A Ásia não é para impacientes

A Ásia não é, nem nunca foi, um “El Dorado”. É um mercado exigente, fragmentado e lento a construir. Mas para quem tiver visão, paciência e consistência pode ser uma das poucas regiões do mundo onde ainda há verdadeiro crescimento por conquistar.

 

Começo esta coluna com um tema que me é particularmente próximo, pessoal e profissionalmente. Foi na Essência do Vinho que iniciei a minha carreira, há quase 20 anos. Resido na Ásia há 14 anos, onde represento a família Symington como gestor de mercado. Foram 10 anos em Hong Kong, três em Singapura e faz agora um ano que Banguecoque é a minha base. A Ásia é uma região vasta, variada e dinâmica, extraordinária para visitar e viver. Mas, como mercado para vinhos, e em particular para vinhos portugueses, vale a pena? O investimento necessário para entrar nestes mercados, encontrar distribuição, criar relações comerciais e implementar marcas, compensa o retorno? Deixou de ser, ainda é ou pode ainda vir a ser um “El Dorado” para os nossos vinhos? Vamos por partes. 

Falar de Ásia, no sentido lato, é tão impreciso como falar de América sem distinguir entre América do Norte, América Latina e América do Sul ou até mesmo falar de Europa sem reconhecer as diferenças profundas entre Norte, Sul e Leste. Normalmente, divido o continente asiático em quatro partes: Nordeste Asiático, China, Sudeste Asiático e subcontinente indiano. Divido-o assim pelas diferenças profundas entre estas regiões. 

O Nordeste Asiático é, de longe, a área com maior poderio económico, contando com a quarta maior economia do mundo (Japão), a 15ª (Coreia do Sul) e a 21ª (Taiwan). Incluo Taiwan aqui e não na China. Não por razões políticas (prefiro não me imiscuir nestas coisas), mas sim porque acho a economia e a sofisticação do mercado mais próximas dos vizinhos a norte do que dos vizinhos mais próximos a oeste. 

China, incluindo Hong Kong e Macau, apesar dos recentes anos de problemas económicos e mercado em declínio, permanece fundamental nesta equação. O Sudeste Asiático é extremamente variado – da “Lion City” Singapura à gigante Indonésia – e apresenta enormes oportunidades, ainda que a maioria das economias continue a ser, por agora, emergente. 

Finalmente, o outro gigante em crescimento, Índia. Com um consumo per capita de 0,05lts. (uma miniatura de 50 ml. por ano por pessoa!) está ainda muito longe de ser um mercado válido. Porém, o consumo está a crescer rapidamente, à medida que a classe média aumenta em número e em capacidade económica. E o recente acordo comercial com a União Europeia pode abrir portas aos nossos vinhos, tornando-os mais competitivos e, por isso, mais apetecíveis. Perante esta diversidade, falar da Ásia como um único mercado não só é simplista, é perigoso do ponto de vista estratégico.

Vamos, então, à questão inicial. Vale a pena aos produtores portugueses investir recursos e tempo nesta parte do mundo? 

Saber esperar ou adiar?

Depende. E depende, em particular, do espaço temporal. Há, no entanto, uma diferença curiosa na forma como os produtores encaram o tempo. A paciência e a vontade em investir são muito diferentes entre a viticultura e enologia e a parte comercial. Ora vejamos. 

Desde a compra de um terreno até à primeira vindima passam facilmente três anos. Mais de cinco para que a qualidade das uvas seja consistente. Vinificação e eventual envelhecimento acrescentam mais um a dois anos. No total falamos de um horizonte de cerca de sete anos até que um novo produtor tenha vinho pronto para o mercado. 

Já na área comercial, a realidade é outra: um a dois anos de paciência e, se os resultados não aparecem, muda-se de estratégia. E isso, lamento informar, não é válido no caso da Ásia. Não o é noutros mercados, muito menos no asiático. Pela distância, pelo total desconhecimento do que são os vinhos portugueses e, talvez mais importante ainda, pela ausência da “marca Portugal”. 

Não entrarei neste último ponto por agora, acho que merece um artigo por si só. Dito de outra forma, não havendo tempo e investimento em recursos humanos ou em presença física nos mercados, aliada a uma boa dose de paciência e perseverança, e mais vale nem sequer olhar para esta parte do mundo, focar nos mercados mais “imediatos”. Isso apenas significa adiar a entrada numa das mais dinâmicas regiões do mundo, onde mais de metade da população mundial reside e que cresce economicamente como poucas. E deixar os mercados abertos para que a concorrência continue a trabalhar e a crescer, criando uma barreira cada vez maior à entrada futura do nosso país de forma competitiva. Pelo que vejo, estes não estão parados. Resta saber se os produtores portugueses têm o apetite e, claro, a capacidade financeira para o fazer. 

A Ásia não é, nem nunca foi, um “El Dorado”. É um mercado exigente, fragmentado e lento a construir. Mas para quem tiver visão, paciência e consistência pode ser uma das poucas regiões do mundo onde ainda há verdadeiro crescimento por conquistar. A questão não é se vale a pena. É quem está disposto a fazer o que é preciso para que valha.

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