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Ventozelo: O Douro todo numa quinta

 
Luís Costa

Luís Costa

A Quinta de Ventozelo, do grupo Gran Cruz, acaba de ganhar uma vida nova, entrando numa dimensão que permite catalogá-la como uma das mais sérias apostas feitas, até hoje, no domínio do enoturismo em Portugal. Nesta versão “hotel e quinta” da enorme propriedade duriense que alberga 200 hectares de vinha numa área total de 400 hectares, há hoje 29 quartos espalhados por diferentes edificações da quinta, obedecendo a diferentes tipologias. 


Ventozelo é uma das maiores quintas do Douro. Tem uma localização privilegiada, na margem esquerda do Douro, em Ervedosa, São João da Pesqueira, paredes-meias com a majestática Quinta das Carvalhas. Além do mais, é um “terroir” de exceção – com altitudes aptas a castas tintas e brancas, múltiplas exposições solares, um enquadramento paisagístico belíssimo. E tem um rumo definido desde há meia dúzia de anos, mais precisamente desde que entrou no universo da Gran Cruz, após décadas de muitas hesitações, caminhos ínvios e, inclusive, períodos de quase abandono.

Depois da aquisição em 2014 pelos detentores das marcas Dalva e Porto Cruz, que complementou o fortíssimo investimento concretizado no moderno centro de vinificação de Alijó, a Quinta de Ventozelo acaba de ganhar uma vida nova, entrando numa dimensão que permite catalogá-la, sem desprimor para projetos congéneres, como uma das mais sérias apostas feitas, até hoje, no domínio do enoturismo em Portugal.

Acresce, a tudo isto, o valor estratégico de Ventozelo para a empresa liderada por Jorge Dias – ele próprio um dos nomes grandes do Douro – que tem o respaldo de fazer parte de um dos maiores grupos de bebidas a nível mundial, os franceses da Martiniquaise, grupo de raiz familiar com liderança de Jean-Pierre Cayard que figura no top 10 do comércio mundial de bebidas alcoólicas – e que reforçou esse seu posicionamento há não muito tempo com a aquisição da Cutty Sark, em finais de 2018.

Graças a Ventozelo, a Gran Cruz pode apostar num projeto de quinta, fundamental para a afirmação dos seus vinhos DOC Douro, mas importante também para os Vinhos do Porto, cujos Vintage de grande nível elaborados pelo enólogo José Manuel Sousa Soares passaram a ostentar a marca Ventozelo.

Mas o mais recente “upgrade” de Ventozelo desde que entrou no universo da Gran Cruz é mesmo o seu projeto enoturístico, de grande rigor, dimensão, bom gosto e enorme qualidade. 

Quem conheceu, há não muitos anos, o passado pouco resplandecente desta imensa quinta fica justamente siderado ao visitá-la nos dias que correm. Logo que chegamos, na zona onde fica a receção, uma pequena loja e a zona de estacionamento, desperta-nos a atenção o Centro Interpretativo de Ventozelo, um interessante museu que faz jus à sua assinatura – “O Douro numa quinta” – e que proporciona aos visitantes toda a grandiosidade desta região vitivinícola única no mundo. Como sublinha a nossa anfitriã – Elsa Couto, a “front woman” do grupo Gran Cruz, máxima responsável pelo setor de comunicação da empresa –, “neste edifício do séc. XVIII, que foi recuperado para instalar o centro interpretativo, é possível conhecer a história do Douro à luz da história de Ventozelo”.

Antes disso, ali mesmo ao lado, Elsa Couto já nos tinha mostrado o encantador Jardim dos Aromas, onde podemos encontrar alguns ingredientes do cativante Gin de Ventozelo, como alfazema, tomilho-limão ou perpétua-roxa.

Nesta versão “hotel e quinta” da enorme Quinta de Ventozelo, que alberga 200 hectares de vinha numa área total de 400 hectares, há 29 quartos espalhados por diferentes edificações da quinta, obedecendo a diferentes tipologias. Destaque para os invulgares “Balões” que outrora serviram para armazenar vinho, agora transformados em “suite” com quarto duplo, e para a magnífica “Casa Grande”, com meia dúzia de quartos duplos em redor de um claustro com pátio central, biblioteca, salas de jantar e de estar, terraço e piscina privativa que parece transbordar sobre o rio.

Para além das múltiplas propostas de lazer que a Quinta de Ventozelo proporciona – entre passeios, percursos, piqueniques ou provas de vinho –, a “cereja em cima do bolo” é o restaurante da quinta liderado pelo “chef” Miguel Castro Silva, a grande referência da moderna gastronomia portuguesa que colabora com o grupo Gran Cruz desde há alguns anos, sendo o responsável por restaurantes como o “De Castro Gaia” ou o “Casario”, na ribeira portuense. 

O restaurante da quinta ocupa o espaço da outrora cantina de Ventozelo – onde foi buscar a sua designação – e proporciona aos comensais experiências verdadeiramente únicas, ou não tivesse Miguel Castro Silva feito um levantamento exaustivo e contínuo de receituários da zona de influência hidrográfica do Douro, que vai de Trás-os-Montes a parte da Beira Alta: “Fui buscar velhas tradições a livros antigos e falando com as pessoas. Tenho descoberto muitos pratos à base de legumes e leguminosas e receitas como as beringeladas e os cuscos, que remontam ao tempo dos mouros. É claro que, mesmo sem desrespeitar a receita original, haverá alguma adaptação à atualidade, nomeadamente em algumas técnicas, mas a base da cozinha de Ventozelo será sempre recuperar o que foram as práticas do passado e poder contar uma história”.

Para que a experiência seja realmente completa e gratificante, na “Cantina de Ventozelo” podem provar-se (e beber-se) os vinhos que Miguel Castro Silva elabora na companhia do máximo responsável pela enologia da Gran Cruz, José Manuel Sousa Soares. São vinhos interessantíssimos, personalizados e de qualidade reconhecida, até porque Miguel Castro Silva tem uma “costela” de enólogo desde há muitos anos – e com provas dadas em parcerias que já estabeleceu com Rui Reguinga e Carlos Lucas, só para dar dois exemplos. 

Aliás, dos vinhos da criação conjunta de Miguel Castro Silva com José Manuel Sousa Soares damos conta nestas páginas, pois nesta visita a Ventozelo tivemos oportunidade de fazer uma rara prova de 11 referências de diferentes colheitas com a assinatura do conceituado “chef”.

Segundo Jorge Dias, esta aposta no enoturismo “era inevitável”. “Quando chegámos a Ventozelo – conta-nos o CEO da Gran Cruz – e vimos a espessura histórica da quinta, a diversidade ecológica e dos valores patrimoniais que ela encerra e a sua dimensão, a opção era absolutamente inevitável. Quando sentimos em Ventozelo coisas tão simples como o silêncio – que é dos nossos valores intangíveis mais valiosos – ou constatamos que ainda se conseguem ver as estrelas, era inevitável abrirmos as portas desta imensa quinta aos visitantes. Acresce que o enoturismo é hoje uma ferramenta fantástica para as próprias marcas – e é também uma ferramenta de afirmação do território. Como ouvi, em tempos, dizer a um jornalista de Bordéus, um vinho provado no sítio onde nasce – e explicado pelas pessoas que dele cuidam e que o fazem – tem outra magia e uma intensidade que o tornam inesquecível.”

Ou, nas palavras mais prosaicas do enólogo José Manuel Sousa Soares, podemos dizer que Ventozelo é o local onde a Gran Cruz vai buscar “as melhores uvas para fazer os melhores vinhos, com “terroirs” muito diversificados”, e que agora é também um destino enoturístico de primeira linha, simultaneamente requintado e genuíno.

Fotos: Daniel Luciano e Ricardo Garrido