Vinho Madeira - Uma questão de nervo

Fotografia: Fabrice Demoulin

Nem sempre o valorizamos convenientemente, muitas vezes por desconhecimento ou até receio de nos perdermos por entre as diferentes famílias, tipologias e estilos. Mas por se tratar de um dos mais notáveis fortificados do mundo, o Vinho Madeira merece uma descoberta condigna, passo a passo, sem medos.


Nesta mais recente incursão à Madeira visitamos sete produtores que ilustram diferentes dimensões (Blandy’s, Barbeito, CAF, Henriques & Henriques, H.M. Borges, J. Faria & Filhos e Justino’s) e acrescentamos informação útil que ajude à descoberta de vinhos singulares, pelo nervo e personalidade que possuem.

Há manchas únicas de vinha em Portugal Continental com uma extensão superior à totalidade da área de vinha plantada na Madeira. Não chegam a ser 500 os hectares disponíveis, muitas vezes encontrados em cenários dramáticos, com inclinações loucas sobre penhascos ou o próprio mar. Começa aí mesmo a singularidade daquele que é dos mais famosos fortificados do mundo.

Nesta época de vindimas, a apanha da uva torna-se num misto de desporto radical e atividade de alto risco. Uma larga franja das plantações mais tradicionais obriga os vindimadores a ajoelharem-se para entrarem e apanharem os cachos das vinhas. É um trabalho que chega a ser insano mas que de outro modo não seria possível, tal a localização tão particular de muitos vinhedos, tal a ancestralidade de várias vinhas.

O tempo, nos múltiplos sentidos da palavra, é essencial para percebermos melhor o Vinho Madeira. Na linha temporal convém recordar que a Madeira foi descoberta em 1419, por João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz e Bartolomeu Perestrello. Estávamos na época dourada dos Descobrimentos. 

Tida como de enorme potencialidade, os primeiros colonizadores levaram trabalhadores e artesãos do Norte de Portugal para ajudarem à colonização. A densidade da vegetação motivou a queima de várias manchas territoriais, o que acrescentou matéria orgânica para fertilização dos solos. Nos primeiros anos da colonização foi construído o primeiro sistema de levadas que, desde aí, tem sido regularmente aumentado.

A vinha foi das primeiras culturas, a par da cana-de-açúcar e do trigo. Em 1466, o açúcar assume-se como a principal, motivando exportações para o Continente, Golfo do Quénia, África, Mediterrâneo e Norte da Europa. Sobre a vinha não há registos exatos, mas estima-se que as primeiras videiras tenham sido trazidas do Norte de Portugal. Escritos de 1450, do navegador Alvise da Mosto, conhecido por Luis de Cadamosto, referem a Malvasia Cândida, plantada a pedido expresso do Infante D. Henrique.

A vinha foi ganhando expressão durante todo o séc. XV, muito graças ao aumento da procura internacional, a que não fica alheia a descoberta da América por Cristóvão Colombo. Dos vários episódios que se relatam, destaca-se um em particular. Consta que em 1478, George, Duque de Clarence, irmão do rei de Inglaterra Eduardo IV, ao ser condenado à pena capital, terá escolhido morrer afogado num tonel de vinho Malvasia da Madeira…

Nos séculos XVI e XVII, a Madeira vê a cana-de-açúcar perder terreno face à concorrência do Brasil e a vinha a aumentar projeção. Chegados ao séc. XVIII, assistimos àquele que será o mais famoso episódio mundial do Vinho Madeira. Em 4 de julho de 1776, George Washington terá celebrado a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América com um cálice de Vinho Madeira. A elite da época conhecia e apreciava o Madeira. Thomas Jefferson e todos os “Founding Fathers” americanos, vários reis e imperadores pelo mundo, sabiam a que sabia um Madeira.

Foi ainda no séc. XVIII que se relatam os primeiros episódios relacionados com tentativas de contrafação e é também por esses anos que são introduzidas duas novas técnicas de produção: a fortificação e a estufagem.

O séc. XIX trouxe as guerras napoleónicas, a guerra civil americana e a devastação de vinhas pela filoxera. Por ser resistente à praga, a chamada vinha americana aumentou mas a maior parte da produção tinha por base o Verdelho e a Tinta Negra, seguindo-se Bual, Bastardo e Terrantez. A Malsavia Cândida perdera terreno, mas continuava a ser famosa sobretudo na Fajã dos Padres, local inicialmente detido pelos Jesuítas.

Os mercados britânico e russo, apesar de todos os constrangimentos, aumentaram o protagonismo em matéria de exportações de vinho e com o séc. XX chegam novas oportunidades de negócio com os países do Norte da Europa, que sofreram naturais reveses ao ritmo das duas Grandes Guerras. Neste nosso século, o Madeira celebra 500 anos de história e além de Portugal está profundamente enraizado em mercados como a França, Alemanha, Reino Unido, Bélgica, Suíça, Japão ou Estados Unidos, a dar os primeiros passos na China.

Nervo e complexidade


Os Madeira nascem em solos de matriz vulcânica, na maioria basálticos, ricos em ácidos, magnésio e ferro, pobres em potássio mas com algum fósforo. A argila é a textura dominante. Câmara de Lobos (costa sul), São Vicente e Santana (ambos na costa norte da ilha) são os concelhos que possuem a maioria das parcelas de vinha, autênticos microfúndios, como Paula Jardim, atual presidente do IVBAM, as expõe. Em média, as vinhas da Madeira têm cerca de 0,3 hectares, divididos em mais do que uma parcela.

A esmagadora maioria destes pequenos jardins de vinha partilha paisagem com a cana-de-açúcar ou as bananeiras e é entretenimento ou teimosia pessoal de viticultores de fim de semana, que têm outro ofício a tempo inteiro. Estará aí, aliás, dos maiores desafios da produção de vinho na Madeira, uma vez que muitos dos viticultores que garantem boa uva estão hoje envelhecidos.

De clima subtropical, com invernos amenos e verões quentes e húmidos, a vinha é quase sempre plantada em altitudes nunca inferiores aos 150 metros. O declive é acentuado, havendo plantas muitas vezes em terrenos com mais de 25% de inclinação. Ao longo dos tempos foram sendo construídos socalcos (os “poios”) e a água necessária foi sendo transportada pela imensa rede de levadas, canais de condução de água que se estendem por 2.150 quilómetros, dos quais 40km em túneis.

O sistema de condução de videiras mais usual é a latada (pérgola), com as plantas a serem conduzidas horizontalmente sobre arames ou suspensas por estacas. A altura das latadas varia entre 1 e 2 metros, com densidades de plantação de 2.500 a 4.000 pés por hectare. Na segunda metade do séc. XX assistiu-se à introdução do sistema de espaldeira, onde a vinha é conduzida na vertical, permitindo mais densidade, mas este é normalmente empregue em terrenos de declive pouco acentuado.

Os melhores vinhos Madeira expressam características que os tornam inconfundíveis, como uma salinidade evidente e uma acidez que por vezes chega a ser brutal. Devido aos métodos de vinificação usados, onde sofrem tudo o que poderíamos imaginar para um vinho, ganham nervos de aço. Muito por isso são considerados vinhos indestrutíveis, uma vez que poderemos abrir uma garrafa de um Madeira e ir provando-a durante os próximos quatro a seis meses, sem alterações percetíveis de qualidade.

A seguir revelamos um pouco do passado e do presente de sete protagonistas do Vinho Madeira, em resultado do mais recente périplo que a Revista de Vinhos realizou à ilha, em julho. É um convite renovado à descoberta de um território único, com vinhos igualmente singulares.

TEXTO: José João Santos, Nuno Guedes Vaz Pires