Os viticultores portugueses saíram à rua em defesa do "património vitícola nacional". O protesto, que decorreu em simultâneo em várias localidades das diversas regiões demarcadas do país, a "valorização da origem" do vinho nacional. Em causa está, afirmam, a desvirtuação do vinho português pela "importação de 690 milhões de litros de vinhos espanhóis de forma não controlada nos ultimos seis anos" que entram no circuito comercial vendido como vinho português.
No Peso da Régua, a manifestação revestiu-se de forte carga simbólica, pelo facto de ter lugar no dia do Vinho do Porto, isto no ano em que o Douro celebra 270 anos sobre a sua demarcação e 25 anos sobre a classificação como Património da Humanidade.
Há, porém, quem defenda que os volumes de vinhos importados são superiores aos veiculados oficialmente. O Ministério da Agricultura liderado por José Manuel Fernandes recebeu um memorando de análise dando conta de que 66% de todo o vinho classificado como mesa comercializado em Portugal (o qual representa mais de 50% de todo o vinho vendido no país) tem origem em Espanha. E o presidente da CVR Alentejo, Luís Sequeira, apontou para volumes de vinhos espanhóis de quase 300 milhões de litros, anualmente, entre 2021 e 2023, que entraram em Portugal.
Já os dados do IVV referem que, em 2025, foi colocado no mercado “mais vinho português e menos vinho importado”, ou seja, “mais seis milhões de litros no vinho de Portugal (+1,1%) e a redução de 29 milhões de litros de vinhos importados (-18,4%)”. O IVV conclui que, “do global de 726 milhões de litros colocados no mercado, 82% foi vinho português e 18% de vinho importado - sendo esta relação a mais favorável aos vinhos nacionais nos últimos 10 anos”.
Porém, poderá estar em causa a metodologia de apuramento dos dados estatísticos. Os números do IVV são obtidos através de uma fórmula que calcula o pagamento das taxas de todos os vinhos colocados no mercado. Com efeito, estes devem pagar as respetivas taxas na CVR que lhes respeita, quando são certificados como DOC e IGP, ou no IVV quando não têm origem, desde logo por serem comprados no exterior, esmagadoramente em Espanha, ou mesmo nacionais, mas que não são certificados como regionais.
Porém, através desses valores, não se afigura possível distinguir entre os que são colocados no mercado nacional ou para exportação - ao contrário do que refere o documento, do qual se subentende respeitar a vinhos colocados em Portugal Continental. Por estes motivos, são cada vez mais aqueles que defendem que a metodologia estatística deveria agregar os números da Autoridade Tributária respeitantes aos impostos pagos na transação dos vinhos.
Já este ano, como aqui deu conta a Revista de Vinhos, nos primeiros cinco meses de 2026, Espanha colocou 36 milhões de litros de vinhos no nosso país, mais 8,1% face a igual período de 2025. Com efeito, no período entre janeiro e maio de 2026, as vendas do país vizinho a Portugal ascenderam a 20,9 milhões de euros, um incremento de 22,4%, enquanto o preço médio por litro subiu 13,7%, cifrando-se em 0,58 euros/litro. Os dados da Organização Interprofissional do Vinho de Espanha (OIVE) revelam que Portugal é o terceiro principal mercado de exportação para os vinhos espanhóis, depois de Alemanha e França, e à frente da Costa do Marfim.
Em cima da mesa está ainda a criação de legislação que visa estabelecer os custos de produção como mínimo referencial para a transação de uvas e vinhos e a proteção face a práticas comerciais abusivas e concorrência desleal. Em França, este pacote legislativo ficou conhecido como "Lei EGAlim".