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O preço do vinho

Os elementos que formam o preço de um vinho nem sempre são tangíveis. A certeza é que, seja qual for o seu custo, há grandes vinhos feitos em todo o mundo.


Um dos aspetos que torna o vinho incomum é a enorme diferença de preços entre a garrafa mais barata e a mais cara. É algo que não acontece com a maioria dos produtos agroalimentares. Claro, sempre existiram produtos de luxo, vendidos a preços exorbitantes. Mas estes geralmente habitam nos seus próprios ecossistemas. No vinho, geralmente encontramos referências baratas e outras muito caras na mesma carta de um restaurante, ou até bem próximas uns dos outros na prateleira de uma loja. No mundo do vinho, estamos tão habituados a isso que já nem ficamos surpreendidos.

Afinal de contas, os preços do vinho não refletem simplesmente os custos de produção mais a margem de distribuição. E sim, o preço das uvas pode variar. Uma tonelada de uva pode ser colhida de forma barata em alguns países, mas nos melhores vinhedos podem ser – e são-no - bastante caras. Em Champagne, que apresenta alguns dos preços mais altos da uva, uma tonelada custará cerca de 6.000 euros, da qual se obterão provavelmente cerca de 650 litros de vinho. Mas o preço das uvas por si só não é responsável pelos preços altíssimos dos melhores vinhos. A escassez tem um papel a cumprir: os vinhos de nomeada são muito procurados e sempre que há um desequilíbrio entre a oferta e a procura, o preço reflete-se. Ou seja, o vinho assume a forma de produto Veblen (ou bem de ostentação): conforme o preço aumenta, o valor percebido aumenta e temos um círculo virtuoso de preços sempre em alta, que, para os vinhos de topo, conhece poucos sinais de desaceleração.

Ao passo que alguns produtores procuram obviamente posicionarem-se para tentarem entrar no clube de elite com vinhos de edição limitada e, portanto, muito caros, outros tornaram-se famosos acidentalmente. Os produtores que têm os seus vinhos amplamente reconhecidos como muito superiores aos dos pares podem ver o valor de mercado das suas garrafas disparar. Têm por isso uma escolha: manter os níveis de preços numa base razoável - de modo a que a base de clientes existente possa dar-se ao luxo de os adquirir - e assim permitir que o mercado secundário estabeleça essa margem ou; aumentar os preços e ganhar o dinheiro sozinhos. Nem todos ficam contentes quando os seus vinhos se tornam garrafas de celebridades que apenas os super-ricos podem pagar, pois isso gera problemas de alocação. Claro, a maioria dos produtores adoraria ter esse problema. Mas estes consumidores ricos ficam bastante irritados quando o fornecimento é-lhes vedado ou nem sequer lhes é proposta qualquer garrafa.


No meu tempo…

Verificou-se recentemente um aumento nos preços. A maioria dos vinhos de qualidade é produzida em quantidades limitadas e agora há muitas pessoas ricas que desejam os mesmos vinhos. O interesse pelo vinho aumentou e diria que, embora o mundo do vinho seja muito mais interessante agora do que quando comecei a provar vinho profissionalmente, em meados da década de 1990, os preços dos vinhos de gama alta são muito mais elevados hoje do que eram naquela época, a ponto de agora estarem fora do alcance da maioria das pessoas.

Quem for um profissional de vinhos e esteja agora a começar no setor, a menos que tenha amigos mais velhos e generosos com garrafeiras bem abastecidas - ou trabalhe num restaurante de primeira, onde pode provar dos vinhos de cada cliente – provavelmente nunca irá conseguir provar alguns dos melhores vinhos clássicos que são hoje extremamente caros. O ‘benchmarking’ está a tornar-se difícil. Além disso, a nossa relação com uma garrafa de vinho que custa o mesmo que um carro pequeno vai ser um pouco complicada. É difícil encará-la simplesmente como uma bebida.

Mas será que esse aumento do preço dos vinhos de primeira linha pode ser uma das razões pelas quais o mundo do vinho é agora tão interessante? Se as pessoas gastam muito dinheiro em vinhos de topo, significa que há dinheiro a rodar no sistema. Pessoas que consideram esses preços elevados demais acabam por adquirir outros vinhos.

Tomemos Portugal como exemplo. Portugal é agora um país muito mais interessante para o vinho do que era quando visitei o país pela primeira vez, em 1995. O setor viveu profundas transformações. Parte disso deve-se à capacidade dos viticultores e enólogos, mas outra parte é que existe agora mais procura por bons vinhos portugueses. As pessoas estão dispostas a pagar pelos vinhos e esta oportunidade de mercado tem levado os produtores a serem mais ambiciosos. Estes podem dar-se ao luxo de fazer vinhos melhores porque agora há clientes para esses vinhos.

Não é possível fazer vinhos interessantes a um preço baixo. Se um viticultor do Dão, Bairrada ou Douro quer produzir um bom vinho, vai exigir um investimento considerável e o vinho resultante não será barato.

Será que os consumidores pagariam 30 libras por cada garrafa de Pinot Noir do Novo Mundo se os grandes Borgonhas ainda estivessem à venda a preços de 1995? Sim, eu sei que os Pinot Noir do Oregon, Nova Zelândia e Austrália são diferentes dos Borgonha e os produtores dessas regiões ou países estão a tentar fazer os vinhos dos seus locais. Mesmo assim, o preço dos Borgonha permite que outras pessoas entrem nesse nicho agora vago.

Creio que existe um grau a partir do qual a elevada fasquia de preços criou espaço para outros prosperarem. O preço dos vinhos de topo tornou-se um pouco absurdo, mas há sempre outro vinho. Se conseguirmos livrar-nos daquele elo psicológico entre preço e qualidade, que nos leva a avaliar melhor esses vinhos e desejá-los ainda mais quando sabemos que são mais caros, podemos aproveitar os vinhos excelentes que estão a ser feitos simplesmente porque os produtores podem realmente ganhar dinheiro a fazê-los.

Há cinquenta anos, as pessoas de classe média podiam pagar pelos vinhos de topo das celebridades, como os premier cru de Bordéus e outros do mesmo calibre. Isso já não é o caso. Os topos de Bordéus e Borgonha estão fora de alcance. Mas não há problema. Existem hoje vinhos incríveis feitos em adegas de todo o mundo. Se o leitor estiver preparado para dizer adeus aos clássicos, há muitos novos clássicos à espera para serem descobertos.

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