Qual será o verdadeiro luxo no vinho?

Quem sabe de vinho não se deixa influenciar da mesma forma pelo preço ou promessas de valorização de um determinado rótulo. E quem realmente sabe e gosta de apreciar vinho não se impressiona por rótulos; o que verdadeiramente pretende é provar grandes vinhos, os que se expressem pela singularidade, essa mesma que admiramos nas obras de arte.

 

O setor do vinho convive mal com escândalos e mercados como o britânico irritam-se particularmente, sobretudo quando rebentam em pleno mês de dezembro e têm como epicentro a exclusiva city financeira de Londres. A verdade é que a coisa aconteceu e, a par de burburinhos iniciais em fóruns na web, percebeu-se que algo estaria realmente menos bem quando, em finais de novembro, fecharam os escritórios da Oeno Group, na The Royal Exchange. Estive lá, em reportagem, em outubro de 2024 (reportagem publicada na edição 421 da Revista de Vinhos). Entrevistei, entre outros, Michael Doerr, o então CEO, que desde a adolescência se movimenta no chamado mercado de luxo, sendo que aos 14 anos começou a cuidar e a transacionar cavalos de competição. “Apaixonei-me pelo conceito. É um dos raros investimentos no mundo onde é possível acompanhar todo o circuito de vida do produto. Um comprador ou colecionador adquire o vinho acabado de sair, guarda-o por 15 ou 20 anos e, depois, vende-o a alguém que o valoriza e o partilha com a família ou os amigos. No final, todos saem vencedores. Esse ciclo de vida é bonito, este conceito é fantástico”, dizia na altura.

A Oeno começou por ser desenhada pelo italiano Daniel Carnio, em 2015, inicialmente uma operação de pequena monta, muito focada na importação de vinhos italianos para o Reino Unido. O caráter de corretora de vinhos dá-se mais próximo do Covid, em 2019, com Michael Doerr e o então sócio Daniel Walker. “Don’t rush, take time”, aconselhava Michael aos investidores. “Não é preciso estarmos constantemente a ver o comportamento dos vinhos, vejam apenas a cada ano. Quanto mais tempo deixarem o vinho, mais valorizado será. O maior erro é querer vender seis meses ou um ano depois. Claro, há clientes que ficam aborrecidos por não terem tido grande rentabilidade mas esquecem-se que este é um negócio de longo prazo, que requer paciência”, alertava.

A média de retornos alcançada neste negócio variaria entre os 8% e os 12% ao ano, estando o histórico da Oeno acima, de acordo com os próprios, com percentuais de ganhos entre os 9% e os 15%. Estar no Reino Unido era uma vantagem, na medida em que os stocks estariam isentos de impostos. Entretanto, abriram escritórios nos EUA, Austrália, Itália, Espanha e Portugal. No nosso país contavam-se já mais de 500 clientes, que para terem acesso a uma carteira básica de investimentos em vinho tiveram que desembolsar um mínimo de 5.000,00€.

Quando o escândalo do colapso da corretora rebentou, Doerr não deu a cara. Em trocas informais de mensagens apenas esclareceu ter interrompido a ligação à Oeno em junho do ano passado, alegando nada ter a ver com o que está a suceder. Porém, sabe-se que a Companies House, entidade governamental que possui os registos das sociedades comerciais britânicas, somente recebeu a indicação da saída de Doerr no passado dia 4 de novembro. Já desde 22 de dezembro, na tentativa de acesso ao website oenogroup.com, surge uma notificação que, entre outros aspetos, partilha uma informação penosa a todos os investidores: “Se, na última década, investiu dinheiro na compra de vinho ou de whisky da Oenofuture Limited, deve estar ciente de que pode perder parte ou todo o investimento. Acreditamos que apenas uma pequena percentagem do vinho dos clientes – talvez 20% – esteja depositada em contas individuais às quais os clientes terão acesso. Entendemos que o restante do vinho está numa conta controlada pela Oenofuture Limited. No último mês, foram feitos esforços nos bastidores para transferir o máximo de vinho possível da Oenofuture Limited para as contas individuais dos clientes, mas essa tarefa tem sido gigantesca e apenas uma quantidade relativamente pequena de vinho foi transferida”.

Luxo. Conceito perigoso no vinho? Nas vésperas do Natal, a Revista de Vinhos questionou Tiago Stattmiller, corretor da Oeno responsável pelo mercado português, sobre o caso. “A mim não me puxaram o tapete, tiraram-me o chão”, confessava. “Perdi tudo. Perdi o trabalho, perdi o meu ganha-pão, perdi o meu investimento”, lamentava, para logo acrescentar: “Não há nenhum ‘broker’ que soubesse nada disto. Estamos a falar de algo que aconteceu no topo”. Algumas carteiras de clientes eram valores aparentemente seguros, que incluíam rótulos que antecipavam valorização garantida no tempo. Por exemplo, os investidores portugueses, muitos dos quais também investidores imobiliários, tinham uma predileção por Barca-Velha e Casa Ferreirinha Reserva Especial. Mas, na carteira de investimento proposta a nível global, havia igualmente vinhos de menor reconhecimento, parte dos quais eram apostas da Oeno enquanto “the next big things” em termos de perspetiva de evolução futura. Em muitos fóruns internacionais, lesados da Oeno, com menor conhecimento em vinho, alertam para o facto de alguns dos vinhos supostamente adquiridos terem sido, por verdadeiros entendidos em vinho, considerados bons mas de improvável valorização futura.

Tal como uma bolsa tradicional de valores de mercados financeiros, o vinho pode ser analisado sob um racional de investimento. O mercado mais famoso entre os europeus será porventura o Liv-Ex (The London International Vintners Exchange), com reportes diários, mas contam-se muitos outros: Vint (EUA), Cult Wines (UK), Vinovest (EUA), Bordeaux Index (UK), Bordeaux Cellars (UK), eWibe (Itália), CultX (UK), WineCap (UK). Os corretores representam consultoras de investimento que aconselham a criar coleções de vinhos com simpático potencial de valorização anual. Os acionistas que os suportam, e que fazem movimentar estas bolsas, são investidores que apostam em vinhos como poderiam tê-lo feito com qualquer outro produto com potencial de valorização ou colecionadores que pretendem materializar um gosto em garrafas icónicas, ora para posterior consumo próprio ora para acicatar ainda mais o vício de colecionar.

O caso Oeno servirá, porventura, para esfriar parte deste tipo de investimento que, sublinhe-se, é legítimo. Mas importa servir de alerta e passar a ser um contraponto ao discurso que vai sendo posto a circular nalguns métiers, colando sistematicamente o vinho ao luxo, empolgando subidas de preços demenciais de vinhos sem lastro histórico. Isso parece-me manifestamente perigoso, ainda que possa ser tentador aos olhos dos menos entendidos (e muitos deles são os próprios produtores de vinho). Acresce que quem sabe de vinho não se deixa influenciar da mesma forma pelo preço ou promessas de valorização de um determinado rótulo. E quem realmente sabe e gosta de apreciar vinho não se impressiona por rótulos; o que verdadeiramente pretende é provar grandes vinhos, os que se expressem pela singularidade, essa mesma que admiramos nas obras de arte. Correndo o risco de parecer parvónio ou pouco glamoroso afirmá-lo, acredito que o verdadeiro luxo no vinho está em conseguir provar vinhos de terroir.

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