Vinha da Ponte 2018, uma edição memorável

Fotografia: Ricardo Garrido

A partir de um ano desafiante como foi 2018, a Quinta do Crasto conseguiu a proeza de obter os dois topos de gama. O Vinha da Ponte, em particular, é rocha pura, um vinho portentoso, distinto e fresco, um monumento que irá perdurar longos anos.

 

TEXTO José João Santos, Marc Barros, Nuno Guedes Vaz Pires

 

Alguns dos melhores vinhos do mundo nascem a partir de minúsculos palmos de terra. Fruto de um conjunto de circunstâncias, adquirem uma identidade impossível de replicar por qualquer outro meio, tornando-se ícones que, nos melhores exemplos, chegam ao Olimpo da classificação de vinhos raros.


A Quinta do Crasto tem a sorte de possuir dois topos de gama, dois vinhos de vinhas centenárias que possuem características ímpares. Raramente são lançados em simultâneo, dificilmente partilham a mesma colheita, mas por vezes acontece. Como em 2018.
Foi um ano quente, com momentos de escaldão em diferentes pontos do país, precedidos de episódios precoces de granizo no período da floração que causaram perdas de produção. Nalgumas geografias, a pressão de míldio e oídio sentiram-se de modo severo. Mas houve exceções. Como as vinhas da Maria Teresa e da Ponte, da Quinta do Crasto.


Provamos os dois ícones, lado a lado, e o Vinha da Ponte 2018 está num patamar estratosférico, a acenar aos deuses. Concentrado mas fresco, com toques de fósforo, uma amplitude gigantesca, profundidade e tensão que mais parecem ligadas à corrente elétrica. Perdurará anos na garrafeira.


Na base, uns estonteantes 1.96 hectares de vinhas, plantados em tradicionais socalcos, exposição nascente-sul, densidade de 6.300 pés de videira por hectare, produções médias de 300 gr. de uvas por planta. Xisto, sempre xisto no solo, a uma altitude entre os 190 e os 200 metros (para ajudar na compreensão, a Vinha da Ponte está ao cimo da vinha Maria Teresa). 


Na maioria das colheitas, as uvas ali obtidas acabam por integrar o lote do Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas, à exceção de anos tidos de expressão única. Como 2018.
A manter as credenciais, Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2018 nasce numa vinha virada a nascente, de 4,7ha, que tem sido exaustivamente estudada, em parceria com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. O mapeamento genético de cada casta tem por objetivo final o perpetuar do “field blend” natural da vinha, através da reposição de plantas mortas por outras geneticamente idênticas. Pelo projeto “Pat Gen Vineyards”, que identificou até ver 54 variedades distintas nesta vinha velha, e tudo o que tem despertado na região, a Revista de Vinhos premiou a Quinta do Crasto com o galardão “Inovação/Investigação do Ano 2020”.
O mercado já está a conhecer por estes dias a nova edição do Maria Teresa, ao todo, 5.970 garrafas, 250 magnuns e 30 double magnuns. Por ter um perfil diferente, e também por entendimentos de comercialização, o Vinha da Ponte só a partir de setembro entra no mercado – 3.500 garrafas, número idêntico de outros formatos.

 

Experimentalismo e Portos    


Apesar dos pergaminhos e da solidez de imagem nos diferentes mercados, a Quinta do Crasto admitiu inovar e aceitou o repto de um importador para concretizar um vinho de estilo borgonhês. 
Nativo de um ano mais fresco, Crasto Altitude 2019 é o culminar de uma série de ensaios tendo em vista a obtenção de um vinho de cor mais aberta, de aromas e texturas menos extraídos, de elegância suplementar mas, sobretudo, de muito prazer na prova.
O lote alia Tinta Francisca (70%) e Touriga Nacional (30%) e o resultado traduz bem a ideia inicial. É um vinho sério, fresco e subtil, fácil de se gostar, que apetece repetir. Conheceu maceração pelicular durante apenas quatro dias e estágio de 12 meses em barricas.
Ainda por entre as novidades de maior monta, o novo Porto Tawny Colheita 2003, que sucede às edições 1997, 2000 e 2001.


Tomás Roquette, o produtor da Quinta do Crasto, insiste que a propriedade deve retomar o historial que o bisavô, Constantino de Almeida, iniciou e que passou muito pelo Vinho do Porto. Nesse capítulo, o Crasto só quer ir a jogo nas categorias especiais e pelo lado Tawny através de Colheitas e, em breve, também de vinhos com Indicação de Idade. Há stocks, garante-nos, pelo que a todos nos resta a opção de esperar. Bom, se for com um Vinha da Ponte 2018 no copo, até que não nos importamos…

 

 

Quinta do Crasto
Gouvinhas
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