Frederico Falcão

“Portugal tem que se promover pela diversidade”

Fotografia: Ricardo Garrido
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Marc Barros

Marc Barros

Enólogo de profissão, quando aos 42 anos foi nomeado para a presidência do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) tornou-se no mais jovem a exercer a função no órgão que é diretamente tutelado pelo Ministério da Agricultura. Formado em Évora, trabalhou no Esporão e estava há 11 anos na Companhia das Lezírias, além de trabalhos com os projetos Pegos Claros e Fundação Abreu Callado. 

 

Natural da Chamusca, está numa comissão de serviço que tem coincidido com um momento bem positivo dos vinhos portugueses, primeiro em matéria de exportações e, mais recentemente, com a recuperação do consumo no mercado interno. Insiste que as castas portuguesas são o fator-chave da diversidade dos vinhos portugueses e não por acaso está a desafiar instituições e empresas a apostar na criação de campos ampelográficos experimentais, com alguma dimensão, que permitam vinificar os resultados que vão sendo obtidos. Da partilha desses resultados poderá resultar uma aposta mais efetiva em duas ou três dezenas de variedades autóctones, sempre em nome da diferenciação.

Desta entrevista à Revista de Vinhos, outros dados se sublinham: a recuperação do mercado angolano nos primeiros meses de 2017, a procura intensa por novas plantações de vinha, o ingresso de jovens agricultores num setor dinâmico como é o do vinho.

 

Os vinhos portugueses significam hoje cerca de 727 milhões de euros em exportações. Mas o ano de 2016 terminou uma ligeira queda, de 1,1%. As vendas para Angola quebraram 55%, EUA e Canadá, por exemplo, cresceram... 

Em dois, três anos, Angola passou de nosso mercado número um, destacadíssimo, para ser o nosso oitavo mercado, em 2016. De facto, houve uma quebra muito grande, que começou em 2015 e cimentou-se em 2016, que fez com que Angola deixasse de ter a representatividade que tinha. Neste ano de 2017, sobretudo no primeiro trimestre, Angola cresce muitíssimo, mas tem sempre um problema de alguma instabilidade e pouca previsibilidade. Embora seja e continue a ser um mercado importante para Portugal, um mercado que os nossos produtores de vinho não devem abandonar, temos que pensar com cuidado se devemos apostar em concentrar tanto em Angola. Foi, certamente, por falarmos a mesma língua, pela proximidade afetiva que os dois povos têm, mas há riscos. Temos que encontrar outros mercados que sejam menos voláteis ou que tenham regras mais estáveis e os Estados Unidos são um país importante.

Os EUA não são um país, são 50 países. São 50 Estados com regras diferentes, muitas vezes com importadores diferentes. Estamos a crescer muitíssimo nos EUA, é um dos mercados que mais cresceu, a nossa posição está cada vez mais cimentada. Mas estamos a trabalhar meia dúzia de Estados e embora tenham ainda muito para fazer nesses Estados, há muitos outros para apostar, para conquistar e fazer trabalho. Creio que os produtores vão continuar a apostar muito nesse mercado, assim como no Canadá – ainda que aí haja a grande diferença da compra por monopólio, que nunca é tão certa, mas é um mercado onde também estamos a crescer e que tem bom preço.

 

Quando falamos em exportação falamos de preço. Elevar o preço das nossas exportações é fundamental para aumentar o sucesso dos vinhos portugueses no mundo?

Não temos quantidade suficiente para sermos competitivos com milhões no mercado mundial. Temos vinhos diferentes dos outros e temos que os saber valorizar. É claramente esse o caminho. Os EUA e o Canadá são mercados que pagam bem, onde os vinhos conseguem ser valorizados. Essa é a estratégia em termos nacionais; conseguir preços médios mais altos e com isso a sustentabilidade do setor vitivinícola português. 

 

A verdade é que o vinho português, em muitos mercados, continua ainda a ser demasiado barato por comparação com outros vinhos europeus…

Temos alguma carga negativa do passado em alguns países, nos EUA nem por isso. Creio, no entanto, que os países começam a olhar para Portugal não tanto nesse sentido. As distinções e prémios internacionais em concursos e revistas estrangeiras (americanas e inglesas à cabeça) fazem com que a imagem dos vinhos portugueses comece a mudar muito. A Jancis Robinson escreveu um artigo no “Financial Times” onde fez as contas às médias das pontuações dos vinhos dos últimos anos e à cabeça dos vinhos tintos estava Portugal. Quem lê isso começa a olhar de modo diferente para os vinhos portugueses. Portanto, começa a haver espaço para posicionar melhor os nossos vinhos.

 

Em termos internacionais, Portugal deve continuar a promover-se pelo prisma da diversidade do património genético ou pela relação qualidade/preço?

Tem que se promover internacionalmente pela diversidade. Portugal é o terceiro país do mundo com maior diversidade de castas, o segundo país do mundo com maior diversidade por km2. A nossa grande vantagem em relação a todos os outros países é a nossa diferença. A relação qualidade/preço, que de facto é fantástica, também pode ser encontrada noutros países, que têm uma relação qualidade/preço muito forte. Onde nos destacamos é, sobretudo, pelas nossas castas. Essa é a estratégia nacional. Mas não podemos começar a disparar os preços nos mercados. Os nomes das nossas castas são completamente estranhos aos consumidores mundiais. Um consumidor que não conhece os nomes das castas não vai querer arriscar muitas vezes. Temos que continuar a ter vinhos com boa relação qualidade/preço, apostar na diferenciação e ir subindo o preço médio. 

 

Generalizando, no mercado mundial das exportações de vinho, quais são os nossos principais concorrentes?

Espanha é um país com o qual competimos de alguma forma, porque tem preços muito baixos e um volume muito superior, com preços médios mais baixos, o que por vezes nos causa alguns problemas. Depois, países como Chile e Argentina são concorrentes globais porque têm vinhos com preços muito competitivos (mais o Chile do que a Argentina) e produzem quantidades semelhantes à nossa, sendo muito agressivos comercialmente. Não destacaria nenhum como concorrente direto. No fundo, todos os outros países produtores de vinho são nossos concorrentes. 

 

E o mercado nacional? Cresceu, é certo, mas essa evolução positiva pode ser entendida como um sinal efetivo de crescimento?

Em 2015 já vimos um aumento do consumo, em 2016 também. Portugal é hoje, de acordo com a OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho, o maior consumidor per capita de vinho no mundo. São os portugueses, o turismo que temos, mas o mercado nacional tem vindo a crescer de uma forma muito rápida e sustentável. Há ainda um crescimento grande também na restauração e isso é saudável. Temos que olhar para o mercado nacional com outros olhos. 

 

“Há muitos jovens a querer entrar no setor”

 

Que impacto real se antevê que possa ter a permissão de aumento da área de vinha até 1%, em Portugal, até 2030? 

Em janeiro de 2016 houve uma mudança de paradigmas. Deixamos de ter o sistema de direitos de plantação para ter o sistema de autorizações de plantação. Com o novo sistema, a venda de direitos, agora de autorizações, ficaram proibidas. Ao vedar a comercialização desses direitos não havia forma de alguém poder crescer. Em termos comunitários, a forma que foi encontrada para resolver essa questão foi a distribuição anual de novas autorizações, tendo os Estados-membros a possibilidade de definir o ritmo de crescimento, havendo um limite de 1% (este 1%, da área plantada a 31 de julho do ano anterior). Neste ano de 2017, disponibilizamos 1.932 hectares porque tínhamos 193.200 hectares plantados no ano passado. É uma forma efetiva para quem tem vinha ou queira entrar em atividade conseguir quota para plantar. Com isto, até final do programa devemos crescer cerca de 25.000 hectares. Neste ano, em que disponibilizamos os tais 1.932 hectares, posso dizer que tivemos mais do dobro das intenções, em termos de procura. Ou seja, isso mostra que o setor está a crescer, está atento, está dinâmico. É um bom sinal. 

 

Nessa procura por vinha, que superou o dobro da área disponível, falamos sobretudo de jovens viticultores ou de projetos já bem estabelecidos no mercado?

Temos muitos pedidos de jovens agricultores. Muitos. No Alentejo, em que o limite de crescimento é de 800 hectares, os pedidos dos jovens ultrapassaram essa quota. Há muita gente nova, há muitos jovens a querer entrar no setor. Também no Vitis (programa de reconversão das vinhas) vemos isso. Ao circularmos por provas, por feiras e eventos, vemos muita gente nova. É um sinal de esperança, porque a população rural está envelhecida. Se formos a assembleias gerais de adegas cooperativas as idades médias são altíssimas, o que é preocupante. Portanto, tanto jovem agricultor é uma boa perspetiva.

 

Por falar em setor cooperativo, como analisa o atual momento? As adegas que resistiram à crise ficaram, tal como as empresas privadas, mais fortes?

Claramente, uma parte muito substancial das adegas está hoje muito profissionalizada, muito competitiva e com boa gestão. Adegas e privados que não são competitivos, mais cedo ou mais tarde acabarão por desaparecer. Mas vejo com agrado que no setor cooperativo há muito profissionalismo e adegas muito bem preparadas, que estão em força no mercado e para durar.

 

Viaja bastante pelo mundo. É fundamental aproveitar essas viagens para provar vinhos estrangeiros, para comparar e ir percebendo o que os diferentes mercados procuram?

Durante muitos anos estivemos fechados, só a olhar para dentro, e ainda há muita gente que diz que que os nossos vinhos são os melhores do mundo… e não são. É preciso provar os outros, perceber onde estão, o que estão a fazer, para percebermos onde estamos, o caminho que devemos traçar. É muito importante que os nossos produtores saiam do país, provem outros vinhos, percebam as tendências mundiais, o que os outros estão a fazer, e encontrem o melhor caminho. É muito importante provar outros vinhos para nos sabermos posicionar.

 

Dentro de um ano vai concluir o mandato para o qual foi nomeado. Nota muitas diferenças entre o momento em que chegou ao IVV, 2012, e o presente?

Encontro um setor muito melhor do que quando entrei para o IVV, não por obra minha mas pelo grande dinamismo que tem. O setor cresceu em valor nas exportações, o setor profissionalizou-se mais, evoluiu mais, tornou-se mais competitivo. Até mesmo em termos de rotulagem nota-se que os vinhos estão mais adaptados ao mercado. Nota-se que tem havido um trabalho contínuo da parte dos nossos produtores de adaptação ao mercado, com vinhos cada vez melhores e com imagem cada vez mais apelativa. Nada a ver com o trabalho que fiz, mas coincide com o tempo que tenho estado por aqui.

 

O apelo do terreno, das vinhas, das adegas e dos laboratórios, continua a ser grande para o enólogo que nestes anos tem sido o presidente do IVV?

Eu sou um enólogo de base, trabalhava nas vinhas, na adega e fazia um pouco de gestão e da parte comercial. Esta função é muito diferente. Tem sido uma experiência muito rica para mim, vi o outro lado da questão, a parte legislativa e mais burocrata. Está a ser enriquecedor. Mas, claro que tenho saudades de mexer nas adegas. Faz parte de mim, do percurso de vida que escolhi. 

 

Aprendeu a ter paciência, por exemplo?

Sempre fui paciente. Aprendi, por exemplo, a gerir reuniões. Já as fazia antes, mas foi uma das grandes diferenças face ao trabalho que antes fazia no dia a dia. É uma pergunta difícil, não lhe sei responder diretamente…

 

Em 2018, o seu retrato estará na sala dos antigos presidentes do IVV ou isso será algo que ainda vai demorar mais uns bons anos?

Tenho um mandato que termina em 2018. O que vem para lá de 2018 não sei nem estou muito preocupado com isso agora. Não é uma decisão minha nem é algo que me preocupe muito. Até 2018 estarei a cumprir a função, o melhor que sei e posso. 

 

Assista aqui à entrevista da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho com Frederico Falcão.

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