Vinhos de lagares rupestres. Preparado?

Quinta do Salvante apostada em perpetuar tradição milenar em Trás-os-Montes

Fotografia: André Macedo
Madalena Vidigal

Madalena Vidigal

Na Quinta do Salvante, na Aldeia de Santa Valha, em Valpaços, um duplo património é o foco de todo o circuito de visitas: vinhas velhas e lagares rupestres.
Trás-os-Montes será a região portuguesa com maior número de lagares rupestres – mais de 120 foram já identificados. A Comissão Vitivinícola Regional, muito por iniciativa de Ana Alves, abriu o caminho; Nuno Mendes, produtor da Quinta do Salvante, agarrou a oportunidade.

Nuno é a oitava geração de uma família dedicada à viticultura e herdeiro de um tesouro precioso: vinhas centenárias. São estas vinhas que nos dão as boas vindas logo na chegada à Quinta do Salvante. Com as suas formas únicas, moldadas pela natureza, cada cepa parece uma escultura e uma obra de arte fascinante. Apesar de a produção de uva e de vinho já fazer parte do ADN da família foi quando Nuno tomou as rédeas do negócio, em 2007, que a Quinta do Salvante ganhou novo rumo e se deu a conhecer ao público em garrafa – até então o vinho era apenas vendido em garrafão – e com marca própria.

Outro grande objetivo que definiu foi o de prosseguir o legado deixado pela bisavó Alicinha e colocar Santa Valha, a aldeia que os viu nascer, no mapa, mostrando o potencial vitícola que esta terra tem. Falamos de uma aldeia pertencente a Valpaços, onde o solo tem características muito específicas: é composto essencialmente por granito amarelo, menos rijo que outros tipos de granito e, por isso, se desfaz com alguma facilidade. O resultado é um solo com aspeto arenoso que acolhe vinhas por muitos e muitos anos. Algumas delas, por tantos anos que nem os mais antigos se lembram se as ver nascer! 

É num jipe Defender, muito bem “treinado”, que Nuno leva os visitantes a explorar os 14 hectares de vinha, por caminhos quase intransitáveis mas que o produtor conhece como a palma da mão. As visitas de enoturismo são muito focadas nas vinhas, no território e num dos tesouros mais bem guardados de Valpaços: os lagares rupestres.

É neste concelho que se concentra a grande parte dos lagares cavados na rocha, alguns ainda do tempo dos romanos, mas que foram sendo deixados ao abandono assim como a técnica de vinificar em granito. No entanto, com o apoio da CVR de Trás-os-Montes e de outras entidades locais, a Quinta do Salvante chegou-se à frente para dar seguimento à produção e engarrafamento de um vinho de lagar rupestre – o Torcularium tinto e rosé – devidamente rotulado e certificado, que surge no seguinte dos Calcatorium (rosé e tinto).

Nuno faz questão de mostrar sempre um destes lagares, explicando todo o processo de produção do vinho cujas quantidades se limitam a uma barrica de cada, ou seja, 300 garrafas por tipo de vinho.
Mas, se por um lado a Quinta do Salvante é a única a produzir vinho em lagar rupestre, por outro inaugurou em 2019 uma adega com tecnologia de ponta. Ali o conforto é outro, com lagares de granito sim, mas com piso radiante para controlo de temperatura durante as fermentações.

De entre as nove referências de vinho, destacam-se dois. O Quinta do Salvante Grande Reserva branco provém de uma primeira vindima das vinhas centenárias. Sendo as vinhas velhas, por definição, uma mistura de castas brancas e tintas, de forma a produzir este vinho é necessário ir “à procura” das uvas brancas primeiro. Daí resulta um vinho branco bem estruturado, guloso, que enche a boca de frutos secos e alperce, e uma acidez que equilibra tudo no final. As restantes uvas (tintas) fazem o Dona Alicinha Grande Reserva tinto, um “puro-sangue transmontano” como o descreve Nuno. Um vinho com teor alcoólico elevado, aromas de pimenta preta e sabor de compota de amora com toque de café no final. Robusto e com personalidade forte, tal como era a mulher que lhe dá o nome.

As provas de vinho são feitas na adega, à volta de uma mesa improvisada em cima de uma barrica, mas bastante bem recheada. Além dos vinhos, a prova inclui sempre o famoso folar de carnes de Valpaços, assim como o mel e azeite produzidos na própria quinta. O enoturismo da Quinta do Salvante está a dar os primeiros passos mas os projetos e as ideias de crescimento são bastantes. 
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Quinta do Salvante
Travessa do Sobreiró nº9
5430-237  - Santa Valha
E-mail: quintadosalvante@gmail.com
Telefone: +351 93 746 67 95 (chamada para rede fixa nacional)
Visita às vinhas, lagares e adega com prova a partir de 20€/pessoa