Mercosul: novo capítulo para o vinho europeu no Brasil

Tarifa de importação começa a cair e desaparece até 2034. Portugal poderá beneficiar de uma oportunidade histórica

Fotografia: Fotos D.R.

O mercado brasileiro prepara-se para uma transformação estrutural no segmento dos vinhos importados. Entrou hoje em vigor a primeira redução da tarifa de importação aplicada aos vinhos europeus no âmbito do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, dando início a um processo de desagravamento progressivo que culminará na eliminação total do imposto em 2034. Atualmente fixada nos 27%, a tarifa começará assim a ser reduzida de forma faseada ao longo dos próximos anos.

A medida representa uma alteração profunda num dos mercados estratégicos mais relevantes para os produtores europeus — e particularmente para Portugal — ao tornar os vinhos do Velho Continente progressivamente mais competitivos num país onde a carga fiscal sempre constituiu uma das principais barreiras ao consumo de vinhos importados.

Para Nuno Guedes Vaz Pires, diretor da Revista de Vinhos e publisher da revista brasileira Gula, trata-se de “uma oportunidade histórica para o vinho europeu, mas sobretudo para os produtores portugueses que souberem abordar esta nova fase com inteligência estratégica, visão de longo prazo e forte investimento em marca”.

“O Brasil sempre foi um mercado de enorme potencial para os vinhos portugueses, mas altamente condicionado por uma fiscalidade pesada que penalizava o preço final ao consumidor. Esta redução progressiva cria condições para uma nova etapa de crescimento, maior competitividade e maior democratização do acesso ao vinho europeu. Mas será também um teste decisivo: quem estiver preparado, com estratégia comercial sólida e investimento continuado em marca, poderá conquistar quota de mercado de forma muito relevante nos próximos anos.”

Duas décadas de construção de mercado

Portugal parte para esta nova fase com uma vantagem competitiva que não surgiu por acaso. Ao longo das últimas duas décadas, o setor desenvolveu no Brasil um trabalho consistente de posicionamento, educação e promoção, que ajudou a construir notoriedade e reputação para os vinhos nacionais.

Desde o início dos anos 2000, com a criação de uma feira profissional dedicada ao vinho que se tornaria a maior da América Latina, até às inúmeras ações de formação, provas, roadshows e grandes eventos dedicados ao vinho português realizados em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o setor português tem investido de forma continuada na construção do mercado brasileiro. Um esforço liderado por entidades como a ViniPortugal, diversas Comissões Vitivinícolas Regionais, institutos setoriais, importadores e produtores nacionais.

“Portugal chega a este momento numa posição particularmente favorável porque fez o trabalho de casa ao longo de muitos anos. O mercado brasileiro conhece hoje muito melhor os vinhos portugueses, valoriza a sua diversidade e reconhece a sua qualidade. Este capital reputacional poderá fazer a diferença nesta nova fase de maior abertura e concorrência.”

Mais competitividade, mais concorrência

A descida progressiva da tarifa deverá traduzir-se numa redução do preço final de muitos vinhos europeus no mercado brasileiro, embora o impacto concreto dependa também de fatores como a evolução cambial, a estrutura de margens dos importadores e distribuidores e a política comercial do retalho.

Para os produtores portugueses, a nova realidade significará maior competitividade, mas também um aumento da pressão concorrencial dentro da própria categoria europeia.

“Este não é apenas um ganho para Portugal — é uma oportunidade para toda a Europa. Espanha, Itália e França irão naturalmente reforçar a sua presença e investimento no Brasil. O verdadeiro desafio para Portugal será transformar a afinidade histórica e cultural que já tem com este mercado numa liderança comercial ainda mais robusta.”

Um mercado cada vez mais sofisticado

Nos últimos anos, o Brasil afirmou-se como um dos mercados mais dinâmicos para o consumo de vinho fora da Europa, impulsionado por um consumidor progressivamente mais informado, mais curioso e mais recetivo à descoberta de novas origens, estilos e segmentos premium.

Neste contexto, a redução das barreiras tarifárias poderá acelerar a sofisticação do mercado e ampliar o acesso a referências de maior valor acrescentado.

“O consumidor brasileiro está hoje mais preparado, mais exigente e mais aberto a explorar o universo do vinho. A redução destas barreiras pode contribuir decisivamente para elevar ainda mais o mercado e consolidar o vinho como produto cultural, gastronómico e de lifestyle. Estamos muito motivados para esta nova fase e orgulhosos por termos contribuído, ao longo de muitos anos, para a valorização da marca Portugal, dos vinhos portugueses e da nossa gastronomia num mercado da dimensão do Brasil.”

Para Nuno Guedes Vaz Pires, esta nova fase coincide ainda com um momento de reforço da presença portuguesa no Brasil através de novas iniciativas de promoção e ativação de marca.

“Estamos particularmente entusiasmados com esta evolução num momento em que continuamos a investir fortemente no mercado brasileiro. Entre 25 de julho e 2 de agosto realizaremos no Rio de Janeiro o Chefs Week, um grande evento que levará ao Brasil alguns dos melhores vinhos do mundo e protagonistas da gastronomia portuguesa. Acreditamos que o futuro da valorização do vinho passa também por o posicionar no contexto mais amplo da cultura, da experiência e do lifestyle.”

A próxima década poderá, assim, revelar-se decisiva para redefinir o papel dos vinhos portugueses num mercado onde o potencial sempre foi evidente — mas onde as condições económicas poderão finalmente começar a alinhar-se com essa ambição.