Bastardo

Fotografia: Arquivo
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Marc Barros

Marc Barros

É, sobretudo, a norte de Portugal, entre o Douro e Trás-os-Montes, mas com presença em outras regiões do país, como a Beira Interior, que uma casta muito especial medra e desenvolve todo o seu potencial como uva para vinhos de mesa e, no caso do Douro, generosos. O nome, Bastardo, é muito curioso, e faz-nos pensar qual a sua origem. Não sendo de “casta” pura, poderíamos ser levados a crer tratar-se de um híbrido. Uma variedade mal-amada na adega? Ou apenas um “filho menor”, um clone, da casta Trousseau, presente sobretudo no Jura francês?
Certo é que se trata de uma variedade vigorosa, de produtividade média e maturações prematuras, muito presente nas vinhas velhas das referidas regiões, sendo tradicionalmente utilizada, sobretudo, para elevar o teor de açúcar dos mostos. Era já, em séculos passados, reconhecida pela sua capacidade em “gerar doce”. Em sentido inverso, apresenta-se como uma variedade com níveis reduzidos de acidez. Os seus vinhos mostram, portanto, intensidade de cor muito baixa, teores alcoólicos elevados e pouco corpo. O carácter rústico e a baixa acidez (4 gr./l) podem ser contrariados quando a variedade é proveniente de cotas mais altas.


A casta origina vinhos com pouca cor e extração – mas que podem ser extraordinariamente potentes -, muito elegantes, finos e altamente gastronómicos. Provem-se, por exemplo, os monovarietais Niepoort Projectos Bastardo 2015, Palácio dos Távoras VV Bastardo 2018, Conceito Bastardo, Quinta de Arcossó Bastardo 2015 ou o Séries 2015 da Real Companhia Velha. E abençoados aqueles que conseguirem deitar a mão a algum exemplar de Vinho Madeira elaborado com base na casta Bastardo…

 

Dicas:


1 - Estima-se que em Portugal existam cerca de 1100 hectares desta casta. A sua predominância é maior no Douro, onde era uma casta muito atrativa para integrar lotes de Vinhos do Porto, bem como em Trás-os-Montes. Mas também existe na Beira Interior, Bairrada, Dão ou, até há pouco tempo, Azeitão, sob o nome Bastardinho (ver texto sobre Vinhas em Extinção nestas páginas). E até na Madeira, com um valoroso hectare a sobreviver ainda hoje à dizimação da filoxera! Outras designações oficiais são Abrunhal, Trousseau em França, Merenzao (sobretudo na Galiza), Gros Cabernet na Austrália e África do Sul (usada para vinhos fortificados tipo Porto).

2 - A produção recomendada ronda os 6.000 l/ha. Sendo uma casta rústica, precisa de terrenos profundos, secos e quentes, adaptando-se a diferentes conformações e tipos de solos (xisto, barros drenados, aluvião e areia com disponibilidade de água).

3 - Não sendo uma variedade muito dada ao envelhecimento tendo em conta o reduzido teor de acidez e a sensibilidade à oxidação, os vinhos da casta Bastardo assistem a uma mudança de coloração muito interessante com o envelhecimento, passando dos tons vermelhos pálidos para os acastanhados com o passar dos anos.

4 - Aromaticamente, são vinhos muito expressivos, onde predominam os frutos vermelhos e bagas silvestres, ganhando complexidade com o passar dos anos, que lhe aportam notas terciárias de qualidade, como café, frutos secos, ou tabaco. O melhor mesmo é provar, desfrutando de todo o seu potencial à mesa.

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