Vindima antecipada, quantidade majorada

Fotografia: Arquivo
Marc Barros

Marc Barros

Campanha traz aumento generalizado de produção, com uvas e mostos equilibrados. Chuvas recentes baralham as contas.

 

O cenário é generalizado e extensível a praticamente todo o país. A vindima de 2026 arrancou mais cedo que o habitual, mas a produção não sofrerá com isso. Pelo contrário, de acordo com os vários enólogos e produtores ouvidos pela Revista de Vinhos, esperam-se aumentos substanciais da quantidade de uvas a chegarem às adegas na presente campanha face ao ano passado - quando, porém, a quebra chegou a ser dramática.
A sul, no Alentejo, Vasco Rosa Santos, do WineStone Group, dá conta que “os brancos já estão colhidos e estamos nos tintos”; porém, a chuva, que chegou a 10 litros (40 no Douro, registados na Quinta do Côtto) veio complicar o cenário. Porém, “as uvas estão consistentes e equilibradas, os tintos muito homogéneos, com as uvas bem pintadas”, referiu. Aquele responsável aponta para um aumento de produção regional a rondar 20%, ressalvando contudo a forte quebra sofrida em 2024. Por sua vez, em Lisboa, a produção será sensivelmente igual à última campanha. Vasco Rosa Santos dá conta de um cenário generalizado de doenças na vinha que contribuirá para a redução produtiva.
No Douro, Carlos Magalhães, que elabora os vinhos Palato do Côa e presta consultoria no Pacheca Group, aponta para um aumento de produção entre 20 a 30% face a 2025, sendo que o ano transato sofreu uma quebra de 50%. A vindima “começou muito cedo, entre duas a três semanas, mas devia ter começado mais cedo, pois as uvas estavam prontas mas as adegas ainda não”, nota.
Depois de começar com os brancos e rosés, avançou agora para os tintos, mas “a chuva dos últimos dias parou a vindima”. Ao mesmo tempo, as elevadas temperaturas que se fazem sentir no Douro levam a que os trabalhos decorram de forma mais lenta, assinala.
No caso dos brancos, Carlos Magalhães dá conta de uvas “com álcool provável entre 13,5 a 14%, em vez dos mais habituais 12,5 a 13%”, mas “com boa acidez para equilibrar e pH também equilibrados”. Há agora o receio de que a chuva, que no início “até foi boa” para repor os níveis hídricos da vinha, possa atrasar os trabalhos.
No Dão, o enólogo dá conta de “10 a 12 dias de antecipação” em relação ao ano passado. “As plantas estão com o ciclo muito curto, desde a floração à vindima, pelo que há menos tempo para amadurecer a uva”. Carlos Magalhães antecipa mesmo que no futuro, as decisões de vindima passem menos pela análise de elementos como álcool provável, acidez e pH, mas pela avaliação do ciclo fenológico.
Na região dos Vinhos Verdes, a vindima arrancou 15 dias mais cedo, algo que não contrasta muito com a última campanha, mas é “um mês mais cedo do que há duas décadas”, assinala o enólogo António Sousa.
A precipitação abundante que se fez sentir, cerca de 100 mm., levou muitos operadores da região a pararem os trabalhos. Não foi o caso deste enólogo porque, como nos disse, “tenho uvas mais prontas a chegar e para a semana entro em ‘overbooking’!”, brinca, devendo começar a operar em turnos na adega. Porém, a uva apresenta-se em bom estado fitossanitário, “com menos grau, mas hoje em dia isso não é problema”, remata, até porque “grande parte da acidez está equilibrada, as uvas chegam com 12% álcool provável e 8 gramas de acidez”. As suas estimativas apontam para um aumento regional de produção entre 20 a 30%.
A Revista de Vinhos continuará a acompanhar a evolução da vindima.