O colapso da Oeno com muitos lesados em Portugal

O que era apresentado como um "porto seguro" do investimento em vinhos de luxo transformou-se num pesadelo financeiro.

Fotografia: Fabrice Demoulin
Luís Alves

Luís Alves

O que era apresentado como um "porto seguro" do investimento em vinhos de luxo transformou-se num pesadelo financeiro. Com centenas de portugueses em risco de perderem o investimento, a Revista de Vinhos falou com Tiago Stattmiller, o rosto da empresa em Portugal até há pouco tempo, que se assume também como vítima. "A mim não me puxaram o tapete, tiraram-me o chão", desabafa.

 

A notícia caiu nas últimas horas como uma bomba no setor: a Oeno Group, corretora de vinhos de luxo sediada em Londres e com forte presença em Portugal - o terceiro mercado mundial -, cessou atividade, deixando um rasto de dívidas e centenas de investidores desesperados. No site da empresa, um aviso da City of London Corporation alerta para uma "situação complexa" e para a probabilidade de perdas totais. Em Portugal, o cenário é crítico, com cerca de 600 clientes e milhões de euros sob gestão agora envoltos em incerteza.

Tiago Stattmiller, que até há pouco tempo liderava a operação da Oeno em Portugal, garante que a derrocada o apanhou de surpresa. "Eu perdi tudo. Perdi o trabalho, perdi o meu ganha-pão, perdi o meu investimento", afirma Stattmiller à Revista de Vinhos. Confrontado com a responsabilidade perante os investidores portugueses, o ex-responsável defende que a falha foi estrutural e de topo: "Não há nenhum ‘broker’ que soubesse nada disto. Estamos a falar de algo que aconteceu no topo”, assegura.

Para Tiago Stattmiller a situação é comparável à falência de um banco onde o funcionário é tão vítima como o cliente. "Se eu tiver dinheiro no banco e o banco for à falência, a culpa não é do gestor de conta".

O gestor revela ainda que a sua saída da empresa ocorreu porque a “ligação que tinha com a Oeno não foi respeitada”. Apesar de já não estar na estrutura, continua a tentar apoiar quem nele confiou. "O que eu estou a tentar agora é ajudar os meus clientes".

Um castelo de cartas com milhões em risco

A dimensão do desastre começa agora a ser desenhada pelas autoridades britânicas. O jornal Observador refere que a empresa esperava fechar o ano com cerca de 120 milhões de euros em ativos sob gestão a nível global, sendo Portugal o seu terceiro mercado mais importante.

O alerta das autoridades londrinas é sombrio: acredita-se que apenas 20% do vinho dos clientes esteja efetivamente em contas individuais às quais os investidores podem aceder. O restante estará numa conta global controlada pela Oenofuture Limited, o que torna a recuperação um processo mais difícil. Michael Doerr, o mediático CEO que personificava o sucesso do grupo, terá resignado em junho de 2025, embora o registo oficial só tenha surgido em novembro, coincidindo com um pedido de falência pessoal por parte da Autoridade Tributária britânica.

Do luxo da "City" a dias sombrios

O contraste entre a realidade atual e a imagem que a Oeno projetava é dificilmente comparável. Recentemente, a Revista de Vinhos visitou a Oeno House no coração financeiro de Londres. Localizada na prestigiada The Royal Exchange, a loja era sinónimo de sofisticação, funcionando como "ponto de contacto físico entre investidores e conselheiros de vinho".

Naquela altura, Michael Doerr falava com entusiasmo de um ciclo de vida "bonito" onde todos saíam vencedores. O discurso era de paciência e de longo prazo, com promessas de retornos de investimento entre 9% e 15%. Tiago Stattmiller reforçava essa ideia em Portugal, afirmando que o vinho era um "porto seguro" e que a carteira nacional era composta por investidores que duplicavam ou triplicavam o seu capital investindo em ícones como Barca-Velha.

Hoje, a Oeno House está fechada e os escritórios de Oeiras são o eco de uma promessa quebrada. Em Portugal, a CMVM já esclareceu ao Observador que, embora tenha autorizado um fundo da Oeno em junho, este nunca chegou a iniciar atividade, deixando os investidores da corretora sem a rede de segurança da supervisão direta do regulador de mercado nacional.

As autoridades recomendam aos investidores que contactem a polícia britânica caso suspeitem de fraude e tentem localizar os ativos contactando diretamente os armazéns alfandegários referidos na sua documentação original.

O caso Oeno é agora uma investigação internacional entregue à Trading Standards e às autoridades policiais.