“Quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar”, diz a canção. E quem passa pelo restaurante António Padeiro também não. Apesar do nome, que evoca o fundador, esta é uma cozinha de matriz feminina que passa de geração em geração, como manda a tradição, neste caso de Maria Júlia André para a filha, Ana Branco, hoje a chefe à frente dos fogões, alma da casa cuja aura singular dispõe bem quem chega, mesmo antes de se sentar à mesa.
Quem entra, deixa-se imergir desde logo num mundo encantado de histórias, pontuadas nas paredes por fotografias, memórias e objetos que nos aconchegam e pedem para ficarmos.
De facto, a alcunha “Padeiro” refere-se ao avô (António Lourenço Branco) que usava o forno que ainda aqui mesmo existe para cozer o pão que vendia para fora.
Começou por ser uma taberna, corria o ano de 1938, porque o pão chamava os rojões, as sandes de presunto e a cerveja. Aliás, aqui surgiu a primeira imperial tirada à pressão do distrito de Leiria.
Guardiãs da cozinha tradicional portuguesa, desde cedo que a mãe de Ana Branco se deixou seduzir pelas artes culinárias, executando com mestria pratos que ainda hoje integram a ementa, como o frango na púcara ou o cabrito assado, bem como sobremesas de inspiração conventual.
Por aqui cozinha-se “com o coração” não havendo permeabilidade para mudar o conceito da cozinha familiar que nos conforta como quem é recebido em casa dos avós.
Ana Branco perpetua este património culinário com o gosto e “o amor” que coloca em tudo o que faz, uma vez que cumpre a herança do receituário original que recebeu da mãe.
“Quando se gosta de um restaurante, abraça-se o projeto com alma e gosta-se como um membro da família. Esta casa tem 87 anos e é um património a que tinha de dar continuidade. Percebi logo que não podia fugir à matriz”, conta Ana Branco.
Com três salas e sala do forno, “centro” da alma do restaurante, símbolo da cozinha com tempo e sabor que aqui se pratica e evocador do pai padeiro, a decoração ficou também a cargo de Ana que surpreende em cada detalhe, mostrando que o seu cuidado e dedicação povoam também o espaço. “Decidi abrir uma sala junto ao forno original para lhe dar centralidade porque foi assim que tudo começou. Depois começaram-se a fazer uns rojões, orelha, petisqueira ara acompanhar a cerveja”, lembra.
Na cozinha, a azáfama é grande e são já dezenas de pessoas que aqui colaboram sob comando de Ana Bravo.
A especialidade materna condensa-se nas sobremesas de inspiração conventual, até porque freiras eram visita assídua da sua casa de família e assim atiçaram o gosto pela doçaria na mãe de Ana, então menina. Da barriga de freira ao fidalgo, dos ovos reais às farófias, o mais difícl é escolher a panóplia que vem à mesa.
Ana, com duas filhas adolescentes, ainda não lhes vislumbra interesse pela continuidade do projeto, mas da mesma forma que, no seu caso, a dedicação ao espaço foi mais tardia, também espera que o mesmo siceda com as descendentes.
Da ementa constam alguns exemplares da cozinha tradicional portuguesa, da perdiz ou frango na púcara com puré de batata, ao cabrito assado, croquetes de alheira de caça ou de borrego estufado com arroz de forno, iscas de fígado em escabeche ou rissóis de robalo com arroz de camarão. Os lombinhos de porco preto com bacon e maçã de Alcobaça, o acém do redondo de novilho, os lombinhos de novilho com manteiga de salsa e alho, ou vários tipos de bifes do lombo e carnes maturadas sáo outras das propostas. Do mar, os pastéis de bacalhau com arroz de tomate malandro, o bacalhau no forno com migas de broa e farinheira, ouno forno à portuguesa, panados de polvo com açorda de tomate, ou o polvo no forno com batata-doce são pratos obrigatórios.
António Padeiro
R. Dom Maur Cocheril, 27 Alcobaça
T. 262582295
Horário: quinta a segunda das12h-15h e 19h- 22h
Encerra terça e quarta-feira