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A crítica de vinhos ideal

A partir da década de 1980 assistimos ao surgimento da figura dos críticos de vinho. No passado, os comerciantes compravam e vendiam vinhos aos clientes e não havia tanta discussão sobre as qualidades dos vinhos. Mas isso mudou drasticamente quando Robert Parker emergiu como um crítico de vinhos que atuava como “o campeão dos consumidores”, avaliando vinhos numa escala de 100 pontos. Fornecia informação para os apreciadores de vinho ricos mas com pouco tempo disponível e que queriam saber quais eram os melhores vinhos, sem terem que aprender muito sobre o tema. Parker afirmou que a vindima de 1982 em Bordéus foi excelente e o tempo provou que estava certo.


Hoje em dia, existem muitos críticos de vinho. Em cada país e até em cada região existem pessoas que provam e avaliam todos os vinhos, geralmente vendendo essas notas por meio de um guia impresso ou um site de assinatura. Os críticos são importantes: o vinho é muito caro e podemos gastar bom dinheiro numa garrafa e, em troca, obter algo que não é do nosso gosto. Mas, na realidade, o que faz um bom crítico?

Em 1757, David Hume, o famoso filósofo do século XVIII, escreveu uma obra influente chamada ‘On the Standards of Taste’. Hume estava interessado em perceber como definir padrões no campo da estética.

Existirá algo que possamos definir como beleza verdadeira? Como separamos o bom gosto do mau? Nessa obra, Hume delineou o que acreditava ser um verdadeiro padrão de gosto e beleza: a concordância entre aqueles a quem chamou “críticos ideais”. Quando os críticos ideais concordam, então temos um padrão. No mundo do vinho, vamos a certas regiões e haverá uma hierarquia de produtores, sendo que alguns são reconhecidos como melhores do que outros. Portanto, de acordo com Hume, isso baseia-se no trabalho dos críticos ideais.
Hume enunciou cinco atributos desses críticos:

1 sentidos apurados
2 unidos por um sentimento delicado
3 melhorado pela prática
4 aperfeiçoado pela comparação
5 e livre de todo o preconceito.

Na prova de vinhos, o único atributo que se destaca é a ‘delicadeza do gosto’, que ocorre quando “os órgãos são tão finos que não permitem que nada escape e; ao mesmo tempo, tão exatos a ponto de perceber todos os ingredientes da composição”. Portanto, para nós, enquanto amantes do vinho, as duas questões principais são as seguintes. (1) Existe um padrão de gosto no vinho? Ou seja, pode haver um acordo amplo e universal sobre quais vinhos são os melhores? E (2) existem críticos de vinho que cumprem o papel de críticos ideais?


A chave e o couro

Hume usa a prova de vinhos como um exemplo que ilustra a delicadeza do paladar. O filósofo refere-se a Dom Quixote e ao trecho em que Sancho diz que a sua habilidade para provar vinhos vem da família. “Certa vez, dois parentes meus foram chamados para dar a sua opinião sobre um lote, que deveria ser excelente, por ser velho e de boa colheita”, diz. Eles provam. Ambos acham que é um vinho adorável, mas um diz que tem uma nota de couro; o outro reivindica um toque de ferro. “Não pode imaginar o quanto eles foram ridicularizados pelo seu julgamento. Mas quem riu no fim? Ao esvaziar o barril, foi encontrada no fundo uma chave velha com uma tira de couro amarrada”.

É apenas uma anedota, mas mostra que algumas pessoas podem ter essa “delicadeza” de sabor, que lhes permite discernir detalhes finos. Isso levanta uma questão interessante: algumas pessoas são especialmente dotadas quando se trata da olfação e palato? Ou tudo o que é necessário é uma certa aptidão - conferida com um sentido de paladar e olfato normais, que é então acoplado a outras qualidades para criar um provador experiente?

O que destaca o crítico de vinhos ideal do resto das pessoas, nesta visão? Hume expande: “Estes terão uma delicadeza de imaginação e simpatia que nos falta, aos meros mortais, e possuirão a experiência e o conhecimento necessários no seu campo. Não serão influenciados por tendências ou modas e estarão livres de preconceitos ou enviesamentos. Terão cultivado as suas capacidades discriminatórias. E os seus julgamentos irão resistir ao teste do tempo: os vinhos que reconhecem como excelentes também serão reconhecidos como excelentes pelos seus pares e pela maioria dos que os seguem”. 

Se aceitarmos a tese da crítica ideal aplicada ao vinho, tal sugere que os maiores críticos possuem capacidades especialmente refinadas e que os seus julgamentos são afirmações objetivas dos factos. Mas embora desejemos que os críticos de vinho possuam qualidades tais como sentidos refinados, bom conhecimento e isenção de preconceitos, não está claro se podemos considerar a classificação de um crítico como constituindo as propriedades de um vinho. Tal ocorre porque todos nós trazemos algo para o processo de prova. Mesmo os críticos que tentam ser imparciais e deixar as suas preferências de lado não ficarão imunes a certo grau “autobiográfico” nas avaliações.

A teoria crítica ideal tropeça nas pedras do gosto pessoal. Por mais que tentemos, não podemos descartar totalmente as preferências pessoais quando se trata de avaliar vinhos. E nem devemos. Alguns críticos celebram vinhos tintos concentrados e maduros com notas de carvalho doces e picantes de barricas de carvalho novas. Outros críticos celebram os tintos refinados e focados com toques vegetais e um pouco de mineralidade por terem envelhecido em ânfora. Não há aqui muita concordância…

Na minha opinião, devemos aspirar aos padrões de Hume, mas reconhecer a realidade: não iremos lá chegar. Quando se trata da estética do vinho, esta não reside na capacidade dos principais críticos. Em vez disso, está nas mãos de toda a comunidade do vinho, dado que cada indivíduo que contribui para este julgamento da comunidade possui suficiente capacidade financeira e/ou competência. Se o leitor é bom na prova e tem alguma experiência com vinhos, então a sua opinião é válida. Todos nos juntamos; discutimos sobre vinhos; e bebemos juntos. Depois de algum um tempo chegaremos a uma espécie de consenso sobre quais são, na realidade, os melhores vinhos.

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