disponibilidade hídrica e um número adequado de horas de sol. Não é tida como aneira e pode ser trabalhada de acordo com diferentes perfis, um mais clássico, assumindo a elegância, a frescura, o equilíbrio e a complexidade como matriz, e um segundo mais vigoroso, concentrado e estruturado, tendo no uso de madeira, sobretudo nova, a ferramenta de eleição.

A variedade reconhece-se facilmente pela folhagem de tom verde médio, enrugamento pronunciado e elevado polimorfismo. Dá origem a cachos de pequenas dimensões, com peso entre 100 e 150 gr., assumindo forma cónica, de aspeto compactado. Apresenta pedúnculos de comprimento médio e bagos pequenos e arredondados, de polpa não corada. A película tem coloração negro-azulada. Os valores de álcool provável são médios e acidez total altos, sendo que o álcool provável pode rondar os 12 a 13 % e a acidez total situar-se entre 6,5 a 8 gr./lt..

Todas estas características – adaptabilidade na vinha, bom trato enológico e, mais recentemente, valorização comercial – levaram à disseminação da casta, num fenómeno de “Touriga Nacionalização” das vinhas e dos vinhos do país. Expressão que se prende não apenas com a expansão territorial, mas também pelo facto de ter assumido, nas últimas décadas, um perfil de vinhos muito semelhante, quase que homogeneizado, levando a uma certa descaracterização de vinhos produzidos em regiões ditas “clássicas”. O seu marcado aroma floral e as notas de bergamota, por um lado, e a secundarização de outras castas, quer no Douro e no Dão, mas também em regiões como Alentejo ou Setúbal, ditaram essa descaracterização. Porém, como pudemos comprovar, tal fenómeno parece estar a ser ultrapassado, privilegiando-se antes o terroir e as diferentes facetas que a casta consegue exibir.


O perfil surpreendente das Tourigas

Foram submetidos a esta prova temática mais de cinco dezenas de monovarietais da casta Touriga Nacional oriundos dos quatro cantos do país – incluindo Vinhos Verdes! -, sendo que cada produtor poderia enviar uma amostra de um vinho, a lançar no mercado.

Os resultados, apesar de não serem surpreendentes, causaram ainda assim algum assombro pela qualidade geral dos vinhos provados nas diferentes categorias de preços mas, sobretudo, e ao contrário da expetativa inicial, na assunção generalizada de um perfil de vinhos que pende para o lado do equilíbrio, da frescura e da elegância e menos para a concentração e potência – isto, inclusivamente, em regiões mais quentes e até em anos, como o de 2017, também ele extraordinariamente quente, o que atesta, por seu lado, a enorme evolução que a viticultura portuguesa regista.

Da análise dos resultados, ressalta desde logo que, entre os mais bem pontuados, estão vinhos das regiões que podemos designar como “clássicas” ou berço da Touriga Nacional – Dão e, igualmente, Douro -, mas também vários exemplares do Alentejo, demonstrando a real aptidão da casta a tipos de clima e solos bem diferenciados. Por outro lado, é de destacar que, nos vinhos pontuados entre 16,5 e 16 valores, não só se confirma a variabilidade de regiões de onde estes vinhos são oriundos, mas a dispersão de preços é também significativa, ficando patente que o rigor enológico pode andar de mãos dadas com custos controlados na produção e, também, mais-valias comerciais. E grandes vinhos, feitos para durar, mas também para encantar desde já…

Veja a classificação dos vinhos provados